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Inquietos (Restless, 2011)

dezembro 9, 2011

Por Bruno Pongas

A morte é um tema recorrente no universo cinematográfico e popular entre as mais variadas culturas. Nossa curiosidade é infinita, sobretudo quando se trata de algo desconhecido. Quem nunca parou e pensou: o que acontece depois que morremos? Para muitos a vida acaba de vez, voltamos ao pó e fim de papo. Para outros há uma sequência, o paraíso, o renascimento…

Por ser impossível saber para onde vamos (se é que vamos para algum lugar) é que a morte acaba tendo tanta popularidade. Inquietos poderia ser apenas mais um dentre tantos filmes que se apoiam nesta temática, mas Gus Van Sant vai além e busca alternativas ao lugar comum. A morte aqui é apenas um pano de fundo. O que importa, na verdade, é como as pessoas lidam com ela.

Logo de cara somos apresentados ao jovem Enoch, que tem como passatempo (acreditem!) acompanhar velórios de pessoas desconhecidas. Pode soar estranho, mas apesar do mórbido hobbie, Enoch tem problemas para lidar com a morte. É num desses velórios que ele conhece a igualmente jovem Annabel. Podemos dizer que Annabel é o oposto do seu par. Enquanto ele convive com a morte de uma forma secundária, mas psicologicamente problemática, ela encara seu destino naturalmente – Annabel tem câncer e está em estado terminal, tendo apenas mais três meses de vida.

O japonês Hiroshi completa a trinca de personagens principais. Difícil explicar ou entender o que passou pela cabeça de Gus Van Sant ao incluí-lo na história. Hiroshi é o melhor amigo de Enoch, mas um melhor amigo um pouco incomum – ele é um fantasma! Fica claro desde o início que existe um laço fraternal entre os dois, laço esse que é marcado por brincadeiras (batalha naval!), conselhos e também por uma pitada de ciúmes.

Falando assim até parece que estamos diante de mais uma daquelas tramas sem pé nem cabeça, mas a aparente loucura serve como alicerce para algo maior. Gus Van Sant faz um ótimo trabalho atrás das câmeras e consegue extrair o máximo de seus comandados – 0 casal está muito convincente! Mérito dos atores? Também! Tanto Mia Wasikowska quanto Henry Hopper transmitem uma bela dose de realismo, mas acredito que o diretor tem sua “culpa” neste aspecto – ainda mais por se tratar de uma dupla de jovens, menos experientes. Vale lembrar que Henry é filho do grande Dennis Hopper, ator e diretor que participou de dezenas de filmes em Hollywood e a quem o longa é dedicado (Dennis morreu em 2010 vítima de um câncer de próstata).

Esse realismo de que falo é retocado por diálogos inspirados. Geralmente este tipo de filme traz consigo doses carregadas de sentimentalismo ou piadas pasteurizadas. Inquietos é essencialmente diferente. O relacionamento entre as personagens é natural porque os diálogos têm identidade, originalidade. Claro que o perfil do casal contribui, pois ambos apresentam traços de personalidade incomuns em obras do gênero. O mérito neste caso vai para o roteirista Jason Lew. Falando nele, sabiam que a história do longa é baseada numa experiência real do próprio Lew? Coisa de doido mesmo…

Ah, e é quase impossível encerrar a crítica sem elogiar a trilha sonora de Danny Elfman, figurinha carimbada nos filmes de Tim Burton e autor da emblemática música de abertura dos Simpsons. Elfman bolou uma trilha discreta, recheada de baladinhas pop/rock e embalada pela clássica Two of Us, dos Beatles. Nem é preciso dizer que os acordes alternativos combinam – e muito – com os protagonistas, né?

Thor (Thor, 2011)

novembro 30, 2011

Por Bruno Pongas

Hoje em dia temos filmes de super-herois para todos os gostos. Batman e Homem-Aranha aparecem na lista dos meus preferidos. Alguns, como Mulher-Gato, nem sequer mereciam ter saído do papel, tamanha a ruindade, e outros, como Homem de Ferro, trafegam num meio termo nem sempre cômodo entre o bom e o mais ou menos (no meu ponto de vista, claro).

É neste meio termo que se encontra Thor, um dos últimos super-herois a desembarcar nas telonas. O poderoso personagem, que já havia sido retratado fora dos quadrinhos em outras oportunidades (lembram-se do detestável e inexplicavelmente fraco Thor que aparece na saga dos Cavaleiros do Zodíaco?), ganhou sua vertente hollywoodiana através dos esforços de Kenneth Branagh.

