Cosmópolis é um filme difícil por diferentes motivos. O enredo é quase teatral, emprestado do livro homônimo em que foi baseado. O cenário pouco muda: uma limusine. O protagonista é um ricaço de 28 anos frio, superficial e extremamente vazio que mais se distancia do que se aproxima do público comum. Como contexto, temos a derrocada do sistema capitalista e vários protestos políticos que sugerem uma anarquia. Some a isso uma pitada de sexo, violência e muitos dilemas da modernidade.
Quem dá vida ao ricaço Eric Packer é Robert Pattinson, que surpreende quem guarda um preconceito pelo vampiro teen de Crepúsculo. A personagem sente a necessidade de cruzar uma Nova York caótica em busca de um corte de cabelo, e enquanto isso faz reuniões, consultas médicas e sexo dentro da limusine. O filme todo é meio bizarro, com destaque para a relação assexuada de Eric com sua esposa poetisa – que, altamente sensível, é o oposto dele. E Oscar de bizarrice extra plus advanced para a cena de excitação que envolve o exame de próstata, uma subordinada e uma garrafa d’água.
A trama promove uma discussão importante sobre o mundo pós-moderno, onde dinheiro e tecnologia se encontram dando novas formas à nossa concepção de futuro. E sobre como a pós-modernidade pode transformar os seres humanos em eternos adolescentes, que procuram sensações inexploradas e cada vez mais intensas, como um tiro na mão, para encontrar um sentido na vida frívola que se leva. Mostra como somos frágeis, ao ponto de sermos atingidos por uma torta na cara de um desconhecido ou pela tristeza por um ídolo – o cantor de rap – ter morrido, mesmo cercados de seguranças. E que a nossa noção de felicidade foi totalmente deturpada, pois dinheiro e sucesso são capazes de transformar nossas informações e nossos valores em coisas terríveis.
Paradoxo notado é o fato de uma trama tão ‘futurística’ girar em torno sempre da busca pelo passado: mais do que um corte de cabelo, Eric cruza a cidade em busca do rosto conhecido do barbeiro amigo da família, que remete às memórias antigas desde o tempo de seu pai. A cena da barbearia é a que mais vale a pena no filme – ao contrário da supervalorização da crítica em torno do último diálogo com Paul Giamatti, que devia ser o clímax do filme, mas é eternamente boring. A da barbearia é melhor pois torna palpável a distância observada entre nossos antepassados e a juventude de hoje, que cultua o corpo, o prazer fácil e barato, o desapego, a violência verbal e carnal. Para quem tudo é passageiro e a vida é altamente descartável, tornando a morte iminente em uma forma de liberdade.
Feeling:o filme é chato, cheio de diálogos retóricos, mas tem seu mérito por discutir os dramas da vida moderna. Se você é um ser humano comum da classe ‘mérdia’, se sentirá bem por ver a felicidade nas pequenas coisas e ter uma vida normal, mesmo sem bilhões na conta.
Quando assistimos um filme baseado em um livro que já lemos, nossa impressão é sempre diferente de alguém que desconhece a história. Ou odiamos, porque o filme não conseguiu se manter fiel aos objetivos do livro, ou amamos, porque ele conseguiu transpor para a tela tudo o que imaginamos quando folheamos suas páginas. Eu li Adeus China: O último bailarino de Mao, e adorei. E adorei o filme também, porque poucas vezes tive a sorte de assistir a um longa tão fiel ao livro que lhe deu origem.
O filme traz a história de Li Cunxin, um bailarino chinês que foi recrutado aos 11 anos de idade para fazer parte da Academia de dança de Madame Mao, na época em que a China passava pela Revolução Cultural de Mao Tsé-Tung. Devido a uma visita do presidente dos EUA Richard Nixon à China, as relações dos dois países se estreitaram e, por isso, foi possível um maior intercâmbio entre eles, inclusive de artistas. Li Cunxin, já crescido, foi quem chamou atenção de Ben Stevenson, diretor do balé de Houston em visita à China. Foi convidado a passar uma temporada no Texas dançando com a sua companhia, acontecimento que mudaria sua vida para sempre.
Li muitas críticas dizendo que a história de Adeus China é um clichê, afinal, nada mais óbvio do que um camponês pobre que sai de uma província chinesa minúscula perto de Qingdao e acaba tirando a sorte grande de cair em uma cidade capitalista, cheia de riquezas, e se deslumbra com isso tudo. O que muita gente esquece, porém, é que se trata de uma história real. O livro é uma auto-biografia, escrita pelo próprio Li Cunxin, e ele mesmo descreve como ficou pasmo quando se deparou com os arranha-céus e uma ‘máquina que cuspia dinheiro’ (caixa-eletrônico), e o sentimento de angústia que tinha ao ver Ben gastando em um dia uma quantia muito além da que seu pai demorava um ano para conquistar nos campos da China.
Também tendemos a esquecer que a China de Mao Tsé-Tung era diferente da China de hoje. Extremamente fechada, às crianças só era permitido estudar o Livro Vermelho de Mao na escola, e a ideologia do regime comunista fazia uma verdadeira lavagem cerebral, levando todos a acreditarem que os norte-americanos e demais povos de países capitalistas viviam na extrema miséria. Óbvio que, para tornar o choque cultural ainda maior, Li Cunxin foi parar em uma companhia de balé, e teve contato com pessoas de classes muito mais altas do que estava acostumado.
O filme é uma bonita história de superação, dirigido com delicadeza e sensibilidade. Pude notar em cada cena elementos explorados no livro, como o papel de parede de jornal da sua casa em Qingdao, seu relacionamento problemático com Elizabeth, e o diálogo em uma danceteria em que ele fica assustadíssimo quando percebe que um norte-americano está falando mal do presidente em voz alta, sem medo de repreensões. Faz, sim, parecer que os Estados Unidos são a terra maravilhosa da liberdade, mas talvez para aquele recém-chegado da China comunista, realmente fosse.
