Todos os Homens do Presidente (All The President’s Men, 1976)

Outubro 20, 2009 por Leka Marcondes

Por Alessandra Marcondes

O filme Todos os Homens do Presidente é muito mais do que um clássico de suspense baseado em fatos reais – ele é uma aula muito bem dada de jornalismo investigativo, antes de tudo. Baseado no escândalo de Watergate, incidente ocorrido em Washington em 1972 que resultou na renúncia de Richard Nixon algum tempo depois, o longa mostra a busca incessante de dois repórteres do Washington Post pela verdade dos fatos. A partir daí, o espectador se vê frente a um jornalismo romanceado na pele de Bob Woodward (Robert Redford) e Carl Bernstein (Dustin Hoffman), fiéis a técnicas e valores típicos da profissão, mas que talvez tenham se perdido no tempo – ou até mesmo nunca tenham existido.

Ao notarem que há um esquema complexo de corrupção escondida por trás da invasão à sede dos democratas, os repórteres começam a se empenhar a fundo em descobri-la para mostrar para o mundo, mas os próprios diretores do jornal não acreditam na história. Quando um dos diretores questiona se o Post deveria mesmo insistir em cobrir o caso, já que nenhum outro veículo da época estava dando atenção a ele, já notamos uma das primeiras críticas ao jornalismo. A agenda setting, espécie de valores que norteiam o que é importante para ocupar o espaço dos jornais, já estava presente na época das máquinas de escrever e se configura até hoje, podendo desviar o jornalista de seus objetivos finais.

Ao mesmo tempo, o filme acerta em mostrar o exercício da profissão da forma mais ética possível: os repórteres sempre se identificam como sendo jornalistas diante das fontes, e sempre checam os fatos com mais de uma pessoa para não correr o risco de publicar uma inverdade. Talvez isso que esteja faltando no jornalismo de hoje em dia, quando repórteres e diretores de redação mal têm tempo para checar a fundo as informações, postura que resulta em erros e em falta de credibilidade no jornalismo.
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A dupla de peso Redford-Hoffman dá carisma a este filme longo e difícil – seus 139 minutos são extremamente silenciosos (apesar de ter ganhado o Oscar de Efeitos Sonoros) e não são fáceis de acompanhar, pois envolvem uma infinidade de nomes e cargos políticos dos Estados Unidos da década de 70. Os personagens se completam, sendo Woodward um jornalista ‘novato’ e Bernstein já macaco velho, o primeiro mais calmo e inocente, e o segundo com mais desenvoltura necessária à profissão. É divertido acompanhar os truques que os repórteres utilizam para convencer uma fonte a falar o que sabe, manipulando a situação para que ela se sinta apenas confirmando uma versão já pronta, e não entregando as informações de mão beijada. Também é mostrada a desconfiança das pessoas ao ouvir a frase “Olá, sou jornalista do Washington Post”, mas é preciso admitir que, ao menos no filme, Woodward e Bernstein contam bastante com o advento da sorte.

Todos os Homens do Presidente também tem uma fotografia cuidadosamente elaborada, o que lhe rendeu o Oscar de Direção de Arte: são notáveis os contrastes entre tomadas escuras e claras, representando a verdade dos fatos escondida e a vontade dos jornalistas em encontrá-la. Em todos os encontros entre Woodward e “Garganta Profunda”, sua fonte secreta – e bastante desconfiada – do Executivo, é possível notar a divisão na tela, que dá certo aspecto mítico à presença da fonte. Mas até isto é cogitado pelo filme; quando o relator, que é quase um conselheiro, sugere que o repórter não se intimide com os mitos da Casa Branca, chama a nossa atenção para os próprios mitos do jornalismo, visto que o profissional não está livre de se perder entre o que acha e o que sabe de fato, acreditando cegamente em fontes míticas que também são passíveis de erro.

No final das contas, o filme pune os bandidos graças à insistência e ao empenho dos mocinhos, mas como é baseado em fatos reais – ganhou inclusive o Oscar de Melhor Roteiro Adaptado – dá a impressão de que o jornalismo serviria de termômetro da justiça na sociedade, bastando seus profissionais quererem. Quando chegam por telex as notícias das condenações dos envolvidos no caso, fica ao espectador a lição errônea de jornalismo como Quarto Poder, principalmente com a renúncia de Nixon. Em prol do romance fictício então o filme se perde, ignorando as limitações do jornalismo frente à justiça, e passa uma imagem bela e utópica de uma profissão que, assim como todas as outras, possui defeitos.

De qualquer forma, Todos os Homens do Presidente é um ótimo filme para entender o caso de Watergate e as conspirações que envolvem – infelizmente – a política até os dias de hoje. Quanto ao jornalismo, o longa serve de ponto de partida para um debate mais aprofundado sobre as suas técnicas e o exercício da profissão, mas não basta a si mesmo.

Direção: Alan J. Pakul
Duração: 139 minutos
Gênero: Suspense
Elenco: Dustin Hoffman, Robert Redford, Jason Robards, Martin Balsam e Jack Warden.