A personagem Thor, em linhas gerais, segue à risca o que é dito sobre ela na mitologia nórdica – um homem forte, bondoso, honesto, mas ao mesmo tempo briguento e irresponsável. Também diz a mitologia que ele era faminto, o que também é retratado por Branagh, só que de forma descontraída e divertida. Neste ponto, o diretor acertou em cheio ao escolher Chris Hemsworth para o papel principal. Hemsworth, apesar de pouco conhecido do público, mostra talento e sabe dosar os tons cômico e sério muito bem.

Mas voltemos lá no começo, quando eu falava sobre o meio termo entre tramas de super-herois boas e ruins. Thor tem seus méritos, claro (falarei sobre eles adiante), mas derrapa em aspectos simples. Uma obra com tantos efeitos especiais merecia embates memoráveis, daqueles de tirar o fôlego. O que vemos, no entanto, é um conjunto de cenas pouco inspirado. Culpo aqui o diretor Kenneth Branagh, que poderia ter feito um melhor uso dos recursos disponíveis e dado mais vida à trama.

Além disso, o diretor abusa da câmera lenta para dramatizar certas passagens – recurso esse que deve ser utilizado com bastante cautela, pois em excesso pode deixar brega aquilo que deveria ser emocionante. Também achei o roteiro um pouco falho.  Faltaram detalhes ao introduzir a trama – detalhes esses que podem confundir o espectador pouco familiarizado com a história do super-heroi.

Por fim, acredito que alguns personagens mereciam mais destaque. Loki, que é muito bem interpretado pelo jovem Tom Hiddleston, tem papel fundamental na história, mas a subtrama que o envolve é pouco aprofundada. O mesmo vale para os outros guerreiros de Asgard. Nenhum deles é devidamente apresentado e o filme termina sem que nada saibamos sobre eles. Do outro lado do mundo, quem se destaca é Natalie Portman, que esbanja charme e a competência de sempre na pele de Jane Foster – a jovem nerd e inocente que se encanta por Thor na Terra.

Apesar dos erros, Kenneth Branagh consegue nos entreter durante as quase duas horas – o que é um grande mérito. Seu principal trunfo é o visual caprichado. Asgard está simplesmente exuberante, cheia  de vida, cores e detalhes. Os bons efeitos especiais aliados à maquiagem (os gigantes de gelo ficaram bastante realistas) contam pontos a favor do entretenimento. Os diálogos, ora cômicos, ora maduros, também merecem os devidos elogios – ponto para o diretor, que consegue juntar essas duas vertentes sem parecer forçado.

É claro que também devemos levar em conta a força do personagem. Thor, ao meu ver, é um dos super-herois mais legais dos quadrinhos. Neste caso, sobretudo quando uma obra sai do papel e vira filme, acredito que a empatia personagem/espectador conta muito. Apesar de arrogante, Thor é o tipo de heroi que todos gostam – é forte, bonito, confiante, leal e divertido. Por isso um filme em sua homenagem, mesmo que tenha seus defeitos, acaba ficando acima de média.

Minha Nota: 6.5

Contágio (Contagion, 2011)

novembro 8, 2011

Por Bruno Pongas

Quem curte o cinema norte-americano certamente irá se identificar de cara com Contágio, afinal, é bem raro nos depararmos com nomes como Matt Damon, Marion Cotillard, Kate Winslet, Gwyneth Paltrow, Jude Law, Laurence Fishburne e John Hawkes no mesmo elenco. E o melhor, essa trupe toda é dirigida pelo competente Steven Soderbergh, o mesmo que comandou a trilogia Bourne e os premiados Traffic e Erin Brockovich – Uma Mulher de Talento.

Bem, mas vamos rápido ao que interessa! Logo no começo do filme somos apresentados a uma sequência de mortes enigmáticas – todas pelo mesmo motivo e em países diversos. Mais à frente, vamos descobrir que essas (e outras tantas) mortes vêm sendo causadas por um vírus geneticamente mutável e de total desconhecimento das autoridades. Basta somarmos as palavras vírus e desconhecido e nos deparamos com um panorama de caos absoluto.

