
Por Alessandra Marcondes
O filme Todos os Homens do Presidente é muito mais do que um clássico de suspense baseado em fatos reais – ele é uma aula muito bem dada de jornalismo investigativo, antes de tudo. Baseado no escândalo de Watergate, incidente ocorrido em Washington em 1972 que resultou na renúncia de Richard Nixon algum tempo depois, o longa mostra a busca incessante de dois repórteres do Washington Post pela verdade dos fatos. A partir daí, o espectador se vê frente a um jornalismo romanceado na pele de Bob Woodward (Robert Redford) e Carl Bernstein (Dustin Hoffman), fiéis a técnicas e valores típicos da profissão, mas que talvez tenham se perdido no tempo – ou até mesmo nunca tenham existido.
Ao notarem que há um esquema complexo de corrupção escondida por trás da invasão à sede dos democratas, os repórteres começam a se empenhar a fundo em descobri-la para mostrar para o mundo, mas os próprios diretores do jornal não acreditam na história. Quando um dos diretores questiona se o Post deveria mesmo insistir em cobrir o caso, já que nenhum outro veículo da época estava dando atenção a ele, já notamos uma das primeiras críticas ao jornalismo. A agenda setting, espécie de valores que norteiam o que é importante para ocupar o espaço dos jornais, já estava presente na época das máquinas de escrever e se configura até hoje, podendo desviar o jornalista de seus objetivos finais.
Ao mesmo tempo, o filme acerta em mostrar o exercício da profissão da forma mais ética possível: os repórteres sempre se identificam como sendo jornalistas diante das fontes, e sempre checam os fatos com mais de uma pessoa para não correr o risco de publicar uma inverdade. Talvez isso que esteja faltando no jornalismo de hoje em dia, quando repórteres e diretores de redação mal têm tempo para checar a fundo as informações, postura que resulta em erros e em falta de credibilidade no jornalismo.
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A dupla de peso Redford-Hoffman dá carisma a este filme longo e difícil – seus 139 minutos são extremamente silenciosos (apesar de ter ganhado o Oscar de Efeitos Sonoros) e não são fáceis de acompanhar, pois envolvem uma infinidade de nomes e cargos políticos dos Estados Unidos da década de 70. Os personagens se completam, sendo Woodward um jornalista ‘novato’ e Bernstein já macaco velho, o primeiro mais calmo e inocente, e o segundo com mais desenvoltura necessária à profissão. É divertido acompanhar os truques que os repórteres utilizam para convencer uma fonte a falar o que sabe, manipulando a situação para que ela se sinta apenas confirmando uma versão já pronta, e não entregando as informações de mão beijada. Também é mostrada a desconfiança das pessoas ao ouvir a frase “Olá, sou jornalista do Washington Post”, mas é preciso admitir que, ao menos no filme, Woodward e Bernstein contam bastante com o advento da sorte.
Todos os Homens do Presidente também tem uma fotografia cuidadosamente elaborada, o que lhe rendeu o Oscar de Direção de Arte: são notáveis os contrastes entre tomadas escuras e claras, representando a verdade dos fatos escondida e a vontade dos jornalistas em encontrá-la. Em todos os encontros entre Woodward e “Garganta Profunda”, sua fonte secreta – e bastante desconfiada – do Executivo, é possível notar a divisão na tela, que dá certo aspecto mítico à presença da fonte. Mas até isto é cogitado pelo filme; quando o relator, que é quase um conselheiro, sugere que o repórter não se intimide com os mitos da Casa Branca, chama a nossa atenção para os próprios mitos do jornalismo, visto que o profissional não está livre de se perder entre o que acha e o que sabe de fato, acreditando cegamente em fontes míticas que também são passíveis de erro.
No final das contas, o filme pune os bandidos graças à insistência e ao empenho dos mocinhos, mas como é baseado em fatos reais – ganhou inclusive o Oscar de Melhor Roteiro Adaptado – dá a impressão de que o jornalismo serviria de termômetro da justiça na sociedade, bastando seus profissionais quererem. Quando chegam por telex as notícias das condenações dos envolvidos no caso, fica ao espectador a lição errônea de jornalismo como Quarto Poder, principalmente com a renúncia de Nixon. Em prol do romance fictício então o filme se perde, ignorando as limitações do jornalismo frente à justiça, e passa uma imagem bela e utópica de uma profissão que, assim como todas as outras, possui defeitos.
De qualquer forma, Todos os Homens do Presidente é um ótimo filme para entender o caso de Watergate e as conspirações que envolvem – infelizmente – a política até os dias de hoje. Quanto ao jornalismo, o longa serve de ponto de partida para um debate mais aprofundado sobre as suas técnicas e o exercício da profissão, mas não basta a si mesmo.
Direção: Alan J. Pakul
Duração: 139 minutos
Gênero: Suspense
Elenco: Dustin Hoffman, Robert Redford, Jason Robards, Martin Balsam e Jack Warden.











