Melancolia (Melancholia, 2011)

agosto 25, 2011 by

Por Alessandra Marcondes

Melancolia foi um filme que mexeu comigo. Assim como todo filme do Lars Von Trier, confesso. Não é o melhor – nem um dos melhores – dele, ao meu ver. Mas mexeu comigo, e vou dizer por quê:

Melancolia trata de um estado comum aos homens que é difícil de entender, de aceitar, e de consertar. A melancolia é o sentimento de vazio que nos pega de surpresa e sem grandes motivos para existir. Justine (Kirsten Dunst) tem tudo: uma carreira, um homem que a ama, a família e os amigos ao seu redor, e o sonho de grande parte das mulheres, que é um vestido de noiva e todos os rituais que o envolvem. E mesmo assim, é difícil ser feliz. É difícil se importar com os outros, com a moral que nos faz viver em comunidade, com qualquer coisa do universo. É impossível escapar do vazio. É uma figura que vive sem lugar neste mundo, sem  ligação com nada nem ninguém, sem porquê de existir.

Na outra ponta (ou segundo capítulo), temos a irmã Claire (Charlotte Gainsbourg, a mesma de Anticristo), a parte centrada na vida de Justine. Claire é quem cuida incondicionalmente da irmã, mesmo esta não reconhecendo muito seu esfoço, seu carinho. É uma mulher que tem filho, marido rico e uma belíssima propriedade com 18 buracos no campo de golfe, e dá valor a isto tudo. Neste segundo capítulo também somos apresentados ao Melancholia, nome dado a um planeta azul gigante que tem o perigo de atingir a terra e reduzir nosso lindo planeta a poeira cósmica. Os cientistas prometeram que ele só passaria perto da Terra, mas vai saber.

Não sei se gostei deste quê de ficção científica em um filme de Von Trier. Ok, quem sou eu pra falar se existe o risco de outros elementos do espaço atingir-nos ou não? Mas reconheço que a ameaça iminente do planeta tem seu lugar na história. Mostra como a nossa existência pode ser reduzida ao nada, sem podermos controlar. É o perigo que se encontra ao nosso lado todos os dias, seja de ser atingido por um carro, levar um tiro em um assalto, bater a cabeça em uma pedra e se afogar. Sem aviso prévio ou nada que a gente possa fazer, somos reduzidos a uma carcaça sem vida. E de repente, tudo que a gente prezava tanto não tem mais a menor importância.

Refletindo…

Melancolia me fez pensar na questão da morte e de tudo que ela envolve. É divertido notar que o filme trata de um debate capaz de levantar polêmica em mesa de bar: é mais fácil morrer para quem crê em um sentido maior da vida e em tudo que a envolve, ou para quem não vê esperança nem sentido em viver, morrer, ou em elementos como vida após a morte, reencarnação,  existência de extraterrestres, etc? Eu mesma sou da teoria de que a morte é mais ‘fácil’ para quem crê em Deus e no Paraíso, mas talvez a realidade seja o contrário. Justine admite em um momento que não crê que exista vida além da Terra. Mas pra ela o perigo de morrer se apresenta de forma muito menos dolorosa do que em relação a Claire. Posto isto, adorei a cena em que Claire insinua que para Justine ‘é fácil’, afinal, o que ela tem a perder? E Justine responde com ironia: “fácil? é, muito fácil mesmo ser eu”. Não é fácil. Para ela viver é um martírio, uma luta constante contra fios cinzas de lã gigantes amarrados aos seus pés que não permitem que ela se mova. Mas ao mesmo tempo, o universo em si é descartável. Assim como somos descartáveis para o universo, Justine o descarta sem medo nem dor. Em qual lado você preferiria estar?

Outro fato que me remeteu à realidade foi (vem spoiler por aí!) o suicídio do marido de Claire, interpretado por Jack Bauer (cof, cof, quer dizer,  Kiefer Sutherland!). Demonstrou um egoísmo desprezível da parte dele, e sei que as situações são diferentes, mas a sensação de Claire pode ser facilmente comparada à de vovós que de repente perdem o marido, seu companheiro da vida toda, tendo que enfrentar a vida dali em diante de uma maneira bem mais difícil: sozinha. Isso acontece com muita gente por aí, e imagino que seja uma situação tão desesperadora quanto. Ela sabe que a morte pode a encontrar a qualquer momento, assim como Claire, e tem o sentimento cru de que terá que enfrentá-la sozinha.