Pois é! Alguém aqui se lembra de Ensaio Sobre a Cegueira? É quase impossível ignorar a semelhança entre Contágio e o best-seller do português José Saramago. Embora essas duas obras possuam temáticas diferentes, em ambas podemos observar a magnitude caótica de uma epidemia. Tanto Soderbergh quanto Saramago resgatam o extinto dos seres humanos diante da morte iminente. Neste cenário catastrófico, o homem é retratado como um animal irracional, que recorre a qualquer artifício para sobreviver sem se importar com o próximo.

Contágio ainda vai além do simples estado de caos e do extinto dos seres humanos exalando pelas ruas. A política aqui ganha fortes contornos e um tom de crítica por parte do diretor. A partir do momento em que a suposta epidemia cai na imprensa, é praticamente impossível controlar o povo – que esvazia os supermercados e abarrota as estradas em busca de sobrevivência. Enquanto as pessoas se descontrolam com a proximidade da morte, as autoridades parecem ainda mais perdidas em meio à crise. Diante disso, a pergunta que fica é: estaríamos preparados para algo devastador como o retratado pelo cineasta?

Mudando um pouco de assunto, a narrativa, que nos é apresentada numa sequência de dias, é de fato bem interessante. Tudo começa no Dia 2 e vai se desenrolando aos poucos. O grande enigma, como vocês podem perceber, está no Dia 1 e logicamente será revelado nos minutos finais. Soderbergh, por sua vez, conduz a história muito bem e abusa de recursos simples – como a música frenética e agoniante – para fisgar o espectador. A fotografia, cinzenta em alguns momentos, também contribui para deixar o filme com um ar apocalíptico.

É claro que também existem pontos negativos. A meu ver, um elenco com tantos nomes de peso merecia um pouco mais de destaque. Atores como Matt Damon, Kate Winslet e Gwyneth Paltrow têm seus momentos bons, claro, mas no geral acabam ficando em segundo plano. Também achei descartável a trama paralela envolvendo a personagem de Jude Law. Soderbergh aparentemente quis mostrar o poder que um veículo de mídia pequeno, como um blog, pode ter num momento como esses – o que é bem legal. Mas para mim, pelo menos, pareceu forçado demais.

No final das contas, Contágio me agradou bastante, principalmente por tentar se diferenciar dentro de um gênero desgastado. É comum vermos filmes apocalípticos com cenários devastados, grupos restritos de sobreviventes e só – sem nenhum conteúdo relevante. Soderbergh tentou fazer diferente e se deu bem – só por isso já merece ser aplaudido.

O Discurso do Rei (King’s Speech, 2010)

fevereiro 24, 2011

Por Bruno Pongas

Albert Frederick Arthur George, ou George VI, ou simplesmente rei gago. Integrou a escola naval britânica, foi Duque de York – título de nobreza geralmente atribuído ao segundo filho do monarca reinante – e finalmente, em 1936, rei do Reino Unido, substituindo Eduardo VIII, que abdicou do trono por motivos pessoais – ele casaria com uma mulher duplamente divorciada, o que era proibido na época.

George VI foi coroado às vésperas da II Guerra Mundial. Na vizinha Alemanha, Adolf Hitler vinha ganhando cada vez mais poder apoiado na ideologia nazista. É nesse cenário que temos o filme O Discurso do Rei, de Tom Hooper. Apesar do período retratado, em nenhum momento vemos armas, combates ou coisas do tipo. O enredo se foca nos problemas pessoais de George VI, sobretudo sua gagueira, que o impedia de falar em público.

Num panorama geral, temos um roteiro bem simples, mas eficiente. Ponto para o roteirista David Seidler, que conseguiu contar a história de George VI sem nós. Seidler também leva o mérito por construir ótimos diálogos, alguns deles divertidíssimos. O mérito maior, no entanto, é mesmo de Tom Hooper, que soube dosar como poucos o humor e a ternura de seu filme. Podemos dizer que O Discurso do Rei é uma obra correta, sem exageros e paradoxal, pois mescla a pompa da monarquia britânica com uma história simplista, quase que escondida num cantinho qualquer da Inglaterra.

Hooper também merece elogios por conseguir extrair o máximo de seus comandados. Colin Firth está magnífico e só uma grande zebra será capaz de roubar sua estatueta de melhor ator. O mesmo vale para Geoffrey Rush, menos brilhante, mas ainda assim muito bem no papel do “médico” Lionel Logue – responsável pelo tratamento de George VI. O destaque negativo fica por conta de Helena Bonham Carter. Embora seja uma das minhas atrizes prediletas, em O Discurso do Rei ela está um pouco apagada, retratada sempre como esposa excessivamente compreensiva. Talvez seja a falta de costume, pois estamos habituados com a Helena Bonham Carter de Clube da Luta, Sweeney Todd e mais recentemente Harry Potter e Alice no País das Maravilhas.