A Verdade Nua e Crua (The Ugly Truth, 2009)

Setembro 28, 2009 por Bruno Pongas

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Por Bruno Pongas

O bom e velho gênero das comédias românticas produz anualmente uma quantidade infindável de filmes. A qualidade deles, no entanto, é discutível na maioria dos casos, pois raramente vemos uma que definitivamente valha a pena. Com finais óbvios, personagens bobos e roteiros canhestros, o gênero se desgasta cada vez mais, a p0nto de afastar os próprios fans das salas de cinema. A boa notícia é que de vez em quando aparece uma grata surpresa; foi assim com A Propostaalguns meses atrás - e agora com A Verdade Nua e Crua.

É bem verdade que a fita passa longe da originalidade que tanto se cobra do gênero, mas tem bons momentos suficientes para sobreviver num campo disputadíssimo. Pois é… e o ponto de partida para isso é a química entre o casal de protagonistas (Gerard Butler e Katherine Heigl). Sempre que em cena, Butler e Heigl enchem os olhos do espectador, já que em certos momentos chegam a fazer chorar de rir. A dupla segura o fraco roteiro com bastante habilidade, e mesmo que a comédia seja óbvia, ela se diferencia pelo bom desempenho do par principal.

Tenho para mim que o maior objetivo desse tipo de longa é divertir. Sou contra aquele pensamento que dá valor apenas ao cinema reflexivo. A sétima arte também surgiu como forma de entretenimento para as massas… sabendo disso, qual o mal em garantir boas risadas com algo fútil e estúpido? Nenhum! A Verdade Nua e Crua cumpre seu papel exemplarmente, sempre com o apoio de piadas pesadas e cenas escrachadas – que algumas vez até extrapolam o limite do bom senso.

Elogiei bastante a obra, mas como crítico devo apontar alguns defeitos que em minha leitura foram prejudiciais à história. O primeiro deles, claro, é o roteiro. Como é difícil sair do óbvio, buscar novos horizontes, tentar algo diferente… os roteiristas de comédias românticas parecem acomodados demais para pensar, pois chupinhar o que já existe é bem mais fácil mesmo… o filme caminha num ritmo muito bom até a metade, enquanto a personagem de Gerard Butler tenta aconselhar Katherine Heigl a conquistar o ‘homem perfeito’. Contudo, quando o enredo parte para outro viés e tudo é manipulado para acabar ‘bonitinho’, há uma queda abrupta de qualidade, o que deixa o espectador enfadonho e com um ar: “Poxa, já vi isso umas mil vezes antes!”.

Apesar desse deslize e do amontoado de clichês, A Verdade Nua e Crua ainda é forte o bastante para divertir sem compromisso; sem dúvidas uma ótima pedida para um casal num domingo à noite sem muito o que fazer. E lhe garanto, caro leitor, o emaranhado de cenas sugestivas e instigantes mexem com os hormônios, e fazem, de alguma maneira, valer o ingresso. Tá aí a dica!

Minha Nota: 6.5

Direção: Robert Luketic
Gênero: Comédia/Romance
Duração: 96 minutos
Elenco: Katherine Heigl, Gerard Butler, Bree Turner, Eric Winter, Nick Searcy, Jesse D. Goins, Cheryl Hines, John Michael Higgins, Bonnie Somerville e Kevin Connolly.

Feliz Natal (Feliz Natal, 2008)

Setembro 25, 2009 por Bruno Pongas

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Por Bruno Pongas

Dizem que o primeiro filme é o cartão de visitas de um diretor. No caso de Selton Mello – um dos atores mais populares do Brasil na atualidade -, é também a prova de que teremos no futuro um cineasta pra lá de promissor. Seguro, cheio de escolhas acertadas, inteligente… Selton sabe utilizar todos os elementos do bom cinema para compor o carregado drama familiar, Feliz Natal. De quebra, o ator/diretor se desvincula de vez do estigma de comediante - gênero que se fez muito presente em sua carreira até aqui. No seu longa de estreia, ele nos apresenta um trabalho difícil, forte e complexo – que lembra em muitos aspectos o bom e velho cinema europeu.

Com a câmera intimista, acompanhamos a viagem de Caio, homem de meia-idade que mora no interior e é dono de um ferro-velho. Na volta à sua cidade de origem, Caio busca muito mais do que um reencontro com a família no emblemático dia de natal, procura também um acerto de contas com o passado, com os personagens que passaram por sua vida e com os dramas que por motivo ou outro acabaram ficando esquecidos no tempo. Esse clima melancólico, auxiliado pela bela fotografia que destaca o sofrimento das personagens, nos remete, como disse acima, à escola europeia de cinema. Isso faz da obra um grande achado dentro do cinema nacional – que ultimamente tem dado exclusividade às comédias que vendem como água (uma pena!).

Apesar de ser um tiro certo numa fatia reduzida do público, Selton Mello também comete seus erros – o que, convenhamos, é normal para um estreante. Afirmo com tranquilidade que sob a tutela de um diretor mais experiente, Feliz Natal tinha chances de ser lembrado por muitos como uma obra-prima. No entanto, mesmo com a competência que lhe é peculiar, o mineiro traz à tona algumas alternativas, ao meu ver, equivocadas. O filme é bem curto se imaginarmos o tanto de coisa que poderia ter sido explorada. Com o passar da pouco mais de hora e meia, temos a certeza que um trato a mais no roteiro cairia muito bem. Ou seja, há muita história sendo contada em pouco tempo, e quando isso acontece já podemos adivinhar o resultado: é problemático. 