Destaque para a música, os cenários e o figurino, impecáveis. Chi Cao, que interpretou Li Cunxin na fase adulta, também tem seu mérito no sucesso do longa: novato nas telas, ele conseguiu transmitir tudo o que eu esperava do personagem – sem contar as belíssimas cenas de balé, filmadas pelo próprio. Vale lembrar que Chi Cao é formado na Academia de Balé de Pequim e foi selecionado pelo próprio autor porque é filho de dois professores de Li Cunxin na época em que ele dançava na China.
O último dançarino de Mao equilibra perfeitamente a política com o romance, a dança com o pesar dramático, e traz um final fantástico, digno de filmão. Segure as lágrimas para não chorar.
Feeling: história de vida. Vá de cabeça aberta e lembre-se que nem tudo que parece clichê necessariamente o é, e se deixe levar pela música linda, pelo personagem fantástico, e pela história surpreendente. Deixe-se emocionar.
Filmes de guerra sempre são fortes, pesados, dramáticos. Não tem como assistir de maneira indiferente. A Chave de Sarah é mais um longa (adaptado do bestseller homônimo de Tatiana De Rosnay) que retoma a barbárie com que foram tratados os judeus na Segunda Guerra, desta vez sob um pano de fundo – quase – novo: o filme parte do episódio acontecido na França em julho de 1942, quando 13 milhões de judeus foram presos em Paris no Velódromo de Inverno - espécie de estádio onde deveriam acontecer apenas competições de ciclismo, hóquei e outros esportes – em condições sub-humanas. Ao contrário do ocorrido em outros países, onde a própria SS alemã se encarregava de caçar os judeus e os mandar para os campos de concentração, em Paris foi a própria Polícia Francesa a responsável por isso. Assim, o episódio até hoje é mal encarado pelos franceses, que não gostam de lembrar e muito menos mencionar esta mancha na história de sua nação.
Partindo daí, o filme já merece ter reconhecido seu mérito. É um longa francês sobre um episódio que todo francês gostaria de esquecer. Além disso, temos uma trama envolvente e emocionante sobre a história de Sarah Starzynski (a brilhante Mélusine Mayance), uma menininha que foi levada para o Velódromo junto com seus pais e, depois, para um campo de concentração nazista. O nome do filme é este porque quando a polícia francesa chega na casa de Sarah, esta tranca o irmão no armário para que os oficiais não o levem também. A partir daí, carrega sua pequena chave por todos os cantos, tendo em mente o único objetivo de voltar para casa para libertar o irmão.
Na outra ponta, temos a história de Julia (Kristin Scott Thomas), ambientada anos depois, em 2002. Ela é jornalista e foi incumbida pelo seu editor de escrever sobre o episódio do Velódromo de Inverno, que faria aniversário de 60 anos naquele ano. Já bastante dedicada à reportagem, sua investigação vira quase uma obsessão quando ela descobre que seu marido vai herdar um apartamento onde a família Starzynski viveu antes de ser deportada. A partir daí, a história de Sarah vai sendo desvendada e os dramas pessoais da jornalista caminham junto, virando quase que uma história só. A trama é envolvente e, mesmo cheia de vai e vem entre as cenas de Sarah e Julia, consegue manter o espectador grudado na cadeira, aguardando ansiosamente o rumo que aquilo tudo vai tomar.
A Chave de Sarah tem uma história bem triste, do início ao fim. Apesar de a menina ter a ‘sorte’ de encontrar um oficial alemão solidário que abre caminho para que ela fuja do campo de concentração e, logo depois, cruzar com um casal que, também de bom coração, acolhe 2 crianças judias em plena Segunda Guerra, mesmo sabendo dos apuros que aquilo podia lhes causar, a saga da menina ainda é triste, dramática, e representa toda a dor, o sofrimento e as feridas que uma guerra deixa abertas mesmo depois de anos. Julia investiga a trajetória de Sarah até o fim da Guerra, quando esta é adulta e tenta recompor sua vida. Mas, como esperar o final feliz de uma pessoa que (spoilers!) viu seus pais serem exterminados pela Guerra e, (spoilerzão!!) foi a única responsável pela morte do irmão, que foi uma das mais horríveis imagináveis, morrendo sozinho, com fome e sede, e decomposto dentro de um armário? Esta, para mim, foi a parte mais FODA do filme, que incomoda a gente, que dói, e que não dá pra esquecer. Fiquei mal mesmo com isso, angustiada, e neste momento vi o quanto eu estava envolvida com a personagem. E é por isso que o filme é muito bom e vale a pena.
Na minha opinião,o único pecado da trama foi fazer um esforço tremendo para que Julia tivesse um final feliz, tornando-o um tanto forçado. O casinho de amor comprado do final tenta amenizar todo o sofrimento pelo qual passou Sarah, como se o final feliz de Julia de certa forma até justificasse tudo o que aconteceu. Para mim, ameniza a gravidade da Guerra, que nunca deveria ser amenizada. Mas de qualquer maneira, o conjunto do filme é bom, bem feito e emocionante.
Feeling: filme de Guerra, vá preparado para sentir o sofrimento da humanidade. Um dramão muito bem feito, envolvente e com uma perspectiva original, vale a pena para quem gosta do gênero.
Meu Deus! Fazia tempo que eu não tinha vontade de sair do cinema antes da sessão acabar. O filme é uma mistura de 2001 com Foi apenas um Sonho. Tudo bem que a gente gosta de subjetividade, mas JUST IT não faz meu estilo. É um filme beeeem difícil. O Inácio Araújo, da Folha, achou o suprassumo da arte e escreveu que é uma linda história sobre o sofrimento desde os primórdios da humanidade.
Mas… sério que 20 minutos só de ensaios sobre a evolução das espécies era necessário? E colocar 2 dinossauros no meio do longa, um pisando na cabeça do outro, não foi forçar a barra?
Por mim, se não tivesse toda esta viagem darwiniana, ele não seria todo de se jogar fora.