Ainda sobre a história, gostaria de tecer alguns comentários sobre o clímax da obra, o qual achei especialmente emocionante. Talvez tenha faltado uma dose extra de sentimento, mas confesso que o discurso perfeito de George VI, comunicando o início da II Guerra Mundial ao povo britânico, me atingiu em cheio. Tom Hooper evitou cair nos clichês do gênero, talvez por isso tenha sido direto, novamente simples. É o tipo de coisa que agrada alguns, desagrada outros… eu gostei! No mais, destacaria o figurino caprichado, praxe nos filmes de época, e a boa trilha sonora do compositor francês Alexandre Desplat. Ambos (figurino e trilha sonora) concorrem ao Oscar em suas respectivas categorias.

Por fim, outro ponto positivo do longa foi mostrar de forma detalhada o desenvolvimento do laço afetivo entre o rei, aparentemente intocável, e um britânico qualquer. George VI se identificou com Lionel Logue justamente porque ele o tratava de igual pra igual – como todos os outros pacientes. Numa época em que parte dos relacionamentos eram construídos por interesse, a figura de uma pessoa comum despertou um sentimento praticamente inédito na autoridade máxima da monarquia britânica: a amizade. Por essas e por outras, O Discurso do Rei é muito mais do que um filme sobre um homem que superou suas dificuldades. Vai bem além disso; trata de amizade, amor, perseverança e sobretudo valores.

Cisne Negro (Black Swan, 2010)

fevereiro 18, 2011

Por Bruno Pongas

Fiquei muito empolgado quando soube da nova empreitada do nova-iorquino Darren Aronofsky. Sua grande carreira, apesar de curta, me animou bastante para esse Cisne Negro, ainda mais depois do excelente O Lutador. Antes de checar o longa nas telonas, no entanto, me deparei com algumas (poucas) críticas que batiam na mesma tecla: falta de originalidade.

De fato, Cisne Negro passa longe de ser original, experimental, ou qualquer coisa que o valha. Sobre isso, deixo aqui uma pergunta para quem se interessar em responder: o que é original nos dias de hoje? Bem, posso citar dois exemplos de filmes que assisti recentemente. Scott Pilgrim Contra o Mundo, de Edgar Wright, traz o universo dos quadrinhos para o cinema de uma forma nunca antes vista. Carregado de referências modernas, temos aqui um bom exemplar de originalidade. Obra-prima? Longe disso…

O segundo vem lá de longe, da Tailândia. Tio Boonmee, que Pode Recordar Suas Vidas Passadas, do experimental e premiado Apichatpong Weerasethakul, tem suas qualidades. A história é interessante, profunda, mas a trama é arrastada, regionalista. É um daqueles filmes, assim como Anticristo, de Lars Von Trier, que pede uma segunda leitura. O experimentalismo de Apichatpong tem seus pontos positivos, mas classificá-lo como magnífico é um tanto quanto exagerado.

Onde eu quero chegar com isso? É simples: nem tudo que é original é bom. É claro que filmes experimentais devem ser olhados com carinho e respeito, pois inovar é difícil, algo realmente para poucos – e bons. Contudo, vivemos num mundo, como eu disse, onde inovar é raridade. Faltam cabeças pensantes? Eu penso de outra forma. Os anos passam, muitos filmes chegam aos cinemas e as fórmulas cinematográficas, aos poucos, se esgotam. Se esgotam por quê? Porque já foram utilizadas por outro, que chupinhou a fórmula de outro, que se inspirou em outro e assim por diante.

Darren Aronofsky ao menos segue fiel às suas características. Em Cisne Negro, vemos muito do que foi visto em O Lutador. É claro que temos temáticas completamente distintas, mas o estilo do diretor é bem semelhante. Deixemos de lado a preferência por dramas familiares, mas falemos da câmera que segue a bailarina Nina (Natalie Portman) durante todo o longa. A câmera por detrás da personagem é a mesma que perseguiu Randy Robinson (Mickey Rourke) há pouco mais de dois anos.