Além disso, o longa tem um clímax pouco empolgante. Esperamos todo aquele tempo e vemos um drama sendo construído com minúcia para nada. No final, o desfecho é pobre, bem aquém do que poderia ser e muito menos sensível do que prometia. Ainda assim, a trilha sonora adequada e o bom trabalho de Selton Mello atrás das câmeras fazem valer o espetáculo. É gostoso ver que um diretor consegue extrair o máximo de seus comandados em cena, e isso o mineiro faz com uma habilidade invejável. Destaco aqui o comprometimento de Leonardo Medeiros, que traz melancolia ao seu personagem na medida certa. Darlene Glória também tem seu destaque, embora soe exagerada demais ora ou outra (pelo menos para mim). Outro que merece ressalvas é Lúcio Mauro, velho de guerra na dramaturgia brasileira.

Feliz Natal tem seus momentos de glória, e obviamente seus acertos superam os erros. Selton Mello tem um debute interessantíssimo como diretor, brindando o público com um trabalho infinitamente acima da média… com diálogos bem montados, fotografia, trilha sonora… e por aí vai. Uma pena que na seletiva para o ‘pré-oscar’ o filme tenha caído diante de Salve Geral, que, para variar um pouquinho, traz às telonas (mais uma vez) a violência urbana das cidades brasileiras - tema que já cansou o público faz tempo e vem tendo sua fonte esgotada a cada novo longa inútil e pretensioso que aparece.

Minha Nota: 7.5

Direção: Selton Mello
Gênero: Drama
Duração: 104 minutos
Elenco: Leonardo Medeiros, Darlene Glória, Graziela Moretto, Lúcio Mauro, Paulo Guarnieri, Fabricio Reis, Emiliano Queiroz, Thelmo Fernandes e Nathalia Dill.

Rota Comando (Rota Comando, 2009)

Setembro 23, 2009 por Bruno Pongas

Rota Comando

Por Bruno Pongas

A violência da Rota (Rondas Ostensivas Tobias de Aguiar) é velha conhecida dos cidadãos paulistanos. A polícia que atira antes de perguntar aterrorizou bandidos e inocentes nos idos das décadas de 1980 e 1990. Nos últimos tempos, no entanto, a tropa de elite da polícia paulista vem tentando apagar a péssima imagem construída ao longo dos anos. O temor do carro cinza e dos homens de boina já foi maior um dia, mas é inegável que ainda hoje eles gozam de um respeito impressionante - grande parte dele conquistada na base da força.

O filme Rota Comando, de Elias Junior, tenta retratar de forma ficcional o cotidiano desses homens pelas ruas de São Paulo. À primeira vista, é inegável uma semelhança com Tropa de Elite - premiado longa de José Padilha. Com o passar do tempo, vemos que ambos têm bem mais coisas em comum do que se possa sugerir. A temática, claro, é a mesma… mas além disso, Elias Junior faz questão de repetir a fórmula que fez do filme carioca um sucesso: a interminável luta entre policiais e bandidos, as subtramas infindáveis, a pseudo-lição de moral e até a narração em off -  que aqui é uma nítida cópia (desnecessária) do roteiro de Tropa de Elite. Desta maneira, podemos tranquilamente classificar Rota Comando como o primo pobre entre os dois. Também pudera… o orçamento precário de pouco mais de 500 mil reais justifica a falta de qualidade.

Falando nisso, poderia gastar linhas e mais linhas falando mal da trama, já que tecnicamente ela é nada mais do que sofrível. Pois é, caro leitor, se você sentar na poltrona esperando algo bem trabalhado e rebuscado, pode procurar outra coisa melhor para fazer. Tudo vai de mal a pior com o passar do tempo… a direção é fraca, o roteiro é péssimo e o desempenho do elenco é tenebroso (salvo raras excessões). Diálogos rasos, trilha sonora inadequada, técnica de quinta categoria… definitivamente a trama carece de um cuidado maior. O conjunto da obra é fraquíssimo, as subtramas se perdem de tal forma – auxiliadas por uma montagem bisonha – que só com muita boa vontade é possível aceitar tamanho besteirol.

Como de costume em filmes desse tipo, temos o famoso julgamento moral durante as passagens. De acordo com o pensamento da polícia – e por consequência do diretor – tudo bem matar bandido, afinal, é um a menos dentro da sociedade. Mas pera lá! Como uma de nossas autoridades pode usar um argumento desses no melhor estilo ‘os fins justificam os meios’? Se Tropa de Elite se preocupava em maquiar esse lado fascista com um pseudo-conflito moral da personagem principal, Elias Junior nem sequer se dá ao trabalho disso. É mais realista? Sem dúvidas, e até mais honesto… mas jamais justificável. O problema da nossa sociedade é outro: é político! Contudo, é preferível passar por cima disso e mostrar que o melhor remédio para a nossa realidade é somente erradicar os causadores da desordem. Que grave erro, que falta de bom senso…

Para finalizar, é claro que Rota Comando tem lá os seus pontos positivos. Talvez o principal deles seja conseguir prender o espectador durante a maior parte da fita. Mesmo as mais de duas horas passam rápido, e ao primeiro sinal de enfraquecimento o filme acaba – um grande mérito. No final das contas, concluo que mesmo a Rota merecia um trabalho de melhor qualidade e mais caprichado (especialmente na parte técnica, que é praticamente amadora). Do jeito que foi apresentado, no entanto, o longa de Elias Junior é desprezível, seja como arte, como documentário ou como qualquer outra coisa que se proponha.