É a história de sofrimento de uma família que de repente perde o filho/irmão, mesmo sendo tão correta de acordo com a moral e os bons costumes. Gostei da leitura sobre a mudança da fé em momentos de desespero ou de grande decepção. Deus geralmente é a válvula de escape para os nossos problemas, mas também a origem das nossas resoluções. Doloroso acreditar em um Deus assim, tão bondoso e cruel ao mesmo tempo.
Quando o roteiro volta pra contar a trajetória da família antes da morte, para mim compara a todo momento as atitudes do pai (Brad Pitt) e da mãe (Fiona Shaw) com a de Deus. Mostra pra gente que se Deus fosse só bom, como a mãe, perderia o controle da sua Terra, assim que o filho mais velho (que quando cresce é interpretado por Sean Penn) se volta contra ela. Se fosse só rígido, como o pai, impediria as pessoas de amá-lo. E para mim o maior acerto é esta metáfora, do lado bom e ruim da fé e sua ação sobre nós, personificada nos filhos de maneiras tão marcantes, e até perturbadoras. Quando o filho mais velho diz ‘Pai, mãe, vocês sempre estão brigando dentro de mim’, é exatamente disso que se trata – de como o Deus consolador pode brigar com o Deus punitivo dentro de nós, e como eles nos confundem e se completam ao mesmo tempo.
Mãe e pai fazem um contraponto na criação dos filhos que pode ser comparado às duas faces de Deus: punitiva e consoladora
Também é um filme sobre a aceitação da morte doída, repentina, avassaladora. É um filme bonito para quem tem fé, porque (ao contrário de Melancolia, do qual eu falei neste post aqui), nos diz: no final, tudo dá certo. Há alguém lá do outro lado para ‘nos guiar até o final dos tempos’. Vamos nos encontrar todos em um lugar bonito onde a dor não tem lugar.
É legal também o jeito como a história coloca a ciência e a fé lado a lado, coisas que a gente reluta em misturar, como se fosse água e óleo. A mãe da família diz em certo ponto “Há dois caminhos na vida: um da natureza, e outro da graça. Você tem que escolher qual deles seguir”. Mas o que o filme deixa claro é que não dá para escolher um só. Para aquela família, foi Deus que criou todas as coisas, e é este o caminho que eles devem seguir. Mas em seguida, com os 20 longos minutos em que parece ser contada a história da evolução do homem de acordo com a ciência, o roteiro nos mostra que mesmo aquela família, que escolheu o lado da graça, não tem como escapar da força da natureza.
Na minha interpretação, com os 20 longos minutos de explosões, formações rochosas, micro organismos marinhos e a aparente crueldade gratuita entre os dinossauros – que evolui para o discurso de Sean Pean sobre a cobiça do ser humano – o filme explica que a gente criou a fé e tudo o que ela envolve – incluindo Deus – pra fazer um contraponto à crueldade deste mundo, porque viver seria muito difícil sem ela. Cabe a você acreditar ou não. Eu, cética e ateia que sou por exemplo, não comprei o final de ‘todos viveram felizes para sempre, juntos em um lugar melhor’.
Por tudo o que eu falei até agora, o filme tem seu mérito, não dá pra negar. Mas também não dá pra não mencionar que ele discute todas estas questões da maneira menos didática POSSÍVEL. É tipo aquela aula do curso que tinha potencial para ser magnífica, mas que você descobriu que é dada por um professor chato, às manhãs de sábado, em transparências de retroprojetor. É artístico e lúdico – demais. Mas é questão de opinião, de gosto. Eu ainda acho que dava pra deixar menos subjetivo, desenvolver melhor os dramas familiares e nos poupar de tanta ladainha (sério, deu vontade mesmo de abandonar o filme na metade) sem perder a mensagem nem a beleza.
Também achei altamente dispensável o papel de Sean Penn. Pela sua declaração ao jornal Le Figaro, nem o próprio Sean Penn entendeu seu papel na trama, e diz que Terrence Malick nunca explicou direito o que queria dele – então, o que podíamos esperar? Nada mais do que uma participação rala e sem sentido, facilmente descartável.
Devaneios de Sean Penn são altamente descartáveis em Árvore da Vida
Consegui terminar esta crítica meses após ter assistido, pois só agora cheguei a um veredito: vale a pena assistir o filme, pois ele dá uma aula de história da humanidade, e as cenas dos dramas familiares salvam o público. Mas vá preparado para um filme longo, chato e arrastado. Sim, é possível que um filme chato pra caramba valha a pena apesar de tudo – quem não concorda que Terra em Transe é uma obra prima, mas chato pra chuchú?
Feeling: um filme justo sobre os temas Deus x natureza, fé x incredulidade. Vale a pena, mas vá preparado para 20 minutos de pura ‘arte’ (cof cof, embromação).
A morte é um tema recorrente no universo cinematográfico e popular entre as mais variadas culturas. Nossa curiosidade é infinita, sobretudo quando se trata de algo desconhecido. Quem nunca parou e pensou: o que acontece depois que morremos? Para muitos a vida acaba de vez, voltamos ao pó e fim de papo. Para outros há uma sequência, o paraíso, o renascimento…
Por ser impossível saber para onde vamos (se é que vamos para algum lugar) é que a morte acaba tendo tanta popularidade. Inquietos poderia ser apenas mais um dentre tantos filmes que se apoiam nesta temática, mas Gus Van Sant vai além e busca alternativas ao lugar comum. A morte aqui é apenas um pano de fundo. O que importa, na verdade, é como as pessoas lidam com ela.
Logo de cara somos apresentados ao jovem Enoch, que tem como passatempo (acreditem!) acompanhar velórios de pessoas desconhecidas. Pode soar estranho, mas apesar do mórbido hobbie, Enoch tem problemas para lidar com a morte. É num desses velórios que ele conhece a igualmente jovem Annabel. Podemos dizer que Annabel é o oposto do seu par. Enquanto ele convive com a morte de uma forma secundária, mas psicologicamente problemática, ela encara seu destino naturalmente – Annabel tem câncer e está em estado terminal, tendo apenas mais três meses de vida.