Em Cisne Negro, todavia, o significado disso é mais representativo. Nina, deslumbrada com a chance de protagonizar o clássico O Lago dos Cisnes, começa a ficar paranóica com a presença de Lily (Mila Kunis), bailarina recém-chegada de San Francisco e a quem julga querer roubar seu posto no aclamado espetáculo. O que era pra ser um marco em sua carreira se transforma num pesadelo sem fim. Nina é perseguida em casa pelo protecionismo exacerbado de sua mae e na academia de balé pelo professor perfeccionista, sem falar da veterana Beth (Winona Ryder), que também bota suas manguinhas de fora com o passar da fita.

O suspense psicológico de Aronofsky nos fisga de maneira irresistível, especialmente nos 30 minutos finais – uma verdadeira sequência de tirar o fôlego. A alucinada Nina, outrora frágil e ingênua, mostra aos poucos que é capaz de tudo para se manter no papel principal do espetáculo. Ao espectador, resta a dúvida: o que é delírio e o que é real? A viagem pela demência da personagem de Natalie Portman é divertida e assustadora, nos envolve com a quebra de preconceitos e encanta de forma macabra no ato derradeiro do cisne negro.

Falando nela, Portman está nada menos do que brilhante, muito bem apoiada pelos coadjuvantes Vincent Cassel, Mila Kunis, Winona Ryder e Barbara Hershey. Com um elenco recheado de estrelas e uma trilha sonora mais do que adequada, Darren Aronofsky faz de Cisne Negro (mais) uma obra-prima em sua carreira.

Bravura Indômita (True Grit, 2010)

fevereiro 17, 2011

Por Bruno Pongas

Bravura Indômita é o que podemos chamar de “velho oeste moderno”. Os personagens, claro, seguem a linha durona, maltrapilha e mal humorada que caracteriza os filmes do gênero. Por trás disso, no entanto, há uma carga de sentimentalismo bem maior, diferente de obras clássicas, como Três Homens em Conflito, por exemplo.

É claro que Bravura Indômita contém todos os ingredientes do estilo faroeste, a começar pelos diálogos muito bem construídos e pelo humor refinado, passando pela bela fotografia e pela violência explícita, essência do gênero Western. A diferença aqui está na abordagem da obra, que pode até pecar no quesito originalidade, mas que ainda assim é bem interessante.

A história é focada na saga da jovem Mattie Ross (Hailee Steinfeld), garota de apenas 14 anos que viu seu pai ser assassinado pelo covarde Tom Chaney (Josh Brolin). Em busca de vingança, Ross contrata o destemido e cruel Rooster Cogburn (Jeff Bridges), uma espécie de caçador de recompensas da lei. É a partir desta premissa que a história se desenvolve.

Ross, apesar de jovem e aparentemente delicada, faz o estilo linha dura. Sem chegar aos pés do troglodita Cogburn, é verdade, mas sempre com a língua afiada e com respostas de deixar qualquer um de queixo caído. É claro que uma menina de 14 anos no papel principal de um filme de velho oeste dá outro tom à trama. Ross, mesmo sendo firme, tem seu lado “garotinha indefesa” bem explícito. Sua coragem é admirável, mas por trás dessa bravura toda há um ser humano bem frágil.

Cogburn, por outro lado, é um matador sem escrúpulos, temido por todos. Nem precisamos dizer que ele criará um laço paternal bem particular com a pequena Ross. E é exatamente aqui que o longa peca na originalidade. Isso, ao meu ver, passa longe de ser um defeito. É, ao contrário, interessante observar as mudanças de comportamento dos personagens, tratadas de forma sutil e bem humorada.

Falando em bom humor, Ethan e Joel Coen nos brindam com mais um trabalho recheado de qualidades. Como já citei acima, destaco em Bravura Indômita, sobretudo, os diálogos de primeira, inteligentes e permeados por um humor sutil, ligeiramente negro. A violência, mais contida que em No Country For Old Man, também se destaca e dá cor a um punhado de cenas. Vale ressaltar também a belíssima fotografia, que intercala o sol escaldante do deserto norte-americano com as nevascas do rigoroso inverno ianque.