Curiosidade: Conte Lopes, ex-membro da Rota e atualmente Deputado Estadual pelo PTB, faz uma pequena ponta no filme. Seu desempenho, no entanto, é sofrível como o do restante do elenco. Falando nele, vale ressaltar que a trama é inspirada em seu livro, intitulado ‘Matar ou Morrer’.

Minha Nota: 3.5

Direção: Elias Junior
Gênero: Ação/Policial
Duração: 138 minutos
Elenco: Mauricio Bonatti, Flávio Micchi, Alex Morereira, Thiago Guastelli, Ivan Villabel, Leandro Pres, André Prado, João Prado e Conte Lopes.

Boa Noite e Boa Sorte (Good Night, and Good Luck., 2005)

Setembro 18, 2009 por Bruno Pongas

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Por Bruno Pongas

Embates históricos entre grandes políticos e jornalistas se fizeram presentes com bastante frequência durante o século XX. Enquanto no Brasil tinhamos a briga ferrenha entre Getúlio Vargas e Carlos Lacerda – desde o final da década de 1940 até meados dos anos 50 -, nos Estados Unidos pudemos observar um panôrama semelhante. Mais especificamente em 1977, Richard Nixon, ex-presidente norte-americano, confrontou intensamente o jornalista David Frost sobre seus controversos anos no comando da Casa Branca – tema que, inclusive, virou pauta de Frost/Nixon, filme indicado ao Oscar no ano passado (2008). Alguns anos antes, voltando à década de 50, tivemos outra luta que marcou época.

De um lado, o contestado senador por Wisconsin, Joseph McCarthy, famoso por sua intensa política anticomunista. Do outro, o renomado jornalista da rede CBS, Edward R. Murrow. McCarthy entrou para o senado americano em 1946, e, num período de quase dez anos, colocou seu nome na história (pelo lado negativo). A personalidade forte e as atitudes invasivas deram origem ao adjetivo hoje compreendido por Macarthismo. Esse conceito passou a ser empregado àqueles com atitudes antidemocratas, como as do próprio senador, que se valia de artifícios pouco ortodoxos para acusar os simpatizantes do regime comunista.

Com bastante habilidade, George Clooney consegue um bom trabalho atrás das câmeras, nos premiando com uma narrativa densa e impactante. O roteiro cuidadoso – também assinado por Clooney -  traz diálogos incrivelmente bem estruturados, de primeira qualidade. Boa Noite e Boa Sorte aparentemente tem tudo para ser um blockbuster, ainda mais se levarmos em conta o elenco recheado de estrelas. No entanto, o longa passa longe de ser comercial, e há uma série de motivos que comprovam isso: primeiro que ao optar por uma fotografia em preto e branco, Clooney já afasta logo de cara uma grande fatia do público, afinal, ainda há certo preconceito contra os filmes em PB. Segundo que os diálogos excessivamente longos e carregados assustam! – e logicamente devem espantar outra fatia da audiência. 

Falando em fotografia, o fato de se contar a história com ausência de cor legitima ainda mais a obra. O preto e branco, juntamente com o figurino caprichado e a música caracterizada, nos proporciona uma viagem direta aos anos 50. O que difere o filme de um clássico daqueles tempos é somente a qualidade da imagem, tirando isso, Boa Noite e Boa Sorte se passaria tranquilamente por um sucesso de época. George Clooney coleciona aqui uma gama infindável de acertos, pois tecnicamente seu trabalho é quase perfeito.

Para finalizar, outro ponto que merece bastante destaque é como o ambiente jornalístico é retratado. Quem é do meio sabe que esse mundo é comandado por interesses políticos, de patrocinadores e de pessoas que detém o poder… Clooney, nesse que foi seu segundo filme como diretor, nos revela os bastidores por trás das câmeras, o jogo de interesses onde manda quem tem dinheiro e a influência que os ‘poderosos’ têm sob os veículos midiáticos. Ou seja, além de servir como um retrato honesto da batalha entre Joseph McCarthy e Edward R. Murrow, o longa ainda deixa explícita a sujeira que ocorre no meio jornalístico – um prato cheio para qualquer cinéfilo.

Minha Nota: 9.5

Direção: George Clooney
Gênero: Drama/Histórico
Duração: 93 minutos
Elenco: George Clooney, Robert Downey Jr., Thomas McCarthy, Tate Donovan, Grant Heslov, Alex Borstein, David Strathairn, Jeff Daniels, Robert John Burke, Frank Langella, Patricia Clarkson, Matt Ross, Ray Wise e Reed Diamond.