O japonês Hiroshi completa a trinca de personagens principais. Difícil explicar ou entender o que passou pela cabeça de Gus Van Sant ao incluí-lo na história. Hiroshi é o melhor amigo de Enoch, mas um melhor amigo um pouco incomum – ele é um fantasma! Fica claro desde o início que existe um laço fraternal entre os dois, laço esse que é marcado por brincadeiras (batalha naval!), conselhos e também por uma pitada de ciúmes.
Falando assim até parece que estamos diante de mais uma daquelas tramas sem pé nem cabeça, mas a aparente loucura serve como alicerce para algo maior. Gus Van Sant faz um ótimo trabalho atrás das câmeras e consegue extrair o máximo de seus comandados – 0 casal está muito convincente! Mérito dos atores? Também! Tanto Mia Wasikowska quanto Henry Hopper transmitem uma bela dose de realismo, mas acredito que o diretor tem sua “culpa” neste aspecto – ainda mais por se tratar de uma dupla de jovens, menos experientes. Vale lembrar que Henry é filho do grande Dennis Hopper, ator e diretor que participou de dezenas de filmes em Hollywood e a quem o longa é dedicado (Dennis morreu em 2010 vítima de um câncer de próstata).
Esse realismo de que falo é retocado por diálogos inspirados. Geralmente este tipo de filme traz consigo doses carregadas de sentimentalismo ou piadas pasteurizadas. Inquietos é essencialmente diferente. O relacionamento entre as personagens é natural porque os diálogos têm identidade, originalidade. Claro que o perfil do casal contribui, pois ambos apresentam traços de personalidade incomuns em obras do gênero. O mérito neste caso vai para o roteirista Jason Lew. Falando nele, sabiam que a história do longa é baseada numa experiência real do próprio Lew? Coisa de doido mesmo…
Ah, e é quase impossível encerrar a crítica sem elogiar a trilha sonora de Danny Elfman, figurinha carimbada nos filmes de Tim Burton e autor da emblemática música de abertura dos Simpsons. Elfman bolou uma trilha discreta, recheada de baladinhas pop/rock e embalada pela clássica Two of Us, dos Beatles. Nem é preciso dizer que os acordes alternativos combinam – e muito – com os protagonistas, né?
Hoje em dia temos filmes de super-herois para todos os gostos. Batman e Homem-Aranha aparecem na lista dos meus preferidos. Alguns, como Mulher-Gato, nem sequer mereciam ter saído do papel, tamanha a ruindade, e outros, como Homem de Ferro, trafegam num meio termo nem sempre cômodo entre o bom e o mais ou menos (no meu ponto de vista, claro).
É neste meio termo que se encontra Thor, um dos últimos super-herois a desembarcar nas telonas. O poderoso personagem, que já havia sido retratado fora dos quadrinhos em outras oportunidades (lembram-se do detestável e inexplicavelmente fraco Thor que aparece na saga dos Cavaleiros do Zodíaco?), ganhou sua vertente hollywoodiana através dos esforços de Kenneth Branagh.
A personagem Thor, em linhas gerais, segue à risca o que é dito sobre ela na mitologia nórdica – um homem forte, bondoso, honesto, mas ao mesmo tempo briguento e irresponsável. Também diz a mitologia que ele era faminto, o que também é retratado por Branagh, só que de forma descontraída e divertida. Neste ponto, o diretor acertou em cheio ao escolher Chris Hemsworth para o papel principal. Hemsworth, apesar de pouco conhecido do público, mostra talento e sabe dosar os tons cômico e sério muito bem.
Mas voltemos lá no começo, quando eu falava sobre o meio termo entre tramas de super-herois boas e ruins. Thor tem seus méritos, claro (falarei sobre eles adiante), mas derrapa em aspectos simples. Uma obra com tantos efeitos especiais merecia embates memoráveis, daqueles de tirar o fôlego. O que vemos, no entanto, é um conjunto de cenas pouco inspirado. Culpo aqui o diretor Kenneth Branagh, que poderia ter feito um melhor uso dos recursos disponíveis e dado mais vida à trama.
Além disso, o diretor abusa da câmera lenta para dramatizar certas passagens – recurso esse que deve ser utilizado com bastante cautela, pois em excesso pode deixar brega aquilo que deveria ser emocionante. Também achei o roteiro um pouco falho. Faltaram detalhes ao introduzir a trama – detalhes esses que podem confundir o espectador pouco familiarizado com a história do super-heroi.
Por fim, acredito que alguns personagens mereciam mais destaque. Loki, que é muito bem interpretado pelo jovem Tom Hiddleston, tem papel fundamental na história, mas a subtrama que o envolve é pouco aprofundada. O mesmo vale para os outros guerreiros de Asgard. Nenhum deles é devidamente apresentado e o filme termina sem que nada saibamos sobre eles. Do outro lado do mundo, quem se destaca é Natalie Portman, que esbanja charme e a competência de sempre na pele de Jane Foster – a jovem nerd e inocente que se encanta por Thor na Terra.
Apesar dos erros, Kenneth Branagh consegue nos entreter durante as quase duas horas – o que é um grande mérito. Seu principal trunfo é o visual caprichado. Asgard está simplesmente exuberante, cheia de vida, cores e detalhes. Os bons efeitos especiais aliados à maquiagem (os gigantes de gelo ficaram bastante realistas) contam pontos a favor do entretenimento. Os diálogos, ora cômicos, ora maduros, também merecem os devidos elogios – ponto para o diretor, que consegue juntar essas duas vertentes sem parecer forçado.
É claro que também devemos levar em conta a força do personagem. Thor, ao meu ver, é um dos super-herois mais legais dos quadrinhos. Neste caso, sobretudo quando uma obra sai do papel e vira filme, acredito que a empatia personagem/espectador conta muito. Apesar de arrogante, Thor é o tipo de heroi que todos gostam – é forte, bonito, confiante, leal e divertido. Por isso um filme em sua homenagem, mesmo que tenha seus defeitos, acaba ficando acima de média.
