Melancolia (Melancholia, 2011)

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Por Alessandra Marcondes

Melancolia foi um filme que mexeu comigo. Assim como todo filme do Lars Von Trier, confesso. Não é o melhor – nem um dos melhores – dele, ao meu ver. Mas mexeu comigo, e vou dizer por quê:

Melancolia trata de um estado comum aos homens que é difícil de entender, de aceitar, e de consertar. A melancolia é o sentimento de vazio que nos pega de surpresa e sem grandes motivos para existir. Justine (Kirsten Dunst) tem tudo: uma carreira, um homem que a ama, a família e os amigos ao seu redor, e o sonho de grande parte das mulheres, que é um vestido de noiva e todos os rituais que o envolvem. E mesmo assim, é difícil ser feliz. É difícil se importar com os outros, com a moral que nos faz viver em comunidade, com qualquer coisa do universo. É impossível escapar do vazio. É uma figura que vive sem lugar neste mundo, sem  ligação com nada nem ninguém, sem porquê de existir.

Na outra ponta (ou segundo capítulo), temos a irmã Claire (Charlotte Gainsbourg, a mesma de Anticristo), a parte centrada na vida de Justine. Claire é quem cuida incondicionalmente da irmã, mesmo esta não reconhecendo muito seu esfoço, seu carinho. É uma mulher que tem filho, marido rico e uma belíssima propriedade com 18 buracos no campo de golfe, e dá valor a isto tudo. Neste segundo capítulo também somos apresentados ao Melancholia, nome dado a um planeta azul gigante que tem o perigo de atingir a terra e reduzir nosso lindo planeta a poeira cósmica. Os cientistas prometeram que ele só passaria perto da Terra, mas vai saber.

Não sei se gostei deste quê de ficção científica em um filme de Von Trier. Ok, quem sou eu pra falar se existe o risco de outros elementos do espaço atingir-nos ou não? Mas reconheço que a ameaça iminente do planeta tem seu lugar na história. Mostra como a nossa existência pode ser reduzida ao nada, sem podermos controlar. É o perigo que se encontra ao nosso lado todos os dias, seja de ser atingido por um carro, levar um tiro em um assalto, bater a cabeça em uma pedra e se afogar. Sem aviso prévio ou nada que a gente possa fazer, somos reduzidos a uma carcaça sem vida. E de repente, tudo que a gente prezava tanto não tem mais a menor importância.

Refletindo…

Melancolia me fez pensar na questão da morte e de tudo que ela envolve. É divertido notar que o filme trata de um debate capaz de levantar polêmica em mesa de bar: é mais fácil morrer para quem crê em um sentido maior da vida e em tudo que a envolve, ou para quem não vê esperança nem sentido em viver, morrer, ou em elementos como vida após a morte, reencarnação,  existência de extraterrestres, etc? Eu mesma sou da teoria de que a morte é mais ‘fácil’ para quem crê em Deus e no Paraíso, mas talvez a realidade seja o contrário. Justine admite em um momento que não crê que exista vida além da Terra. Mas pra ela o perigo de morrer se apresenta de forma muito menos dolorosa do que em relação a Claire. Posto isto, adorei a cena em que Claire insinua que para Justine ‘é fácil’, afinal, o que ela tem a perder? E Justine responde com ironia: “fácil? é, muito fácil mesmo ser eu”. Não é fácil. Para ela viver é um martírio, uma luta constante contra fios cinzas de lã gigantes amarrados aos seus pés que não permitem que ela se mova. Mas ao mesmo tempo, o universo em si é descartável. Assim como somos descartáveis para o universo, Justine o descarta sem medo nem dor. Em qual lado você preferiria estar?

Outro fato que me remeteu à realidade foi (vem spoiler por aí!) o suicídio do marido de Claire, interpretado por Jack Bauer (cof, cof, quer dizer,  Kiefer Sutherland!). Demonstrou um egoísmo desprezível da parte dele, e sei que as situações são diferentes, mas a sensação de Claire pode ser facilmente comparada à de vovós que de repente perdem o marido, seu companheiro da vida toda, tendo que enfrentar a vida dali em diante de uma maneira bem mais difícil: sozinha. Isso acontece com muita gente por aí, e imagino que seja uma situação tão desesperadora quanto. Ela sabe que a morte pode a encontrar a qualquer momento, assim como Claire, e tem o sentimento cru de que terá que enfrentá-la sozinha.