O Equilibrista (Man on Wire, 2008)

Setembro 17, 2009 por Bruno Pongas

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Por Bruno Pongas

Quão relevante precisa ser um acontecimento para virar tema de um documentário? Essa é uma pergunta difícil de responder; o que é interessante para mim muitas vezes pode ser tedioso para outro. No entanto, vivemos numa época em que é cada vez mais comum qualquer fato ou pessoa ganhar seus registros documentais. Desta maneira, acho justo haver uma obra dedicada à Philippe Petit e sua trupe, afinal, não é todo dia que um louco atravessa dois prédios gigantescos sem nenhum equipamento de segurança.

Tal aventura aconteceu no dia 7 de agosto de 1974, quatro anos após o extinto World Trade Center ser inaugurado. O documentário, dirigido por James Marsh, revista alguns trechos da vida insana do equilibrista Philippe Petit, desde suas primeiras peripécias - indo de um lado ao outro da catedral de Notre-Dame, em Paris -, até sua máxima experiência – nas torres gêmeas norte-americanas. O atentado terrorista de 11 de setembro de 2001, que pôs fim ao famoso complexo nova-iorquino, é propositalmente ignorado no longa. Li muitas críticas a isso, mas, ao meu ver, achei um grande acerto, pois o documentário é sobre um crime artístico, não sobre os fatídicos atentados.

Em O Equilibrista, temos parte da trajetória artística de Petit sendo revelada ao espectador. Ele, que ficou conhecido por atravessar os lugares mais improváveis do mundo, é retratado como um aventureiro voraz, daqueles que nunca desistem de seus objetivos. Quando mais jovem, e isso é revelado na fita, ele viu em algum veículo que seriam construídos dois grandes prédios nos Estados Unidos. A partir daí, se deleitar pelo WTC passou a ser uma de suas metas na vida. Nisso o documentário acerta em cheio, já que mostra com propriedade todas as idas e vindas do grupo em busca de sua meta. Também recebem destaque especial as dificuldades na hora de executar o plano: como burlar a segurança? como fazer o cabo ir de um prédio ao outro? Tudo isso é bem detalhado, sempre com a ajuda de elementos ficcionais para recordar alguns momentos.

E é justamente aí que o longa se perde um pouco. Em termos gerais, é um trabalho pobre em material real. Há pouca coisa sobre as aventuras, e isso indiscutivelmente faz falta. Mesmo a travessia das torres gêmeas, que é o grande clímax da história, tem pouco material visual. Como álibi, podemos afirmar que havia certa indisponibilidade de se fazer melhores imagens na época, seja por causa da muvuca gerada pelo aglomerado de curiosos ou pela pouca quantidade de pessoas envolvidas no ‘crime’. Mesmo assim, é algo que é sentido nitidamente… uma pena!

Apesar de ter seus defeitos, O Equilibrista é um trabalho excelente. Se destaca por contar uma história diferente do usual, pela riqueza de detalhes explícita na narrativa e pela belíssima trilha sonora. Ela, aliás, é um show à parte; poucas vezes vi uma obra com tanta qualidade nesse quesito… e logo num documentário, que nem exige tanta coisa assim de seus efeitos sonoros.

Minha Nota: 8.5

Direção: James Marsh
Gênero: Documentário
Duração: 90 minutos
Elenco: Philippe Petit, Annie Allix, Jean-Louis Blondeau, Ardis Campbell, David Demato, David Forman, David Roland Frank, Barry Greenhouse e Aaron Haskell.

Simplesmente Feliz (Happy-Go-Lucky, 2008)

Setembro 15, 2009 por Bruno Pongas

Simplesmente Feliz

Por Bruno Pongas

Se todos nós tivéssemos um pouco da alegria embutida na personalidade de Poppy estariamos feitos. Ela, que leva sua vidinha simples em meio aos problemas do cotidiano, jamais deixa de ser uma pessoa alegre, bonita e encantadora. A personagem faz o que muitos de nós deixamos passar batido em nosso dia-a-dia: encara as coisas com naturalidade, sempre sorrindo e tentando achar o lado bom da vida. Mesmo que tal alegria possa soar artificial e irritante em alguns momentos, a excelente Sally Hawkins consegue nos brindar com um ótimo papel – uma verdadeira fábula indicada, sobretudo, aos mal-humorados.

Na história, Poppy é uma professora de escola primária, que, como já dito, procura ver o lado bom da vida em tudo. No dia em que sua bicicleta é roubada, ao invés de ficar furiosa como qualquer ser humano ‘normal’, ela simplesmente sorri, e vai atrás de uma auto-escola para aprender a dirigir. Seu instrutor, o carrancudo Scott (Eddie Marsan), é completamente o oposto dela… sempre mal-humorado, irritado e de mal com a vida. No entanto, ao conhecer a garota as coisas mudam, e é a partir daí que vemos a trama ganhar seu colorido especial.