Quem curte o cinema norte-americano certamente irá se identificar de cara com Contágio, afinal, é bem raro nos depararmos com nomes como Matt Damon, Marion Cotillard, Kate Winslet, Gwyneth Paltrow, Jude Law, Laurence Fishburne e John Hawkes no mesmo elenco. E o melhor, essa trupe toda é dirigida pelo competente Steven Soderbergh, o mesmo que comandou a trilogia Bourne e os premiados Traffic e Erin Brockovich – Uma Mulher de Talento.
Bem, mas vamos rápido ao que interessa! Logo no começo do filme somos apresentados a uma sequência de mortes enigmáticas – todas pelo mesmo motivo e em países diversos. Mais à frente, vamos descobrir que essas (e outras tantas) mortes vêm sendo causadas por um vírus geneticamente mutável e de total desconhecimento das autoridades. Basta somarmos as palavras vírus e desconhecido e nos deparamos com um panorama de caos absoluto.
Pois é! Alguém aqui se lembra de Ensaio Sobre a Cegueira?É quase impossível ignorar a semelhança entre Contágio e o best-seller do português José Saramago. Embora essas duas obras possuam temáticas diferentes, em ambas podemos observar a magnitude caótica de uma epidemia. Tanto Soderbergh quanto Saramago resgatam o extinto dos seres humanos diante da morte iminente. Neste cenário catastrófico, o homem é retratado como um animal irracional, que recorre a qualquer artifício para sobreviver sem se importar com o próximo.
Contágio aindavai além do simples estado de caos e do extinto dos seres humanos exalando pelas ruas. A política aqui ganha fortes contornos e um tom de crítica por parte do diretor. A partir do momento em que a suposta epidemia cai na imprensa, é praticamente impossível controlar o povo – que esvazia os supermercados e abarrota as estradas em busca de sobrevivência. Enquanto as pessoas se descontrolam com a proximidade da morte, as autoridades parecem ainda mais perdidas em meio à crise. Diante disso, a pergunta que fica é: estaríamos preparados para algo devastador como o retratado pelo cineasta?
Mudando um pouco de assunto, a narrativa, que nos é apresentada numa sequência de dias, é de fato bem interessante. Tudo começa no Dia 2 e vai se desenrolando aos poucos. O grande enigma, como vocês podem perceber, está no Dia 1 e logicamente será revelado nos minutos finais. Soderbergh, por sua vez, conduz a história muito bem e abusa de recursos simples – como a música frenética e agoniante – para fisgar o espectador. A fotografia, cinzenta em alguns momentos, também contribui para deixar o filme com um ar apocalíptico.
É claro que também existem pontos negativos. A meu ver, um elenco com tantos nomes de peso merecia um pouco mais de destaque. Atores como Matt Damon, Kate Winslet e Gwyneth Paltrow têm seus momentos bons, claro, mas no geral acabam ficando em segundo plano. Também achei descartável a trama paralela envolvendo a personagem de Jude Law. Soderbergh aparentemente quis mostrar o poder que um veículo de mídia pequeno, como um blog, pode ter num momento como esses – o que é bem legal. Mas para mim, pelo menos, pareceu forçado demais.
No final das contas, Contágio me agradou bastante, principalmente por tentar se diferenciar dentro de um gênero desgastado. É comum vermos filmes apocalípticos com cenários devastados, grupos restritos de sobreviventes e só – sem nenhum conteúdo relevante. Soderbergh tentou fazer diferente e se deu bem – só por isso já merece ser aplaudido.
Johnny canta para os presidiários da Folsom Prison, prisão na Califórnia que inspirou a música Folsom Prison Blues. O show resultou em um CD ao vivo
Por Alessandra Marcondes
Importante dizer que esta resenha foi escrita por uma pessoa que nada sabia sobre Johnny Cash ou June Carter, e não havia ouvido uma música sequer deles antes do filme.
A história de um garoto vindo de uma família pobre do Arkansas, que por causa de um talento nato, vira uma sensação da música nos Estados Unidos e acaba se envolvendo com drogas e tendo diversos problemas decorrentes do vício. Esta história lhe soa familiar?
Como li em na crítica do Andy Malafaya do Cineplayers, a história seria um imenso clichê, se não fosse baseado em uma figura real. O filme é um recorte da vida de Johnny Cash – por mais que a tradução do título para o português sugira que tratará por igual de Johnny e June – desde a sua infância, em um campo de algodão do Arkansas, até o casamento com June Carter. De recheio, temos passagens de sua vida pessoal ao lado da primeira mulher, Vivian Liberto, das turnês ao lado de figurões como Elvis Presley, Johnny Lee Lewis e Carl Perkins, dos problemas decorrentes das anfetaminas que tomava, e muitas, mas muitas canções country deliciosas tiradas de diversos álbuns do cantor.
Confesso que nunca tinha ouvido falar (don’t kill me, please!) de Johnny Cash, mas o filme me aguçou a curiosidade pela forma como termina, pelas músicas deliciosas, e fui atrás de mais informações sobre sua história. Foi aí que eu comecei a achar o filme não mais tão legal. Ele serve como um belo ponto de partida para quem não conhece a história deste cantor e compositor magnífico, mas ignora ao menos os 30 anos finais de sua trajetória, que são mais interessantes do que eu imaginava. Óbvio que não dá para abraçar o mundo, mas acho que o filme se perde um pouco repetindo muitas e muitas vezes cenas em que o cantor esteve perdido, afundando-se nas drogas, implorando que June ficasse com ele, etc. Também convenhamos que a música rouba preciosos minutos que dariam para contar uma história completa, mas ela é essencial para dar o tom do filme, então não reclamo. Minha maior reclamação é pela falta de profundidade e de emoção. A direção foi meio fraquinha, e não faz com que o espectador se envolva tanto com Johnny Cash, que foi é uma figura tão interessante.