Não gostei porque…

Principalmente por causa da personagem Justine. Não pela interpretação de Kirsten Dunst, longe disso. Mas não consegui acreditar na personagem, principalmente por suas atitudes antagônicas. Von Trier quer nos mostrar uma personagem triste e vazia, mas se em um momento ela prefere dormir do que estar em seu próprio casamento, em outro se diverte com uma situação totalmente mundana, a de uma limosine que não consegue fazer a curva. Se mostra frágil ao ponto de não conseguir nem tomar banho sozinha, mas vai até a beira do lago no meio da noite para  ‘curtir’ um momento semi-erótico em uma imagem que imita os quadros do renascentismo {alguém sabe qual? Procurei na internet e não achei}. É cruel com a irmã dizendo que seu comportamento é estúpido, mas não se incomoda de encenar uma cabana invisível para proteger o sobrinho. Ou seja: quem é essa mulher? A gota d’água foi insinuar que Justine teria super poderes, sabendo qual seria o final do impasse do planeta, acertando quantos grãos existiam em uma brincadeira boba da garrafa, e com energia azul saindo da ponta de seus dedos. O filme só conseguiu me deixar com raiva dela, e se o restante da narrativa me levou para realidade, estes foram os elementos que me fizeram pensar se eu não estava assistindo a alguma bobagem da astrologia. Tive que ignorar estes percalços para conseguir enxergar a perspectiva geral.

Também achei o vai-e-vem do primeiro capítulo, durante o casamento, exagerados, prolongados demais, cansativos. Ok, ela é vazia, we got it, move on! Tem muito a ver com eu não ter acreditado naquela mulher, mais para desequilibrada do que vazia. Concordo que nada melhor do que as solenidades e os procedimentos burocráticos de uma cerimônia pomposa de casamento para desequilibrar quem já não dá a mínima para circunstâncias sociais – só acho que poderiam ter nos poupado alguns minutos daquilo. Também achei que o roteiro quis dar uma explicação para o surto de Justine apresentando-nos sua mãe, como um cavaleiro do apocalipse, dizendo para a filha parar de sonhar, e se divertir enquanto durar, porque nada é pra sempre. Melancolia não é um sentimento que precisa de um porquê, e por isso que é tão difícil. Juntando todos estes detalhes, cheguei à conclusão de que Justine precisava era de uma boa terapeuta pois era desequilibrada, e não melancólica.

Gostei porque…

De qualquer forma, Melancolia é um filme do qual gostei no geral. As cenas do início me lembraram os Cinemagraphs, fotos que ficam belíssimas no formato de gifs com detalhes sutis em movimento, praticamente como um retrato vivo. A música e a fotografia, mais amaralada no 1º capítulo, mais acinzentada no 2º, cai como uma luva para o tema.

O filme é forte, é drama, e deixa com um nó na garganta difícil de desatar. Deu angústia e medo. Medo de parar de enxergar as cores da vida de repente, ou de enxergar as cores e, mesmo assim, ser punida pelo universo com um desastre repentino, um marido covarde, ou uma pessoa querida que é um peso morto e faz questão de tornar minha vida miserável. Medo do vazio do mundo, que a gente tenta tanto dar um jeito com anti-depressivos, alucinógenos e falsos momentos de êxtase exagerado, mas que por mais que a gente recuse, sempre estará lá.

No final, chorei. I always cry at endings, mas desta vez foi diferente: chorei porque é muito triste aceitar esta falta de propósito em algo que prezo tanto – a vida – e a falta de esperanças para o futuro. A gente luta pra ser mais sustentável, para fazer o bem ao próximo, para marcar nossa existência na história de alguma forma especial. E Lars Von Trier, com este filme, nos diz: Conformem-se. Aqui não há nada, e há muito menos além daqui. Na minha opinião, o diretor foi muito mais feliz neste filme do que em Anticristo, pois foi com Melancolia que ele conseguiu transmitir verdadeiramente o que sentiu durante a depressão pela qual passou (ou, me pergunto: ainda passa, dada a intensidade do filme atual?).

Feeling: é bom, mas não dos melhores de Lars Von Trier. Como todos do diretor, vá a fim de botar a cabeça pra pensar. Se a questão da morte, da psicanálise ou os comportamentos humanos te instigam, você vai adorar. Se não, só passará raiva de Justine e achará o filme ruim.