Sob a batuta de um diretor qualquer, Simplesmente Feliz fatidicamente cairia no senso comum das comédias românticas: personagens estúpidos, roteiro fraco e final altamente previsível. A habilidade e experiência de Mike Leigh, contudo, faz do filme um pequeno achado dentro de 2008. Os personagens, quando em cena, aparecem de forma genial. Leigh os construíu com cuidado, com destaque especial, é claro, para Poppy, que goza de uma profundidade extrema. O introspectivo instrutor é outra grande figura, e nos remete a pensamentos mais pessoais: “será que também somos assim? até que ponto levamos a vida com seriedade exagerada?”. Scott é como um reflexo do nosso cotidiano… um pouco caricato, é claro, mas com atitudes que nos instiga a refletir.

É por essas e por outras que Mike Leigh é um cineasta respeitadíssimo. Mesmo com uma obra que custou pouco - praticamente um trabalho secundário em sua carreira - ele nos condecora com uma história divertida e tocante… sempre à sua maneira. O roteiro, que também é assinado por ele, se diferencia bastante do que temos costumeiramente no gênero. Além dos ótimos diálogos, Leigh compensa a certa previsibilidade do argumento com um trabalho firme, maduro e gostoso de assistir. Uma pena que os personagens secundários tenham ficado um pouco limitados… eles mereciam um tempinho a mais em cena. Falando neles, talvez seja esse o grande mérito do diretor: criar pessoas extremamente interessantes e verossímeis, daquelas que podemos tranquilamente encontrar em nosso cotidiano, no trabalho, na faculdade… onde quer que seja.

Simplesmente Feliz, assim como sua personagem principal, se destaca pela simplicidade. Sem grandes maneirismos, efeitos mirabolantes ou coisas de outro mundo… muito pelo contrário! Vemos aqui a arte em estado puro, de uma maneira que é difícil encontrar no cinema hoje em dia. Mike Leigh, juntamente com Sally Hawkins, merecem todos os créditos. Vale se ligar também na trilha sonora, que se encaixa como luva no colorido mundo da simpática Poppy.

Minha Nota: 7.5

Direção: Mike Leigh
Gênero: Comédia/Drama
Duração: 118 minutos
Elenco: Sally Hawkins, Alexis Zegerman, Andrea Riseborough, Samuel Roukin, Sinead Matthews, Kate O’Flynn, Sarah Niles e Eddie Marsan.

Uma Prova de Amor (My Sister’s Keeper, 2009)

Setembro 13, 2009 por Bruno Pongas

My Sister's Keeper

Por Bruno Pongas

Até que ponto é legal conceber um filho apenas para salvar um outro de uma grave doença?

É a partir dessa premissa que o diretor norte-americano Nick Cassavetes constrói Uma Prova de Amor. Em linhas gerais, a história nos conduz a um julgamento prévio das personagens, que, por fim, é jogado por terra num final surpreendente, tocante e comovente. E parece que o cineasta vem se especializando em trabalhar com temas controversos… foi assim com Um Ato de Coragem, em 2002, e Alpha Dog, em 2006. Na nova empreitada, Cassavetes vai mais longe: coloca em cheque o desenvolvimento de seres humanos para fins discutíveis e nos posiciona de frente com o dia-a-dia de um doente em estado terminal (sem ser apelativo, vale lembrar).

O grande lance do longa, além de todos os entraves morais nele contido, é, como já disse, o julgamento das personagens. Cassavetes coloca o espectador contra a parede num grande dilema. Ficar do lado de quem? Talvez quem já tenha seus próprios filhos entenda a causa daqueles pais desesperados, que veem a morte de sua cria se aproximar sem poder fazer nada. Ao mesmo tempo, é impossível ignorar os sentimentos da menina mais nova, que, além de ser concebida para salvar outra pessoa, ainda teria seu cotidiano afetado para o resto da vida. Complicado, né? O diretor vai fundo na ferida de todos nós: o egoísmo! O ser humano é egoísta por natureza, sentimento que é difícil de lidar e admitir. Contudo, Cassavetes saca um final alternativo da cartola, que foge da mesmice ao ignorar o happy end ao mesmo tempo que defende seus personagens de um apedrejamento moral.

Nesse quesito o roteiro se sai muito bem. Consegue esconder a sete chaves o ponto crucial da trama e deixa para o final a cereja do bolo. No entanto, há alguns pontos que gostaria de destacar (ao meu ver negativos). Temos no início uma pequena história sendo contada em off… na sequência, vemos mais e mais offs com imagens das pessoas ao fundo. Para mim, o uso excessivo desse tipo de recurso prejudica um pouco o andamento do longa, pois os diálogos acabam ficando em segundo plano. Há também o uso um pouco exagerado de flashbacks… nada contra, mas aqui, eles aparecem de uma forma mal organizada. O espectador menos atento demorará a entender que se trata de um período de tempo anterior ao da narrativa. Nada, no entanto, que prejudique a leitura da trama… muito pelo contrário: com o tempo percebemos que os flashbacks agregam muito ao enredo.

Apesar dos contras, trata-se de um bom roteiro. Mesmo as diversas subtramas ganham colorido especial, jamais aparecem como mero enfeite ilustrativo. Contribui com isso, é claro, um elenco inspiradíssimo. Li em algum lugar que Cameron Diaz está apática e pouco consegue representar uma mulher guerreira, a verdadeira leoa que deveria tomar conta da filha e contornar todos os problemas. Achei ela perfeita, auxiliada por uma ótima maquiagem – que a deixou com uma cara de acabada, típica de quem passou noites e mais noites em claro revirando na cama. Quem também merece destaque é a já famosa Abigail Breslin – a mesma que foi indicada ao oscar de melhor atriz coadjuvante por Pequena Miss Sunshine. Ela nos traz sensibilidade, humor e alegria como poucas… é uma atriz de grande futuro.

