+ Entrevista com Lars von Trier

Willem Dafoe (esq.), Lars Von Trier (centro) e Charlotte Gainsbourg (dir.) promovem Anticristo

Willem Dafoe (esq.), Lars von Trier (centro) e Charlotte Gainsbourg (dir.) promovem Anticristo

  • Confira abaixo a entrevista do diretor Lars von Trier para a Folha de S.Paulo

Folha – Porque decidiu fazer ‘Anticristo’?

Von Trier: Eu faço meus filmes porque devo fazê-los. O Filme me tirou da cama onde estava depois de meses. Quando escrevi o roteiro de ‘Anticristo’ estava tentando me libertar. Não nego que ele é uma espécie de terapia. O filme é em estilo documental, mas com uma enorme carga emocional.

Folha – E a terapia funcionou?

Von Trier: Me fez sair da cama para trabalhar, ainda que tenha sido um trabalho cheio de limitações. Normalmente teria carregado a câmera, mas minhas mãos estavam tremendo. Meu corpo não podia sequer fazer um filme, perceber isso foi humilhante. Como não filmei, alguns trechos não saíram exatamente como tinha planejado. Por outro lado, como não podia estar atrás da câmera, estive muito perto dos atores, criei uma comunicação estreita e direta. Depois de muitas crises, passei a gostar do resultado.

Folha – A reação do público alternou-se entre aplausos, vaias, gritos. De maneira geral, a plateia ficou chocada…

Von Trier:  Eu faço meus filmes sem me importar com o público, não espero nada dele. Mas também não me sinto no dever de explicar o que faço. Meu filme tem cenas de horror em que o público ri, mas acho que ri nervoso. O que ninguém percebe é que meus filmes são feitos com muitos elementos e opiniões que não necessariamente coincidem com minhas opiniões pessoais. É preciso separar as coisas. Muitas vezes ponho em discussão ideias nas quais eu mesmo não acredito. Para mim, é óbvio que a religião é feita pelos homens. E este é o meu filme sobre religião.

Folha – E por que dedicou o filme a Tarkovski?

Von Trier: Tarkovski pertence à geração de cineastas que precedeu à minha, me sinto extremamente ligado a ele, como também a Bergman. Para mim, Tarkovski é uma espécie de deus a quem eu teria dedicado todos os meus filmes. Gosto especialmente de sua forma de encarar e filmar a natureza.

  • Charlotte Gainsbourg, vencedora do prêmio de melhor atriz no cultuado Festival de Cannes, também concedeu entrevista ao periódico.

Folha – Lars von Trier tem fama de maltratar suas atrizes… Björk e Nicole Kidman dizem ter sofrido nas mãos do diretor. Como foi a sua experiência nesse sentido?

Gainsbourg: Eu ouvi muito a respeito, mas resolvi fazer o teste ainda assim. Li o roteiro e tive medo, mas muito interesse. No teste, ele foi obscuro, pensei que não tinha se interessado. Mas uma semana depois, me ligou. Até agora não sei porque me escolheu. Lars von Trier é um homem extremamente tímido. Continua um desconhecido, mas desenvolvemos uma cumplicidade durante a realização do filme.

Folha – Quais foram as principais dificuldades da filmagem?

Gainsbourg: Ele tinha ataques de pânico e sabíamos que podia deixar o set a qualquer momento. Estava ansiosa, porque precisava dele como suporte. Mas foi um experiência impressionante. A cena de estrangulamento foi sem dúvida a mais difícil de ser feita. Repetimos muitas vezes, eu achava que não conseguiria. Lars me mostrou vídeos contendo outras cenas impressionantes de mulheres sufocadas. Ele queria que a coisa fosse real, que eu aguentasse o máximo que pudesse sem respirar. A verdade é que quanto mais extremo vai ficando, mais interessante é o trabalho.

Folha – E as cenas eróticas?

Gainsbourg: Nós tinhamos dublês para cenas de sexo explícito, mas há muitas outras de nudez e intimidade. Eu tive uma carreira em grande medida púdica. Em meus outros filmes nunca havia feito nada semelhante, procurei aguentar o máximo possível, esperando para chamar dublês só em casos extremos. Tive uma confiança cega na direção. Trier garantiu que não teria sobre essas cenas um olhar sujo, do qual eu teria vergonha depois. Ele cumpriu sua palavra.

Folha – Como você define sua personagem?

Gainsbourg: A personagem tem um lado extremamente obscuro. Até hoje não sei quem ela é. Se vocês repararem bem, nem ele nem ela têm nome! Ela é tirada do nada, não se baseia em nada. Tive de fazer esforço para não conectar minha vida pessoal naquilo tudo, deixar a imagem dos meus filhos de fora. Na hora de construir seu caráter, senti que de alguma maneira estava interpretando o próprio Trier. Que ele estava muito próximo das emoções da personagem e que os ataques de pânico dele eram um espelho de seus ataques. Algumas vezes pedi a ele que me descrevesse seus sintomas.

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3 Respostas to “+ Entrevista com Lars von Trier”

  1. Anticristo (Antichrist, 2009) « Movie For Dummies Says:

    […] Confira, na íntegra, a entrevista do diretor e da atriz premiada, Charlotte Gainsbourg, para o jorn… […]

  2. Leka Says:

    ‘A verdade é que quanto mais extremo vai ficando, mais interessante é o trabalho’
    O próximo passo então é, assim como se sacrificam pessoas em rituais religiosos ‘em nome de Deus’, matar de verdade o ator em cena, tudo ‘em nome da arte’!

    • Bruno Pongas Says:

      Eu li numa outra entrevista, não lembro se pra revista ‘Set’ ou pra revista ‘Bravo’, que a Charlotte dizia: “Ele não queria que eu moresse, mas a intenção era que fosse algo praticamente real”…

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