Não gostei porque…

Principalmente por causa da personagem Justine. Não pela interpretação de Kirsten Dunst, longe disso. Mas não consegui acreditar na personagem, principalmente por suas atitudes antagônicas. Von Trier quer nos mostrar uma personagem triste e vazia, mas se em um momento ela prefere dormir do que estar em seu próprio casamento, em outro se diverte com uma situação totalmente mundana, a de uma limosine que não consegue fazer a curva. Se mostra frágil ao ponto de não conseguir nem tomar banho sozinha, mas vai até a beira do lago no meio da noite para  ‘curtir’ um momento semi-erótico em uma imagem que imita os quadros do renascentismo {alguém sabe qual? Procurei na internet e não achei}. É cruel com a irmã dizendo que seu comportamento é estúpido, mas não se incomoda de encenar uma cabana invisível para proteger o sobrinho. Ou seja: quem é essa mulher? A gota d’água foi insinuar que Justine teria super poderes, sabendo qual seria o final do impasse do planeta, acertando quantos grãos existiam em uma brincadeira boba da garrafa, e com energia azul saindo da ponta de seus dedos. O filme só conseguiu me deixar com raiva dela, e se o restante da narrativa me levou para realidade, estes foram os elementos que me fizeram pensar se eu não estava assistindo a alguma bobagem da astrologia. Tive que ignorar estes percalços para conseguir enxergar a perspectiva geral.

Também achei o vai-e-vem do primeiro capítulo, durante o casamento, exagerados, prolongados demais, cansativos. Ok, ela é vazia, we got it, move on! Tem muito a ver com eu não ter acreditado naquela mulher, mais para desequilibrada do que vazia. Concordo que nada melhor do que as solenidades e os procedimentos burocráticos de uma cerimônia pomposa de casamento para desequilibrar quem já não dá a mínima para circunstâncias sociais – só acho que poderiam ter nos poupado alguns minutos daquilo. Também achei que o roteiro quis dar uma explicação para o surto de Justine apresentando-nos sua mãe, como um cavaleiro do apocalipse, dizendo para a filha parar de sonhar, e se divertir enquanto durar, porque nada é pra sempre. Melancolia não é um sentimento que precisa de um porquê, e por isso que é tão difícil. Juntando todos estes detalhes, cheguei à conclusão de que Justine precisava era de uma boa terapeuta pois era desequilibrada, e não melancólica.

Gostei porque…

De qualquer forma, Melancolia é um filme do qual gostei no geral. As cenas do início me lembraram os Cinemagraphs, fotos que ficam belíssimas no formato de gifs com detalhes sutis em movimento, praticamente como um retrato vivo. A música e a fotografia, mais amaralada no 1º capítulo, mais acinzentada no 2º, cai como uma luva para o tema.

O filme é forte, é drama, e deixa com um nó na garganta difícil de desatar. Deu angústia e medo. Medo de parar de enxergar as cores da vida de repente, ou de enxergar as cores e, mesmo assim, ser punida pelo universo com um desastre repentino, um marido covarde, ou uma pessoa querida que é um peso morto e faz questão de tornar minha vida miserável. Medo do vazio do mundo, que a gente tenta tanto dar um jeito com anti-depressivos, alucinógenos e falsos momentos de êxtase exagerado, mas que por mais que a gente recuse, sempre estará lá.

No final, chorei. I always cry at endings, mas desta vez foi diferente: chorei porque é muito triste aceitar esta falta de propósito em algo que prezo tanto – a vida – e a falta de esperanças para o futuro. A gente luta pra ser mais sustentável, para fazer o bem ao próximo, para marcar nossa existência na história de alguma forma especial. E Lars Von Trier, com este filme, nos diz: Conformem-se. Aqui não há nada, e há muito menos além daqui. Na minha opinião, o diretor foi muito mais feliz neste filme do que em Anticristo, pois foi com Melancolia que ele conseguiu transmitir verdadeiramente o que sentiu durante a depressão pela qual passou (ou, me pergunto: ainda passa, dada a intensidade do filme atual?).