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Esses amores (Ces amours-là, 2010)

agosto 23, 2011 by

Um, dois, três, quatro, cinco amores. Muitos amores, muitos personagens, muito pouca habilidade em definir um foco.

Por Alessandra Marcondes

Esses Amores é um filme de Claude Lelouch, um diretor que eu particularmente não conheço, mas ouvi falar por aí – ou melhor, li no blog da própria distribuidora do filme, cof cof – que adora misturar vários gêneros em seus filmes. Fato importante, explica muito sobre este filme, e sobre o que vou falar por aqui. Como não conheço a obra de Lelouch, me restrinjo a falar do filme pelo que ele é. E já adianto que o resultado é ruim.

Em cena temos Ilva (Audrey Dana), uma jovem de belos cabelos ruivos que se apaixona facilmente. Vivendo em uma França em plena Segunda Guerra Mundial, consegue se apaixonar por um oficial nazista que quase matou seu pai (!) e, depois, por dois soldados norte-americanos ao mesmo tempo. Fora eles, temos o seu pai, um projetista de cinema interpretado por Dominique Pinon; seu namoradinho francês que se torna rapidamente ex; o advogado que a defende desde o início do filme no tribunal por um crime que só desvendaremos ao final; a judia por quem tal advogado se apaixona no campo de concentração alemão; um casal de músicos que vive cantarolando pelo caminho da moça, não se sabe ao certo por quê. Ufa! O filme tenta dar conta do background de CADA personagem, sem nos poupar ainda de detalhes sobre o contexto histórico, passando lentamente por cenas de guerra e acontecimentos ligados a elas. Ah, misture à receita um monte de referências metalinguísticas ao cinema, e pronto! Temos um filme longo, confuso, e indefinido.

A ‘confusão’ dos fatos não é de todo ruim: faz você se esforçar para amarrar cada ponto da história, mas não deixa nenhum deles soltos – pelo menos eu não percebi. Mas várias cenas poderiam ser facilmente cortadas da história, totalmente desnecessárias, servindo só pra cansar a gente na cadeira. Faltou foco. Faltou norte. Me peguei pensando no que eu iria jantar depois da sessão em alguns momentos.

Isso se deve – e muito – à mistureba de estilos. O filme não sabe se é drama, se é comédia, se é romance ou musical. Não liga. Não dá tempo de sofrer pela brutalidade da guerra, pois logo depois somos levados ao meio de uma roda de dança frenética e feliz entre quem estava sofrendo há minutos atrás. Nem dá para nos apegarmos a uma história de amor ali, já que nossa protagonista cada hora está com alguém e – convenhamos – não parece sofrer nem se importar muito com nenhum deles, pelo menos com este aceleramento dos fatos. E também não é uma ou duas cenas que parecem ter saído de um musical da Broadway que vão tornar o filme uma comédia cheia de purpurina.
Então, lhe pergunto: o que raios é Esses Amores?

No mesmo blog que citei lá em cima, li que a intenção do longa era ser uma ‘síntese’ da carreira do diretor, uma homenagem ao cinema, etc e tal. Pois bem: do mesmo jeito que fiquei magoada com Lars Von Trier, pois ele não tinha o direito de fazer eu engolir guela abaixo o controverso “Anticristo” só porque andava depressivo, acho que esta maçaroca de acontecimentos e gêneros só faz sentido e é legal para o seu criador – e no máximo para a mãe dele, vai saber.

Entre umas 600 cenas, têm umas dez que valem a pena. A atuação de Audrey Dana até que salva, coitada. Mas achei todo o resto bobinho. A menina mal se revolta quando descobre (spoilers!) que os próprios amigos da família mataram seu pai. WTF?! E os clichês? Se apaixonar por um negro e um branco ao mesmo tempo, transformar o negro em bonzinho e o branco em mau e levá-los para a boate “Black & White”. E todos os ‘maus’ se dando mal (o nazista, o boyzinho) e os bonzinhos se dando bem (o advogado, o ex-namoradinho), e a ceninha forçada da música de ‘amor’ improvisada do final… Não acreditei em nada daquilo, não mexeu com meus sentimentos, não serviu pra muita coisa. Tipo comédia romântica de Hollywood, sabe? Um filme fácil, com final fácil, e também fácil de esquecer.