A qualidade do filme está nas atuações de Joaquin Phoenix (no papel de Johnny) e Reese Witherspoon (no papel de June). Ele tem o carisma e a presença de um astro adorado de antigamente, mas também sabe ser grave, sério e paranóico nas cenas mais fortes. Ela dá a leveza à trama, é a presença feminina que transforma a história em um belo romance. Vale lembrar que foram os próprios atores que interpretaram as músicas de Johnny Cash e June Carter para compor a trilha sonora do filme. Eu, particularmente, adoro quando isto acontece. Mostra um comprometimento, um mergulho de corpo e alma no personagem, que não é fácil de fazer.
Johnny & June é uma viagem no tempo, que nos leva pela música e pelos comportamentos comuns a uma época que eu não vivi, mas sempre ouço falar. Uma época que fazia com que uma cantora famosa, linda e até “certinha” como June Carter se importar com o julgamento de uma dona de casa qualquer em um supermercado, só por causa da sua separação conjugal, e o peso da fama em seus ombros ao ponto de pedir desculpas por ter decepcionado a mulher em questão. Achei esta uma das cenas mais bonitas do filme, pois mostra a atitude de verdadeiros ídolos que reconhecem a ‘responsabilidade’ que traz a fama, algo tão raro hoje em dia nos rockstars. A cena me lembrou uma história que um dia ouvi na MTV sobre Janis Joplin, que depois de ficar mundialmente famosa retornou à sua cidade natal, uma cidade pequena e moralista do Texas, achando que todos reconheceriam seu mérito como grande cantora. Muito pelo contrário, por lá ela continuava sendo a mesma esquisitona rebelde de sempre. E isso a afetou, mesmo sendo uma cantora tão magnífica, talentosa e famosa para o restante do mundo. Talvez não desse para deixar para lá.
Enfim, uma época em que era comum a figura da boa esposa dos anos 50, cozinhando enquanto espera o marido em casa, incorporada por Ginnifer Goodwin no papel da primeira esposa de Cash. A existência de um pai rigoroso, que gosta mais do filho que rende mais no trabalho do campo – interpretado muito bem por Robert Patrick, que nós mesmos acabamos odiando por tanta amargura e frieza com o filho. Aqui, faço uma pausa: desconfio que o filme tenha exagerado um pouco na dose da amargura do pai – afinal, todo protagonista problemático precisa de um vilão para culpar – por causa da entrevista que Johnny Cash deu à revista Rolling Stone em 1973. Destaco dois trechos:
Robert Hilburn: Além de ouvir música, você teve de trabalhar duro na fazenda quando era criança. Aquilo foi uma parte importante na sua formação? Johnny Cash: Trabalho duro? Eu não sei. Cortar e colher algodão é complicado. Não sei o quão bom isso foi pra mim. Não sei o quão difícil isso é para alguém.
Hilburn: Você cantava as músicas para sua família? Qual era a reação? Cash: Oh, bem, você sabe como são os familiares. Meu pai me dava um tapinha na cabeça, dizendo que era tudo muito bom, mas “é melhor você começar a pensar em algo que vai te dar sustento algum dia”. Minha mãe era 100% favorável à minha música [...]*
Ou seja, percebo aí uma mãe mais amorosa do que o pai, mas nada que represente o crápula que é mostrado pelo filme. E uma infância dura, mas não tão difícil ao ponto de ter feito muita diferença no caminho que Cash percorreu depois de ter saído dos campos. Para mim fica claro que, mais do que a infância árdua, a perda de seu irmão é que foi sim, definitiva para a trajetória de Cash. Talvez eu esteja enganada e, em 1973, de um Johnny Cash já sóbrio e no caminho ‘certo’ da vida, estas questões já não o incomodassem mais ao ponto de falar para a revista. Mas foi a impressão que eu fiquei. Já o papel de June como a salvadora de Cash está mais do que correto: na mesma entrevista, Johnny diz que começou a sair desses ‘anos ruins’ (em que estava se autodestruindo com o vício nas pílulas de anfetamina) quando casou com June, e o amor e a força espiritual cresceu dentro dele. Ponto para o filme!
De qualquer forma, em linhas gerais, adorei o longa. É uma história gostosa de ouvir e assistir. A cena do pedido de casamento no meio do show é emocionante, pois é uma história de bonzinhos se dando bem! Até que enfim, já estava cansada das histórias dos grandes talentos da nossa música com um final trágico – não me deixam mentir Joplin, Cobain, Hendrix, Lennon e mais recentemente Amy Winehouse, entre tantos outros.
*A entrevista está no livro ‘Rolling Stone: as melhores entrevistas da revista Rolling Stone’, da ed. Larousse (que eu super recomendo, tem entrevistas com uma pá de gente legal da música, do cinema e da política!).
Melancolia foi um filme que mexeu comigo. Assim como todo filme do Lars Von Trier, confesso. Não é o melhor – nem um dos melhores – dele, ao meu ver. Mas mexeu comigo, e vou dizer por quê:
Melancolia trata de um estado comum aos homens que é difícil de entender, de aceitar, e de consertar. A melancolia é o sentimento de vazio que nos pega de surpresa e sem grandes motivos para existir. Justine (Kirsten Dunst) tem tudo: uma carreira, um homem que a ama, a família e os amigos ao seu redor, e o sonho de grande parte das mulheres, que é um vestido de noiva e todos os rituais que o envolvem. E mesmo assim, é difícil ser feliz. É difícil se importar com os outros, com a moral que nos faz viver em comunidade, com qualquer coisa do universo. É impossível escapar do vazio. É uma figura que vive sem lugar neste mundo, sem ligação com nada nem ninguém, sem porquê de existir.