Para finalizar, é impossível falar de Bravura Indômita sem citar o elenco inspiradíssimo. Jeff Bridges está novamente sensacional. Depois de ganhar a estatueta no último ano pelo papel em Crazy Heart, ele nos traz um Rooster Cogburn caricato, divertido e com um sotaque típico brilhante – coisa para poucos. Bridges deverá brigar novamente pelo Oscar, mas dessa vez o favorito é Colin Firth, de O Discurso do Rei. Quem também tem chances de levar o prêmio para casa é Hailee Steinfeld, que concorre ao Oscar de Melhor Atriz Coadjuvante. Matt Damon, o Texas Ranger LaBoeuf, Josh Brolin, o malvado Tom Chaney, e Barry Pepper, o feioso Lucky Ned Pepper, também aparecem bem, mas foram deixados de lado pela Academia.

No final das contas, Bravura Indômita é um filmaço, mais um para a conta de Ethan e Joel Coen, que correm por fora na busca de seu segundo Oscar.

Guerra ao Terror (The Hurt Locker, 2008)

janeiro 5, 2011

Por Bruno Pongas

O nome Guerra ao Terror sugere muitos tiros, pouco conteúdo e uma ideologia rasa. Num cenário hipotético, podemos imaginar os norte-americanos transbordando bondade, como sempre, e qualquer país do Oriente Médio sendo massacrado por nada.

Culpa disso, claro, é de quem traduziu The Hurt Locker para Guerra ao Terror. Em inglês, Hurt Locker significa um período de grande sofrimento e angústia, sentimentos esses retratados no filme com primor. Em português, no entanto, o título perde todo seu significado literal, o que é lamentável.

Erros à parte, Guerra ao Terror traz à tona um tema interessante, pouco explorado entre o gênero. Kathryn Bigelow, diretora, e Mark Boal, roteirista, nos colocam diante de duas personalidades distintas: JT Sanborn e William James. Ambos cumprem seus últimos dias na guerra norte-americana contra o Iraque. Enquanto Sanborn está enfadado e só pensa em voltar pra casa, James é o que podemos chamar de viciado. Sim, trata-se de um viciado em guerra.

Essa pequena história pode significar pouco para alguns, mas a meu ver levanta um debate bem interessante: até que ponto a guerra vicia? Quem está no Exército, sobretudo num país como os Estados Unidos, tem que estar preparado a qualquer momento. Isso requer a ruptura quase que total dos laços afetivos. Aos poucos, deixa-se de formar um ser humano para se criar uma máquina de guerra, pronta para matar sem piedade.

O maior interesse aqui passa a ser do Estado, cegamente viciado em poder. As guerras, além de poder, rendem dinheiro através da indústria bélica e alimentam o ódio do ser humano, sentimento que se torna o principal combustível das já citadas máquinas. Percebemos, assim, que se forma um ciclo quase que inquebrável.

Talvez seja esse o maior trunfo de Kathryn Bigelow, que conseguiu profundidade num tema que geralmente é mal explorado. Além do viés ideológico, Guerra ao Terror também se destaca em outros aspectos. Tecnicamente o filme é perfeito. A diretora consegue impor à trama um ritmo acelerado e extremamente tenso. É praticamente impossível perder o foco ou deixar de torcer pelos protagonistas.

Falando neles, Anthony Mackie e Jeremy Renner fazem um trabalho de primeira. Renner, o viciado Sargento William James, fez por merecer a lembrança da Academia na categoria “Melhor Ator”. Destaque também para o menos conhecido Brian Geraghty, que talvez merecesse ser indicado como “Melhor Ator Coadjuvante”.

Guerra ao Terror é o melhor filme de guerra da última década. Seria pretensioso da minha parte compará-lo a clássicos do gênero, como Apocalipse Now e Platoon, mas tenho certeza que estamos diante de um dos clássicos do futuro.

Três Homens em Conflito (Il Buono, Il Brutto, Il Cattivo, 1966)

janeiro 2, 2011

Por Bruno Pongas

O gênero Western possui um público restrito. Paisagens desertas, personagens caricatos, tiros, mortes, trapaças. É um verdadeiro prato cheio de testosterona. Embora seja um estilo rejeitado por muitos, temos que tirar o chapéu para algumas obras, como Três Homens em Conflito, do italiano Sergio Leone. O fato é que poucos sabem filmar um “bangue-bangue” como Leone, justamente reconhecido como o mestre do faroeste.

Em Três Homens em Conflito, temos ingredientes de sobra para uma boa trama. Leone, que aqui nos brinda com um trabalho magnífico, esbanja paciência na hora de contar sua história, tanto que o primeiro diálogo da fita demora quase dez minutos para dar as caras.