Feeling: vá sem esperar grande coisa. A história é ok, mas bobinha, e tem que ter saco pros vários vai-e-vem entre personagens e tempos diferentes. Vá se não tiver nada melhor passando, ou se as outras salas estiverem esgotadas – que foi o meu caso.

PS: fui na pré-estréia, o filme só entra oficialmente em cartaz no dia 26 de agosto.

O Discurso do Rei (King’s Speech, 2010)

fevereiro 24, 2011 by

Por Bruno Pongas

Albert Frederick Arthur George, ou George VI, ou simplesmente rei gago. Integrou a escola naval britânica, foi Duque de York – título de nobreza geralmente atribuído ao segundo filho do monarca reinante – e finalmente, em 1936, rei do Reino Unido, substituindo Eduardo VIII, que abdicou do trono por motivos pessoais – ele casaria com uma mulher duplamente divorciada, o que era proibido na época.

George VI foi coroado às vésperas da II Guerra Mundial. Na vizinha Alemanha, Adolf Hitler vinha ganhando cada vez mais poder apoiado na ideologia nazista. É nesse cenário que temos o filme O Discurso do Rei, de Tom Hooper. Apesar do período retratado, em nenhum momento vemos armas, combates ou coisas do tipo. O enredo se foca nos problemas pessoais de George VI, sobretudo sua gagueira, que o impedia de falar em público.

Num panorama geral, temos um roteiro bem simples, mas eficiente. Ponto para o roteirista David Seidler, que conseguiu contar a história de George VI sem nós. Seidler também leva o mérito por construir ótimos diálogos, alguns deles divertidíssimos. O mérito maior, no entanto, é mesmo de Tom Hooper, que soube dosar como poucos o humor e a ternura de seu filme. Podemos dizer que O Discurso do Rei é uma obra correta, sem exageros e paradoxal, pois mescla a pompa da monarquia britânica com uma história simplista, quase que escondida num cantinho qualquer da Inglaterra.

Hooper também merece elogios por conseguir extrair o máximo de seus comandados. Colin Firth está magnífico e só uma grande zebra será capaz de roubar sua estatueta de melhor ator. O mesmo vale para Geoffrey Rush, menos brilhante, mas ainda assim muito bem no papel do “médico” Lionel Logue – responsável pelo tratamento de George VI. O destaque negativo fica por conta de Helena Bonham Carter. Embora seja uma das minhas atrizes prediletas, em O Discurso do Rei ela está um pouco apagada, retratada sempre como esposa excessivamente compreensiva. Talvez seja a falta de costume, pois estamos habituados com a Helena Bonham Carter de Clube da Luta, Sweeney Todd e mais recentemente Harry Potter e Alice no País das Maravilhas.

Ainda sobre a história, gostaria de tecer alguns comentários sobre o clímax da obra, o qual achei especialmente emocionante. Talvez tenha faltado uma dose extra de sentimento, mas confesso que o discurso perfeito de George VI, comunicando o início da II Guerra Mundial ao povo britânico, me atingiu em cheio. Tom Hooper evitou cair nos clichês do gênero, talvez por isso tenha sido direto, novamente simples. É o tipo de coisa que agrada alguns, desagrada outros… eu gostei! No mais, destacaria o figurino caprichado, praxe nos filmes de época, e a boa trilha sonora do compositor francês Alexandre Desplat. Ambos (figurino e trilha sonora) concorrem ao Oscar em suas respectivas categorias.

Por fim, outro ponto positivo do longa foi mostrar de forma detalhada o desenvolvimento do laço afetivo entre o rei, aparentemente intocável, e um britânico qualquer. George VI se identificou com Lionel Logue justamente porque ele o tratava de igual pra igual – como todos os outros pacientes. Numa época em que parte dos relacionamentos eram construídos por interesse, a figura de uma pessoa comum despertou um sentimento praticamente inédito na autoridade máxima da monarquia britânica: a amizade. Por essas e por outras, O Discurso do Rei é muito mais do que um filme sobre um homem que superou suas dificuldades. Vai bem além disso; trata de amizade, amor, perseverança e sobretudo valores.