Por fim, Uma Prova de Amor é daqueles filmes que aparentemente ninguém da nada por eles. Confesso que comprei meu ingresso meio reticente. Drama estrelado por Cameron Diaz? Quase fugi correndo! Bom… felizmente me surpreendi, com ela e com tudo… isso que importa! O longa faz emocionar com simplicidade, com uma história bonita, de amizade, lealdade, companheirismo e amor de família. Recomendo a todos!

Curiosidade: Na história, Anna é apenas um apelido. Seu nome verdadeiro é Andrômeda. Na mitologia grega, Andrômeda era a princesa da Etiópia, que foi acorrentada num rochedo como sacrifício para salvar seu povo de um monstro enviado por Poseidon. No filme, Anna (ou Andrômeda) também é ’acorrentada’ e oferecida ao sacrifício, só que para outro fim – salvar a vida de sua irmã.

Minha Nota: 7.5

Direção: Nick Cassavetes
Gênero: Drama
Duração: 109 minutos
Elenco: Abigail Breslin, Cameron Diaz, Sofia Vassilieva, Alec Baldwin, Jason Patric, Evan Ellingson, Emily Deschanel, Jeffrey Markle, Thomas Dekker e Joan Cusack.

Bem-Vindo (Welcome, 2009)

Setembro 10, 2009 por Leka Marcondes

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Por Alessandra Marcondes

Bem-vindo é, basicamente, uma história sobre sonhos e determinação. Já seria capaz de nos chacoalhar da cadeira pelo tema polêmico, que trata da imigração ilegal na França e da política de preconceito e intolerância do governo Sarkozy. Ao mostrar-nos a história de Bilal, entretanto, o longa vai além: mexe com nossos sentimentos mais íntimos ao jogar na cara nossa falta de atitude (chame de preguiça, se preferir) quanto ao que desejamos na vida. Explico: Bilal (Firat Ayverdi) é um imigrante curdo de apenas 17 anos e luta para conseguir rever a namorada, que se mudou do Curdistão para a Inglaterra com a família. Simon (Vincent Lindon) é um professor de natação que, antes de conhecer o garoto, era um acomodado europeu classe-média, que nem se atingia pelas questões sociais ao seu redor. Já Marion (Audrey Dana) é a ex-mulher de Simon, ativista e defensora dos direitos dos imigrantes, que nunca aceitou a postura de indiferença do companheiro e provavelmente o deixou por isso.

O circo está armado: o filme mostra aos poucos os personagens em pontas opostas, para logo depois inverter os papéis. O professor, preguiçoso anteriormente, se empenha na causa de Bilal, dando abrigo e auxílio para o imigrante, o que é considerado crime grave pelas leis francesas. A ex-mulher ‘ativista’, por sua vez, critica a atitude, deixando claro que seu discurso moralista não ultrapassa certo ponto:  sua ajuda limita-se ao que pode ser feito sem colocar em risco seu conforto. A trama brinca com nossa percepção, escancarando discursos de solidariedade vazia típicos da sociedade individualista em que vivemos. Quando Simon passa a agir só para provar algo à mulher e a si mesmo, e Marion divide claramente o bem dos outros da felicidade própria (que, de acordo com o sentimento altruísta, deveriam caminhar unidos), percebe-se que o papel de Bilal é ser uma pequena peça neste jogo de egos, passível de descarte após seu tempo de uso.

Cruel, não? Com seu final triste, Bem-Vindo nos mostra a realidade nua e crua das desigualdades entre os homens, fazendo-nos perceber que as mudanças só serão feitas quando intervirmos de maneira sincera no mundo real. O filme tira a conclusão árdua sob um olhar sensível e delicado, resultando em uma obra contemporânea magnífica. As atuações não ficam atrás; em situações-limite, tanto Vincent Lindon quanto Firat Ayverdi interpretam muito bem a linha frágil que separa identificação de ódio e sofrimento de compaixão.

O longa denuncia a injustiça da humanidade em suas várias vertentes: as situações de desentendimento entre Simon e Bilal (quase que paternais , vale lembrar) sempre se dão por julgamentos precipitados – no caso do roubo da medalha, ou quando o menino é pego tentando respirar dentro do saco plástico -, exatamente o mesmo motivo das guerras entre homens de diferentes cores, crenças e naturalidades. Assim, Philippe Lioret conduz a trama de forma magistral, pois utiliza pequenos dramas cotidianos para comprometer quem está do outro lado da tela, deixando claro que aquilo tudo não está tão longe de nossa realidade.