Somos, aos poucos, apresentados aos personagens. Apesar das alcunhas de Bom, Mau e Feio, nenhum dos três é flor que se cheire, nem mesmo Blondie, o Bom, interpretado aqui por um jovem e quase irreconhecível Clint Eastwood.

Eastwood, aliás, dá vida a um dos personagens mais legais da história do cinema. É impossível torcer contra o Bom, mesmo ele sendo um trapaceiro de primeira. Blondie é aquele clássico anti-herói. É o mau caráter do bem, se é que podemos chamá-lo assim. Por mais que sua conduta seja moralmente incorreta, fica difícil resistir ao seu carisma.

Lee Van Cleef, o Mau, e Eli Wallach, o Feio, também entregam ótimos papéis. Enquanto o primeiro transborda frieza e antipatia, o segundo é o alívio cômico da trama. Cleef, que na história recebe o nome de Angel Eyes, é o que menos aparece durante os 161 minutos. No entanto, só a cena em que ele é apresentado já seria o bastante, pois é, de longe, uma das melhores do filme. Wallach, por sua vez, atende pelo nome de Tuco e é caracterizado por um punhado de frases de efeito, como na passagem em que está tomando banho numa banheira e recebe uma visita inesperada: “Quando tiver que atirar, atire, não fale!”

Por fim, é impossível falar de Três Homens em Conflito sem rasgar elogios ao seu desfecho. A cena em que os três apontam suas armas um para o outro é tensa e parece interminável. Os cortes, aqui, aparecem na medida certa. O enquadramento perfeito mostra a agonia e o suor escorrendo frio pelo rosto dos pistoleiros. Antes de os créditos subirem, ainda sobra tempo para a melhor frase do longa: “Existem dois tipos de homens no mundo: os que têm uma arma e os que cavam. Você cava!”.

O excelente roteiro, que conta com reviravoltas na medida certa, aliado ao desempenho fantástico de seus atores, faz de Três Homens em Conflito uma obra-prima. É um filme que deve ser apreciado por qualquer um, pois transcende as barreiras estereotipadas do gênero Western. Sergio Leone consegue como ninguém derrubar esse muro de estereótipos. Para isso, seus aliados aparecem das mais variadas formas, mas os principais deles têm um quê característico: os diálogos, oriundos do bom roteiro de Luciano Vincenzoni e do próprio Leone, e a estupenda trilha sonora, do compositor romano Ennio Morricone – um verdadeiro show à parte.

Minha Nota: 10,0

Harry Potter e as Relíquias da Morte: Parte I (Harry Potter and The Deathly Hallows: Part 1, 2010)

dezembro 3, 2010

Por Bruno Pongas

Harry Potter perdeu toda a magia de Hogwarts e também sua infantilidade. A tradicional escola de bruxos sequer aparece no sétimo filme da franquia. As mágicas, no entanto, continuam lá, mais sombrias do que nunca, seguindo a linha de Harry Potter e o Enigma do Príncipe.

O fato é que Harry Potter deixou de ser um filme para crianças e adolescentes e se tornou uma obra para gente grande. Jovens atores, como Daniel Radcliffe, Emma Watson e Rupert Grint, cresceram e agora atuam como adultos.

Adultos esses que enriquecem e muito a trama. David Thewlis, Timothy Spall, Ralph Fiennes, Jason Isaacs, Imelda Staunton e, sobretudo, Helena Bonham Carter e Alan Rickman, colorem o filme de maneira especial. Cada um encanta à sua maneira. O sadismo de Bellatrix Lestrange é incomparável, assim como a frieza de Severus Snape e o medo de Lucius Malfoy.

A trama sombria ainda dá espaço para momentos lúdicos, como a dança de Harry e Hermione, e tristes, como a morte do elfo Dobby – de longe uma das cenas mais bonitas da série. Em meio a tristezas e alegrias, destaque para os cenários e paisagens caprichados. Belos rios, montanhas, florestas – um show à parte.

O roteiro de Steve Kloves é um dos pontos fortes do longa. Kloves vai muito bem ao adaptar apenas metade do sétimo livro. Ele é fiel à obra original na medida do possível e corrige alguns erros do filme anterior, como a falta de momentos tensos, por exemplo. Aqui, temos suspense de sobra e até alguns sustos que podem pegar desprevenidos os espectadores menos avisados.