Cisne Negro (Black Swan, 2010)

fevereiro 18, 2011 by

Por Bruno Pongas

Fiquei muito empolgado quando soube da nova empreitada do nova-iorquino Darren Aronofsky. Sua grande carreira, apesar de curta, me animou bastante para esse Cisne Negro, ainda mais depois do excelente O Lutador. Antes de checar o longa nas telonas, no entanto, me deparei com algumas (poucas) críticas que batiam na mesma tecla: falta de originalidade.

De fato, Cisne Negro passa longe de ser original, experimental, ou qualquer coisa que o valha. Sobre isso, deixo aqui uma pergunta para quem se interessar em responder: o que é original nos dias de hoje? Bem, posso citar dois exemplos de filmes que assisti recentemente. Scott Pilgrim Contra o Mundo, de Edgar Wright, traz o universo dos quadrinhos para o cinema de uma forma nunca antes vista. Carregado de referências modernas, temos aqui um bom exemplar de originalidade. Obra-prima? Longe disso…

O segundo vem lá de longe, da Tailândia. Tio Boonmee, que Pode Recordar Suas Vidas Passadas, do experimental e premiado Apichatpong Weerasethakul, tem suas qualidades. A história é interessante, profunda, mas a trama é arrastada, regionalista. É um daqueles filmes, assim como Anticristo, de Lars Von Trier, que pede uma segunda leitura. O experimentalismo de Apichatpong tem seus pontos positivos, mas classificá-lo como magnífico é um tanto quanto exagerado.

Onde eu quero chegar com isso? É simples: nem tudo que é original é bom. É claro que filmes experimentais devem ser olhados com carinho e respeito, pois inovar é difícil, algo realmente para poucos – e bons. Contudo, vivemos num mundo, como eu disse, onde inovar é raridade. Faltam cabeças pensantes? Eu penso de outra forma. Os anos passam, muitos filmes chegam aos cinemas e as fórmulas cinematográficas, aos poucos, se esgotam. Se esgotam por quê? Porque já foram utilizadas por outro, que chupinhou a fórmula de outro, que se inspirou em outro e assim por diante.

Darren Aronofsky ao menos segue fiel às suas características. Em Cisne Negro, vemos muito do que foi visto em O Lutador. É claro que temos temáticas completamente distintas, mas o estilo do diretor é bem semelhante. Deixemos de lado a preferência por dramas familiares, mas falemos da câmera que segue a bailarina Nina (Natalie Portman) durante todo o longa. A câmera por detrás da personagem é a mesma que perseguiu Randy Robinson (Mickey Rourke) há pouco mais de dois anos.

Em Cisne Negro, todavia, o significado disso é mais representativo. Nina, deslumbrada com a chance de protagonizar o clássico O Lago dos Cisnes, começa a ficar paranóica com a presença de Lily (Mila Kunis), bailarina recém-chegada de San Francisco e a quem julga querer roubar seu posto no aclamado espetáculo. O que era pra ser um marco em sua carreira se transforma num pesadelo sem fim. Nina é perseguida em casa pelo protecionismo exacerbado de sua mae e na academia de balé pelo professor perfeccionista, sem falar da veterana Beth (Winona Ryder), que também bota suas manguinhas de fora com o passar da fita.

O suspense psicológico de Aronofsky nos fisga de maneira irresistível, especialmente nos 30 minutos finais – uma verdadeira sequência de tirar o fôlego. A alucinada Nina, outrora frágil e ingênua, mostra aos poucos que é capaz de tudo para se manter no papel principal do espetáculo. Ao espectador, resta a dúvida: o que é delírio e o que é real? A viagem pela demência da personagem de Natalie Portman é divertida e assustadora, nos envolve com a quebra de preconceitos e encanta de forma macabra no ato derradeiro do cisne negro.

Falando nela, Portman está nada menos do que brilhante, muito bem apoiada pelos coadjuvantes Vincent Cassel, Mila Kunis, Winona Ryder e Barbara Hershey. Com um elenco recheado de estrelas e uma trilha sonora mais do que adequada, Darren Aronofsky faz de Cisne Negro (mais) uma obra-prima em sua carreira.

Bravura Indômita (True Grit, 2010)

fevereiro 17, 2011 by

Por Bruno Pongas

Bravura Indômita é o que podemos chamar de “velho oeste moderno”. Os personagens, claro, seguem a linha durona, maltrapilha e mal humorada que caracteriza os filmes do gênero. Por trás disso, no entanto, há uma carga de sentimentalismo bem maior, diferente de obras clássicas, como Três Homens em Conflito, por exemplo.