Não gosto da expressão “lição de vida”, e nem acho que seja este o caso da personagem de Bilal. Bem-Vindo se livra (felizmente) deste clichê, mostrando que sua história é só mais uma dentre uma multidão de imigrantes ilegais, que, mesmo sendo seres humanos, não têm o direito de entrar em um supermercado ou de tomar banho em um lugar decente. Os sonhos de Bilal podem sim soar irrealizáveis, mas adolescentes deveriam poder dar asas à imaginação, no lugar que bem desejarem. Se para ele é possível cruzar o Canal da Mancha à nado e jogar futebol no Manchester United, não custa nada levantarmos o bumbum da cadeira e tornarmos nossas atitudes compatíveis com nosso discurso. E para finalizar, a evidente provocação: não era a França que gritava aos quatro ventos “liberdade, igualdade e fraternidade”?

“Ele andou 400 quilômetros para encontrar com ela e agora quer atravessar o Canal da Mancha.
Quando você foi embora nem a rua atravessei para trazer você de volta”

Direção: Philippe Lioret
Gênero: Drama
Duração: 110 minutos
Elenco: Vincent Lindon, Firat Ayverdi, Audrey Dana, Derya Ayverdi, Yannick Renier, Olivier Rabourdin, Murat Subasi, Firat Celik e Selim Akgul.

Brüno (Brüno, 2009)

Setembro 8, 2009 por Bruno Pongas

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Por Bruno Pongas

O humor negro e nonsense de Sacha Baron Cohen inovou a maneira de se fazer comédia com o carismático Borat, em 2006. Nesse ano (2009), foi a vez de Brüno - um repórter gay austríaco que tenta a vida na América – chegar ao circuito mundial. Se o primeiro foi um sucesso justamente por ser inovador, o segundo fica devendo e muito nesse quesito. Seguindo basicamente o mesmo modelo de Borat - muito porque Sacha repete a parceria com o diretor Larry Charles e com alguns dos (vários) roteiristas - Brüno só acaba se salvando por raros momentos inspirados – o que veremos no decorrer desse texto.

Hei de confessar a vocês, caros leitores, que tenho um ligeiro preconceito com filmes desse tipo. Há quem ame comédia escrachada, eu respeito, mas é um tema que eu já olho torto logo de cara. Contudo, quando vi o aparentemente ingênuo repórter Borat Sagdiyev aprontando poucas e boas, ainda por cima com uma excelente crítica à ignorância do povo norte-americano (todos os povos têm seus ignorantes, é sempre bom frisar), achei divertidíssimo, rolei de rir e me despi de qualquer tipo de pré-conceito. No entanto, com o arrogante repórter austríaco tive uma experiência completamente distinta. Sem carisma, o personagem decepciona e garante pouquíssimas risadas.

Estruturalmente falando, vemos muito de Borat em Brüno. Por que? É simples: a narrativa de ambos é praticamente idêntica, o que dissipa qualquer suspiro de originalidade pretendida pelo longa. Trocando o estilo da personagem e algumas piadas aqui e ali, é praticamente impossível distinguí-los. Outro ponto que pode aborrecer o espectador é o fato de ninguém saber até que ponto o que acontece é totalmente verdadeiro. Obviamente existem algumas partes montadas para encher o roteiro… sem elas, a obra, que já é curta, viraria quase um média-metragem (penso que seria bem melhor assim… menos artificial e muito mais hilariante).

Como em todo filme de comédia, Brüno, apesar de ruim, também tem os seus momentos de glória. Posso enumerar alguns que me fizeram abrir um ligeiro sorriso. O primeiro, e para mim disparado o melhor de todos, é quando Cohen vai a um programa de TV com seu bebê – o africano O.J. A plateia, majoritariamente negra, fica furiosa com os absurdos proferidos pelo ator: “troquei o bebê por um Ipod… do U2! acham que é pouca coisa?”, diz ele tentando explicar como conseguiu o garoto… é genial! Outra passagem que garante boas risadas é a do exército. A cara dos oficiais ao ver o novo recruta é im-pa-gá-vel! O final, com uma centena de homens em polvorosa pelo discursso homofóbico da personagem (que ‘vira’ hetero, pasmem!), além de divertido, mostra como ainda existem pessoas com esse tipo de racismo lamentável.

Apesar de alguns bons momentos, a trama demora a decolar e carece muito de carisma. Nem mesmo o bom trabalho de Sacha Baron Cohen salva o longa, que só escapa de ser um completo fiasco pelos raros lampejos de genialidade que já citei. Como crítica à sociedade, Brüno também deixa a desejar. Há uma única parte em que realmente ficamos abismados: quando ele tenta contratar um bebê para fazer uma série de coisas estapafúrdias. O pior é saber que os próprios pais sujeitariam seus filhos a qualquer coisa só por causa do dinheiro: “Tudo bem vestir seu filho de nazista e empurrar um outro bebê vestido de judeu para o forno?”… “Para o forno? Claro, sem problema algum”… é muita ganância, ou estupidez mesmo…

Minha Nota: 5.0

Direção: Larry Charles
Gênero: Comédia
Duração: 81 minutos
Elenco: Sacha Baron Cohen, Gustaf Hammarsten, Clifford Bañagale, Chibundu Orukwowu, Josh Meyers, Bono Vox, Elton John, Chris Martin, Slash, Snoop Dogg, Paula Abdul, Harrison Ford, Sting e Miguel Sandoval.