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Philomena (Philomena, 2013)

março 8, 2014

Por Alessandra Marcondes

Philomena, um dos indicados ao Oscar 2014 (concorreu nas categorias de melhor filme, atriz, roteiro adaptado e trilha sonora – mas não levou nenhuma estatueta) é um bom drama, com história original, que emociona e tem a magnífica Judi Dench no papel principal. Já bastaria para ter um saldo positivo, mas some a isso o fato de a história da senhora Philomena, irlandesa que teve seu filho vendido pela Igreja Católica para uma família adotiva nos EUA, ser inspirada em fatos mais do que reais. Uma história triste e dramática que de fato aconteceu. Taí um filme com todos os motivos para assistir.

A verdadeira Philomena Lee ao lado do ator Steve Coogan

A verdadeira Philomena Lee ao lado do ator Steve Coogan

Philomena (Judi Dench) foi enviada para um convento pela família pois estava grávida e era solteira, um escândalo à época. Deu à luz no próprio convento, sem médicos presentes ou anestesia (a dor seria uma espécie de punição pelo seu pecado) e, 3 anos depois, perdeu de vista o filho Antony, que fora vendido a uma família adotiva. Apenas 50 anos depois teve coragem de dividir esta história com a filha e tentar reencontrá-lo com a ajuda de Martin Sixsmith (Steeve Coogan), um jornalista desempregado e meio deprimido.

E aí que é acrescentado o tempero, na minha opinião, mais interessante ao longa: a trama se desenrola sempre deixando claro a dicotomia entre estes 2 personagens. Martin, jornalista cínico, intelectual liberal, ateu, cético e até mesmo mau humorado se interessa pela história mais por falta do que fazer do que por interesse em dramas reais. Philomena, idosa da classe trabalhadora, católica, simples e ingênua é daquelas que se empolgam com a possibilidade de assistir um filme do Eddie Murphy na TV e com livros de romance água com açúcar. Tipo vó, sabe?

E é nesta dicotomia que nascem os momentos mais interessantes do filme. A forma como a religião é retratada através das opiniões contrastantes faz a platéia pensar em suas próprias crenças. Por que Philomena, que teria todos os motivos do mundo para odiar a igreja, permanece totalmente adorável com freiras e ainda vê sentido em confessar seus pecados para padres? Como uma pessoa que sofreu tanto na adolescência é capaz de se encantar pelas coisas mais simples da vida, como variedade de panquecas no café da manhã? Eu, descrente que sou, não pude deixar de me ver no papel de Martin, quando ele, revoltado, agride verbalmente todos do convento comovido pelo rumo dos fatos relacionados ao filho de Philomena enquanto esta perdoa a freira que foi principal causadora da sua dor. Ele, e eu, nunca conseguiríamos perdoá-la.

Os diálogos entre Judi Dench e Steve Googan dão um tempero especial ao filme

Os diálogos entre Judi Dench e Steve Coogan dão um tempero especial ao filme

Disso, nasce a dúvida: a ignorância é uma bênção, ou a fé confere paz de espírito? Os intelectuais são incapazes de ser felizes devido à sua consciência sobre os males do mundo, ou devido à ausência de espiritualidade, verdadeira causa de nossas angústias? Você prefere ser capaz de perdoar a personificação do seu sofrimento do mundo? Acho que eu preferiria dar um soco naquela freira. E a genialidade do filme está em Philomena, uma figura digna de ‘pena’ de pessoas como Martin por ser ‘fraca e ignorante’, deixar claro que não odiar as pessoas é uma escolha, e que ela escolheu não ser uma pessoa cheia de ódio como ele.

Veja só, eu adoro dramas e não dá pra esconder que adorei o filme, mas o mais legal nele é que nos permite pensar em todas essas questões de uma maneira mais leve, sem dilacerar a alma. A soma dos 2 personagens tem química e diverte exatamente nas diferenças que fazem rir: a cada piada que Philomena não entende, a cada comentário ácido de Martin, a cada sequência destes dois mundos colidindo, com interações que dão o toque humano ao filme. Steve Coogan está muito bem, pois consegue passar de o jornalista grosso e babaca em um momento para logo em seguida resgatar toda a empatia e sensibilidade necessárias na hora de dar uma das notícias mais difíceis para uma mãe. Para um ator famoso por participar de comédias, foi uma surpresa. Ele mesmo também assina o roteiro ao lado de Jeff Pope, e os dois fizeram um ótimo trabalho caminhando sobre a linha tênue que divide drama e comédia aqui. Acertaram a mão.

Em duas palavras, resumo Philomena em um filme inteligente e adorável.

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