É claro que Bravura Indômita contém todos os ingredientes do estilo faroeste, a começar pelos diálogos muito bem construídos e pelo humor refinado, passando pela bela fotografia e pela violência explícita, essência do gênero Western. A diferença aqui está na abordagem da obra, que pode até pecar no quesito originalidade, mas que ainda assim é bem interessante.

A história é focada na saga da jovem Mattie Ross (Hailee Steinfeld), garota de apenas 14 anos que viu seu pai ser assassinado pelo covarde Tom Chaney (Josh Brolin). Em busca de vingança, Ross contrata o destemido e cruel Rooster Cogburn (Jeff Bridges), uma espécie de caçador de recompensas da lei. É a partir desta premissa que a história se desenvolve.

Ross, apesar de jovem e aparentemente delicada, faz o estilo linha dura. Sem chegar aos pés do troglodita Cogburn, é verdade, mas sempre com a língua afiada e com respostas de deixar qualquer um de queixo caído. É claro que uma menina de 14 anos no papel principal de um filme de velho oeste dá outro tom à trama. Ross, mesmo sendo firme, tem seu lado “garotinha indefesa” bem explícito. Sua coragem é admirável, mas por trás dessa bravura toda há um ser humano bem frágil.

Cogburn, por outro lado, é um matador sem escrúpulos, temido por todos. Nem precisamos dizer que ele criará um laço paternal bem particular com a pequena Ross. E é exatamente aqui que o longa peca na originalidade. Isso, ao meu ver, passa longe de ser um defeito. É, ao contrário, interessante observar as mudanças de comportamento dos personagens, tratadas de forma sutil e bem humorada.

Falando em bom humor, Ethan e Joel Coen nos brindam com mais um trabalho recheado de qualidades. Como já citei acima, destaco em Bravura Indômita, sobretudo, os diálogos de primeira, inteligentes e permeados por um humor sutil, ligeiramente negro. A violência, mais contida que em No Country For Old Man, também se destaca e dá cor a um punhado de cenas. Vale ressaltar também a belíssima fotografia, que intercala o sol escaldante do deserto norte-americano com as nevascas do rigoroso inverno ianque.

Para finalizar, é impossível falar de Bravura Indômita sem citar o elenco inspiradíssimo. Jeff Bridges está novamente sensacional. Depois de ganhar a estatueta no último ano pelo papel em Crazy Heart, ele nos traz um Rooster Cogburn caricato, divertido e com um sotaque típico brilhante – coisa para poucos. Bridges deverá brigar novamente pelo Oscar, mas dessa vez o favorito é Colin Firth, de O Discurso do Rei. Quem também tem chances de levar o prêmio para casa é Hailee Steinfeld, que concorre ao Oscar de Melhor Atriz Coadjuvante. Matt Damon, o Texas Ranger LaBoeuf, Josh Brolin, o malvado Tom Chaney, e Barry Pepper, o feioso Lucky Ned Pepper, também aparecem bem, mas foram deixados de lado pela Academia.

No final das contas, Bravura Indômita é um filmaço, mais um para a conta de Ethan e Joel Coen, que correm por fora na busca de seu segundo Oscar.

Inverno da Alma (Winter’s Bone, 2010)

janeiro 29, 2011 by

Por Alessandra Marcondes

O filme me marcou tanto que me senti no dever de voltar a este blog após um hiato de um ano sem escrever sobre cinema. Daí, já conclua: é magnífico, um drama intenso que merece (e muito!) as quatro indicações ao Oscar que recebeu: melhor filme, roteiro adaptado, atriz e ator coadjuvante. Ainda mais mostrando uma vertente não muito valorizada por Hollywood, de um Estados Unidos ‘caipira’, onde miséria e drogas encontram lugar, e com um orçamento tão reduzido: apenas US$2 milhões foram investidos no longa. Para comparar, Preciosa e Guerra ao Terror, os filmes ‘baratinhos’ do Oscar do ano passado, contaram com US$10 e US$11 milhões, respectivamente.