Na outra ponta (ou segundo capítulo), temos a irmã Claire (Charlotte Gainsbourg, a mesma de Anticristo), a parte centrada na vida de Justine. Claire é quem cuida incondicionalmente da irmã, mesmo esta não reconhecendo muito seu esfoço, seu carinho. É uma mulher que tem filho, marido rico e uma belíssima propriedade com 18 buracos no campo de golfe, e dá valor a isto tudo. Neste segundo capítulo também somos apresentados ao Melancholia, nome dado a um planeta azul gigante que tem o perigo de atingir a terra e reduzir nosso lindo planeta a poeira cósmica. Os cientistas prometeram que ele só passaria perto da Terra, mas vai saber.
Não sei se gostei deste quê de ficção científica em um filme de Von Trier. Ok, quem sou eu pra falar se existe o risco de outros elementos do espaço atingir-nos ou não? Mas reconheço que a ameaça iminente do planeta tem seu lugar na história. Mostra como a nossa existência pode ser reduzida ao nada, sem podermos controlar. É o perigo que se encontra ao nosso lado todos os dias, seja de ser atingido por um carro, levar um tiro em um assalto, bater a cabeça em uma pedra e se afogar. Sem aviso prévio ou nada que a gente possa fazer, somos reduzidos a uma carcaça sem vida. E de repente, tudo que a gente prezava tanto não tem mais a menor importância.
Refletindo…
Melancolia me fez pensar na questão da morte e de tudo que ela envolve. É divertido notar que o filme trata de um debate capaz de levantar polêmica em mesa de bar: é mais fácil morrer para quem crê em um sentido maior da vida e em tudo que a envolve, ou para quem não vê esperança nem sentido em viver, morrer, ou em elementos como vida após a morte, reencarnação, existência de extraterrestres, etc? Eu mesma sou da teoria de que a morte é mais ‘fácil’ para quem crê em Deus e no Paraíso, mas talvez a realidade seja o contrário. Justine admite em um momento que não crê que exista vida além da Terra. Mas pra ela o perigo de morrer se apresenta de forma muito menos dolorosa do que em relação a Claire. Posto isto, adorei a cena em que Claire insinua que para Justine ‘é fácil’, afinal, o que ela tem a perder? E Justine responde com ironia: “fácil? é, muito fácil mesmo ser eu”. Não é fácil. Para ela viver é um martírio, uma luta constante contra fios cinzas de lã gigantes amarrados aos seus pés que não permitem que ela se mova. Mas ao mesmo tempo, o universo em si é descartável. Assim como somos descartáveis para o universo, Justine o descarta sem medo nem dor. Em qual lado você preferiria estar?
Outro fato que me remeteu à realidade foi (vem spoiler por aí!) o suicídio do marido de Claire, interpretado por Jack Bauer (cof, cof, quer dizer, Kiefer Sutherland!). Demonstrou um egoísmo desprezível da parte dele, e sei que as situações são diferentes, mas a sensação de Claire pode ser facilmente comparada à de vovós que de repente perdem o marido, seu companheiro da vida toda, tendo que enfrentar a vida dali em diante de uma maneira bem mais difícil: sozinha. Isso acontece com muita gente por aí, e imagino que seja uma situação tão desesperadora quanto. Ela sabe que a morte pode a encontrar a qualquer momento, assim como Claire, e tem o sentimento cru de que terá que enfrentá-la sozinha.
Não gostei porque…
Principalmente por causa da personagem Justine. Não pela interpretação de Kirsten Dunst, longe disso. Mas não consegui acreditar na personagem, principalmente por suas atitudes antagônicas. Von Trier quer nos mostrar uma personagem triste e vazia, mas se em um momento ela prefere dormir do que estar em seu próprio casamento, em outro se diverte com uma situação totalmente mundana, a de uma limosine que não consegue fazer a curva. Se mostra frágil ao ponto de não conseguir nem tomar banho sozinha, mas vai até a beira do lago no meio da noite para ‘curtir’ um momento semi-erótico em uma imagem que imita os quadros do renascentismo {alguém sabe qual? Procurei na internet e não achei}. É cruel com a irmã dizendo que seu comportamento é estúpido, mas não se incomoda de encenar uma cabana invisível para proteger o sobrinho. Ou seja: quem é essa mulher? A gota d’água foi insinuar que Justine teria super poderes, sabendo qual seria o final do impasse do planeta, acertando quantos grãos existiam em uma brincadeira boba da garrafa, e com energia azul saindo da ponta de seus dedos. O filme só conseguiu me deixar com raiva dela, e se o restante da narrativa me levou para realidade, estes foram os elementos que me fizeram pensar se eu não estava assistindo a alguma bobagem da astrologia. Tive que ignorar estes percalços para conseguir enxergar a perspectiva geral.
Também achei o vai-e-vem do primeiro capítulo, durante o casamento, exagerados, prolongados demais, cansativos. Ok, ela é vazia, we got it, move on! Tem muito a ver com eu não ter acreditado naquela mulher, mais para desequilibrada do que vazia. Concordo que nada melhor do que as solenidades e os procedimentos burocráticos de uma cerimônia pomposa de casamento para desequilibrar quem já não dá a mínima para circunstâncias sociais - só acho que poderiam ter nos poupado alguns minutos daquilo. Também achei que o roteiro quis dar uma explicação para o surto de Justine apresentando-nos sua mãe, como um cavaleiro do apocalipse, dizendo para a filha parar de sonhar, e se divertir enquanto durar, porque nada é pra sempre. Melancolia não é um sentimento que precisa de um porquê, e por isso que é tão difícil. Juntando todos estes detalhes, cheguei à conclusão de que Justine precisava era de uma boa terapeuta pois era desequilibrada, e não melancólica.
Gostei porque…
De qualquer forma, Melancolia é um filme do qual gostei no geral. As cenas do início me lembraram os Cinemagraphs, fotos que ficam belíssimas no formato de gifs com detalhes sutis em movimento, praticamente como um retrato vivo. A música e a fotografia, mais amaralada no 1º capítulo, mais acinzentada no 2º, cai como uma luva para o tema.