Feeling: é bom, mas não dos melhores de Lars Von Trier. Como todos do diretor, vá a fim de botar a cabeça pra pensar. Se a questão da morte, da psicanálise ou os comportamentos humanos te instigam, você vai adorar. Se não, só passará raiva de Justine e achará o filme ruim.

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12 Respostas to “Melancolia (Melancholia, 2011)”

  1. Bruno Pongas Says:

    Depois de pensar muito sobre o filme eu concluí que gostei, simplesmente porque a história acaba mexendo com você. Se o intuito do Lars von Trier era passar esse sentimento de vazio, de melancolia, ele acertou em cheio. Acho que por isso o filme deve ser valorizado.

  2. Guilhermelherme Says:

    Fiquei bem interessado em ver esse filme, vou conferi-lo nesse final de semana.

    Obs.: parou de atualizar o blog?

    Abraços!

    • Leka Marcondes Says:

      Oi Guilherme! E aí, conseguiu conferir Melancolia? :)
      Não paramos não, é que sabe como é essa vida de um dia só de 24 horas… Não dá para atualizar sempre. Postei Johnny & June, e estou com uma lista aqui de filmes guardados, só falta colocar no papel… Então pode voltar sempre ;)

      Beijos

  3. Mateus Says:

    Justine não tem super poderes, porque ela soube mesmo do resultado da loteria para se certificar de que estava à par de tudo no casamento e usa isso como argumento com Claire que diz que ela não sabe das coisas.

    Sobre aqueles filamentos de energia nas mãos dela, tem uma explicação científica: repare que lá atrás na cena um poste tem o mesmo filamento de energia. Aquilo é a aproximação de Melancolia com nossa atmosfera provocando pequenas descargas de eletricidade, nos pontos mais altos. Esse fenômeno tambem pode ser visto em outra parte do filme, no final, quando todos os postes contem aquele filamento.

    A cena de nudez não tem sentido erótico e sim de identificação de Justine com Melancolia. Repare que o estado de depressão melhora após a cena (ela depois tomou banho sozinha e comeu normalmente).

    Tem muitas interpretações a tirar do filme, como a relação de Justine com seu sobrinho, e aproximação repentina do planeta “no início ele era apenas uma estrela no céu e em questão de dias colidiu e começa a dar as caras exatamente no momento que Justine começa a transgredir no casamento (a cena de sexo com o rapaz é o ponto onde isso começa).

    • Leka Marcondes Says:

      Oi Mateus! Sei que os filamentos de energia estavam em outros elementos também, mas isto aliado ao fato de ela saber quantos grãos tinham na garrafa ainda me fazem pensar que Von Trier queria, por algum motivo, dizer-nos mesmo que sutilmente que ela tinha poderes especiais. Não tanto pelos filamentos de energia, mas pelo resultado da loteria. Talvez seja uma forma de dizer que as pessoas que se sentem sem lugar no mundo são em alguns detalhes melhores do que as pessoas ‘comuns’. Talvez uma forma de o próprio diretor justificar suas atitudes e estranhezas neste mundo. Vai saber.

  4. A Árvore da Vida (The Tree of Life, 2011) « Movie For Dummies Says:

    […] É um filme bonito para quem tem fé, porque (ao contrário de Melancolia, do qual eu falei neste post aqui), nos diz: no final, tudo dá certo. Há alguém lá do outro lado para ‘nos guiar até o […]

  5. renata ingrata Says:

    vai dar meia hora de bem dado, sério.. o filme já é uma merda, tu conseguiu deixar pior explicando

    vlw

  6. renata ingrata Says:

    meia hora cronometrada.. com certeza tudo que eu quero quando o mundo tiver acabando é construir uma oca (Y)

  7. renata ingrata Says:

    e o guri morreu passando fome cara

  8. Danilo Visin Says:

    O quadro é Ofélia, de John Everett Millais. Eh Romantico, ou seja, deprimente.

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