Ree Dolly (Jennifer Lawrence) é uma menina de 17 anos que tem dois irmãos pequenos e uma mãe doente para cuidar. Como se já não fosse difícil o bastante, seu pai, um dos traficantes de drogas da região, sai da cadeia sob fiança e dá como garantia a casa da família. Se ele não comparecer ao tribunal para prestar depoimento, a família, já miserável, perde a casa. A partir daí, vemos uma adolescente obrigada a amadurecer antes do tempo com uma responsabilidade do tamanho do mundo nas costas, tentando encontrar o pai a qualquer preço, e lidando com pessoas e situações que muito homem formado preferiria evitar. Como pano de fundo, uma região provinciana onde é papel dos homens cuidar dos assuntos da família, o que fica explícito no momento em que perguntam a Ree: “você não tem nenhum homem para cuidar disto não?”. E ela continua tão durona, indo cada vez mais a fundo em assuntos obscuros, lidando com traficantes da pesada, sem estremecer. A menina de cabelos loiros não tem tempo para ser adolescente, para dar um sorriso sequer. Destaque para a atuação de peso de Jennifer Lawrence, que (de fato adolescente na época das filmagens) transmite sobriedade e um desespero contido, do jeitinho que tinha que ser. É uma lição de vida e de superação, e inevitavelmente sacode a gente em nossas vidas confortáveis e faz pensar. É uma luta pela sobrevivência tão sofrida de quem não tem mais o que perder… É o tipo de história que não faz chorar em um final trágico, mas sim em tantos momentos de dor e sofrimento presentes na trama. A sensação de abandono e solidão são desesperadoras, e deixam um nó na garganta dos mais sensíveis até o último dos 100 minutos de filme.

Com o cenário dos Montes Ozarck de fundo, Inverno da Alma é um filme frio, de cores gélidas e cenas silenciosas,  melancólicas. A fotografia é belíssima, e mesmo sem nem uma cena de ação bombástica, sentimos a tensão em cada passo que Lawrence dá colina acima, colina abaixo. Não descansei na poltrona do cinema durante um instante sequer, pois o filme não apela para cenas sanguinolentas, mas o perigo é palpável. Mesmo quando a menina leva uma surra, a violência é muito mais psicológica do que explícita, e tudo é tão… sutil. E falando em sutil, a história se desenrola muito bem, deixando por conta do espectador desvendar com atenção cada mistério. Fica bem claro que o pai da família não é nada do bem, e até mesmo seu irmão, tio da menina, se recusa a ajudá-la de início. Por isso, demora-se a entender que {spoiler! o pai não sumiu de propósito, e sim foi assassinado por “migrar” para o lado bom da força, topando testemunhar e entregar comparsas do crime ao xerife da região}. É como se assumíssemos a pele dela e soubéssemos o mesmo tanto que ela, o que colabora para nos envolvermos ainda mais com a personagem.

Mais um ponto positivo é que o filme conta a realidade ‘caipira’ dos Estados Unidos, tão ‘distante’ e propositalmente esquecida, mas sem estranhamento nem preconceitos. Ali são retratadas particularidades provincianas, como a tradição familiar e o peso de um sobrenome, muito bem embaladas por uma trilha sonora meio folk, meio country (me perdoem se a classificação não está correta, pois não entendo muito do gênero) que se encaixa com perfeição. Para ser o mais fiel possível à realidade, a diretora Debra Granik viajou diversas vezes para entrevistar moradores de comunidades rurais do Missouri sobre seu modo de viver, suas dificuldades e sua relação com o mundo. Muitos locais tiveram participação ativa no filme, inclusive as duas gracinhas que interpretam os irmãos de Ree (Isaiah Stone e Ashlee Thompson) e a senhora que aparece cantando em uma roda de country esta música aqui (o nome dela é Marideth Sisco, e também aparece neste vídeo aqui) .

Não há melhor forma de contar uma história do que ouvi-la primeiro, e por isso Granik se destaca entre tantos diretores de ‘cinema fácil’ hollywoodiano. Ela fez questão de ouvir a história de quem não costuma ter voz, e contá-la para aqueles que nem sempre estão dispostos a ouvi-la. E é isso o que torna tão excepcional esta produção independente que, mesmo sendo redondinha, não vai ganhar o Oscar, mas tem todo o mérito por ter chegado até lá.

Way down in Missouri where I heard this melody
When I was a little fellow on my mommie’s knee
The old folks were humming the banjos were strumming so sweet and low

Guerra ao Terror (The Hurt Locker, 2008)

janeiro 5, 2011 by

Por Bruno Pongas

O nome Guerra ao Terror sugere muitos tiros, pouco conteúdo e uma ideologia rasa. Num cenário hipotético, podemos imaginar os norte-americanos transbordando bondade, como sempre, e qualquer país do Oriente Médio sendo massacrado por nada.