Steve Kloves também soube dar um ponto final à trama na hora certa. É claro que fica aquele gostinho de “quero mais”, mas o momento escolhido para encerrar o filme foi perfeito. Além disso, ele acertou ao evitar introduzir a história para aqueles que nunca assistiram Harry Potter antes. No auge do sétimo capítulo, era de se esperar que todos já conhecessem o mínimo sobre o bruxo mais famoso dos cinemas.

Como toda película, Harry Potter e as Relíquias da Morte: Parte 1 também tem seus defeitos, ambos na parte de relacionamentos. No livro, nunca ficou em aberto um suposto clima entre Harry e Hermione, algo descaradamente explícito no filme. Esperava também que Gina Weasley ganhasse um pouco mais de destaque, já que foi bastante explorada durante o Enigma do Príncipe.

Defeitos à parte, Harry Potter e as Relíquias da Morte: Parte 1 é muito eficiente em sua proposta: entreter e deixar o espectador ansioso para o capítulo final da saga, que chegará às telonas cercado de expectativas. Uma pena que a segunda metade demore tanto tempo para entrar em cartaz. A data de lançamento está marcada para julho de 2011.

Minha Nota: 9,0

The Runaways – Garotas do Rock (The Runaways, 2010)

outubro 25, 2010

Por Bruno Pongas

The Runaways passa longe de ser o melhor filme já feito sobre rock, tampouco se trata de um registro documental sobre a história da banda de mesmo nome. A trama é baseada na trajetória do grupo, que surgiu na década de 1970 em busca de espaço num cenário amplamente dominado por homens. Detalhe: o quinteto era formado apenas por garotas.

Entre erros e acertos, o resultado final da obra é bom. A diretora Floria Sigismondi conseguiu um bom trabalho em sua essência: transmitir o espírito rebelde e desafiador daquela época, retratado especialmente pelo produtor Kim Fowley, aqui brilhantemente interpretado por Michael Shannon, que sabia que o grupo só chegaria aonde chegou se transpassasse violência e sexualidade.

As Runaways (Fugitivas, em português) duraram cinco anos (1975-1979). Nesse período, lançaram quatro CDs: The Runaways (1976), Queens of Noise (1977), Waitin` for the Night (1977) e And Now… The Runaways (1978).

Seus maiores expoentes foram Cherie Currie, a temperamental vocalista, e Joan Jett. Vale recordar, no entanto, da bela Lita Ford, que construiu uma carreira de grande sucesso pós-Runaways, tendo inclusive um dueto com Ozzy Ousbourne em If I Close my Eyes Forever.

E é justamente aqui que está um dos grandes erros do roteiro. Ford foi simplesmente deixada de lado. Tudo bem a história ser focada em Currie e Jett, mas a guitarrista deveria ter sido lembrada com mais carinho. Para piorar, ela ainda passa uma imagem de chata – e quem nunca ouviu a banda certamente irá concordar.

Outro erro do roteiro é apressar demais os acontecimentos. A fita tem menos de duas horas, poderia ter sido melhor trabalhada. Aqui, o espectador fica perdido em meio aos fatos. Tudo é muito mal explicado, desde o relacionamento adolescente entre Joan Jett e Cherie Currie até os motivos que causaram a ruptura do grupo.

Apesar dos defeitos, as qualidades me mantiveram ligado durante os 105 minutos. O que mais me animou foi o desempenho de Kristen Stewart (a chatinha Bella Swan, de Crepúsculo) e Dakota Fanning, que aos 16 anos está crescendo muito como atriz.

Kristen se destaca no papel da carrancuda Joan Jett. É um personagem complexo, completamente distinto da enjoada Bella Swan. Jett tem personalidade forte, é uma líder nata. Isso a atriz transmite ao espectador muito bem. O mesmo vale para Dakota Fanning, que dá vida à instável Cherie Currie.

O ponto forte, no entanto, é a trilha sonora, que embala perfeitamente a história das garotas rebeldes. Aqui, temos muito mais do que apenas The Runaways. O espectador tem a chance de ouvir clássicos do rock como I Wanna Be Your Dog (The Stooges), Rebel Rebel (David Bowie) e Pretty Vacant (Sex Pistols).

The Runaways – Garotas do Rock é um filme para quem já conhece a banda ou simplesmente é apreciador de Rock and Roll. Quem não se encaixa em nenhum desses perfis pode ficar em casa e economizar seu dinheiro, porque o resultado final pode ser uma legítima bomba.

Minha Nota: 7.5