O filme é forte, é drama, e deixa com um nó na garganta difícil de desatar. Deu angústia e medo. Medo de parar de enxergar as cores da vida de repente, ou de enxergar as cores e, mesmo assim, ser punida pelo universo com um desastre repentino, um marido covarde, ou uma pessoa querida que é um peso morto e faz questão de tornar minha vida miserável. Medo do vazio do mundo, que a gente tenta tanto dar um jeito com anti-depressivos, alucinógenos e falsos momentos de êxtase exagerado, mas que por mais que a gente recuse, sempre estará lá.
No final, chorei. I always cry at endings, mas desta vez foi diferente: chorei porque é muito triste aceitar esta falta de propósito em algo que prezo tanto - a vida – e a falta de esperanças para o futuro. A gente luta pra ser mais sustentável, para fazer o bem ao próximo, para marcar nossa existência na história de alguma forma especial. E Lars Von Trier, com este filme, nos diz: Conformem-se. Aqui não há nada, e há muito menos além daqui. Na minha opinião, o diretor foi muito mais feliz neste filme do que em Anticristo, pois foi com Melancolia que ele conseguiu transmitir verdadeiramente o que sentiu durante a depressão pela qual passou (ou, me pergunto: ainda passa, dada a intensidade do filme atual?).
Feeling: é bom, mas não dos melhores de Lars Von Trier. Como todos do diretor, vá a fim de botar a cabeça pra pensar. Se a questão da morte, da psicanálise ou os comportamentos humanos te instigam, você vai adorar. Se não, só passará raiva de Justine e achará o filme ruim.
Um, dois, três, quatro, cinco amores. Muitos amores, muitos personagens, muito pouca habilidade em definir um foco.
Por Alessandra Marcondes
Esses Amores é um filme de Claude Lelouch, um diretor que eu particularmente não conheço, mas ouvi falar por aí – ou melhor, li no blog da própria distribuidora do filme, cof cof – que adora misturar vários gêneros em seus filmes. Fato importante, explica muito sobre este filme, e sobre o que vou falar por aqui. Como não conheço a obra de Lelouch, me restrinjo a falar do filme pelo que ele é. E já adianto que o resultado é ruim.
Em cena temos Ilva (Audrey Dana), uma jovem de belos cabelos ruivos que se apaixona facilmente. Vivendo em uma França em plena Segunda Guerra Mundial, consegue se apaixonar por um oficial nazista que quase matou seu pai (!) e, depois, por dois soldados norte-americanos ao mesmo tempo. Fora eles, temos o seu pai, um projetista de cinema interpretado por Dominique Pinon; seu namoradinho francês que se torna rapidamente ex; o advogado que a defende desde o início do filme no tribunal por um crime que só desvendaremos ao final; a judia por quem tal advogado se apaixona no campo de concentração alemão; um casal de músicos que vive cantarolando pelo caminho da moça, não se sabe ao certo por quê. Ufa! O filme tenta dar conta do background de CADA personagem, sem nos poupar ainda de detalhes sobre o contexto histórico, passando lentamente por cenas de guerra e acontecimentos ligados a elas. Ah, misture à receita um monte de referências metalinguísticas ao cinema, e pronto! Temos um filme longo, confuso, e indefinido.
A ‘confusão’ dos fatos não é de todo ruim: faz você se esforçar para amarrar cada ponto da história, mas não deixa nenhum deles soltos – pelo menos eu não percebi. Mas várias cenas poderiam ser facilmente cortadas da história, totalmente desnecessárias, servindo só pra cansar a gente na cadeira. Faltou foco. Faltou norte. Me peguei pensando no que eu iria jantar depois da sessão em alguns momentos.
Isso se deve – e muito – à mistureba de estilos. O filme não sabe se é drama, se é comédia, se é romance ou musical. Não liga. Não dá tempo de sofrer pela brutalidade da guerra, pois logo depois somos levados ao meio de uma roda de dança frenética e feliz entre quem estava sofrendo há minutos atrás. Nem dá para nos apegarmos a uma história de amor ali, já que nossa protagonista cada hora está com alguém e – convenhamos – não parece sofrer nem se importar muito com nenhum deles, pelo menos com este aceleramento dos fatos. E também não é uma ou duas cenas que parecem ter saído de um musical da Broadway que vão tornar o filme uma comédia cheia de purpurina.
Então, lhe pergunto: o que raios é Esses Amores?
No mesmo blog que citei lá em cima, li que a intenção do longa era ser uma ‘síntese’ da carreira do diretor, uma homenagem ao cinema, etc e tal. Pois bem: do mesmo jeito que fiquei magoada com Lars Von Trier, pois ele não tinha o direito de fazer eu engolir guela abaixo o controverso “Anticristo” só porque andava depressivo, acho que esta maçaroca de acontecimentos e gêneros só faz sentido e é legal para o seu criador – e no máximo para a mãe dele, vai saber.
Entre umas 600 cenas, têm umas dez que valem a pena. A atuação de Audrey Dana até que salva, coitada. Mas achei todo o resto bobinho. A menina mal se revolta quando descobre (spoilers!) que os próprios amigos da família mataram seu pai. WTF?! E os clichês? Se apaixonar por um negro e um branco ao mesmo tempo, transformar o negro em bonzinho e o branco em mau e levá-los para a boate “Black & White”. E todos os ‘maus’ se dando mal (o nazista, o boyzinho) e os bonzinhos se dando bem (o advogado, o ex-namoradinho), e a ceninha forçada da música de ‘amor’ improvisada do final… Não acreditei em nada daquilo, não mexeu com meus sentimentos, não serviu pra muita coisa. Tipo comédia romântica de Hollywood, sabe? Um filme fácil, com final fácil, e também fácil de esquecer.
Feeling: vá sem esperar grande coisa. A história é ok, mas bobinha, e tem que ter saco pros vários vai-e-vem entre personagens e tempos diferentes. Vá se não tiver nada melhor passando, ou se as outras salas estiverem esgotadas – que foi o meu caso.
PS: fui na pré-estréia, o filme só entra oficialmente em cartaz no dia 26 de agosto.