Culpa disso, claro, é de quem traduziu The Hurt Locker para Guerra ao Terror. Em inglês, Hurt Locker significa um período de grande sofrimento e angústia, sentimentos esses retratados no filme com primor. Em português, no entanto, o título perde todo seu significado literal, o que é lamentável.

Erros à parte, Guerra ao Terror traz à tona um tema interessante, pouco explorado entre o gênero. Kathryn Bigelow, diretora, e Mark Boal, roteirista, nos colocam diante de duas personalidades distintas: JT Sanborn e William James. Ambos cumprem seus últimos dias na guerra norte-americana contra o Iraque. Enquanto Sanborn está enfadado e só pensa em voltar pra casa, James é o que podemos chamar de viciado. Sim, trata-se de um viciado em guerra.

Essa pequena história pode significar pouco para alguns, mas a meu ver levanta um debate bem interessante: até que ponto a guerra vicia? Quem está no Exército, sobretudo num país como os Estados Unidos, tem que estar preparado a qualquer momento. Isso requer a ruptura quase que total dos laços afetivos. Aos poucos, deixa-se de formar um ser humano para se criar uma máquina de guerra, pronta para matar sem piedade.

O maior interesse aqui passa a ser do Estado, cegamente viciado em poder. As guerras, além de poder, rendem dinheiro através da indústria bélica e alimentam o ódio do ser humano, sentimento que se torna o principal combustível das já citadas máquinas. Percebemos, assim, que se forma um ciclo quase que inquebrável.

Talvez seja esse o maior trunfo de Kathryn Bigelow, que conseguiu profundidade num tema que geralmente é mal explorado. Além do viés ideológico, Guerra ao Terror também se destaca em outros aspectos. Tecnicamente o filme é perfeito. A diretora consegue impor à trama um ritmo acelerado e extremamente tenso. É praticamente impossível perder o foco ou deixar de torcer pelos protagonistas.

Falando neles, Anthony Mackie e Jeremy Renner fazem um trabalho de primeira. Renner, o viciado Sargento William James, fez por merecer a lembrança da Academia na categoria “Melhor Ator”. Destaque também para o menos conhecido Brian Geraghty, que talvez merecesse ser indicado como “Melhor Ator Coadjuvante”.

Guerra ao Terror é o melhor filme de guerra da última década. Seria pretensioso da minha parte compará-lo a clássicos do gênero, como Apocalipse Now e Platoon, mas tenho certeza que estamos diante de um dos clássicos do futuro.

Três Homens em Conflito (Il Buono, Il Brutto, Il Cattivo, 1966)

janeiro 2, 2011 by

Por Bruno Pongas

O gênero Western possui um público restrito. Paisagens desertas, personagens caricatos, tiros, mortes, trapaças. É um verdadeiro prato cheio de testosterona. Embora seja um estilo rejeitado por muitos, temos que tirar o chapéu para algumas obras, como Três Homens em Conflito, do italiano Sergio Leone. O fato é que poucos sabem filmar um “bangue-bangue” como Leone, justamente reconhecido como o mestre do faroeste.

Em Três Homens em Conflito, temos ingredientes de sobra para uma boa trama. Leone, que aqui nos brinda com um trabalho magnífico, esbanja paciência na hora de contar sua história, tanto que o primeiro diálogo da fita demora quase dez minutos para dar as caras.

Somos, aos poucos, apresentados aos personagens. Apesar das alcunhas de Bom, Mau e Feio, nenhum dos três é flor que se cheire, nem mesmo Blondie, o Bom, interpretado aqui por um jovem e quase irreconhecível Clint Eastwood.

Eastwood, aliás, dá vida a um dos personagens mais legais da história do cinema. É impossível torcer contra o Bom, mesmo ele sendo um trapaceiro de primeira. Blondie é aquele clássico anti-herói. É o mau caráter do bem, se é que podemos chamá-lo assim. Por mais que sua conduta seja moralmente incorreta, fica difícil resistir ao seu carisma.

Lee Van Cleef, o Mau, e Eli Wallach, o Feio, também entregam ótimos papéis. Enquanto o primeiro transborda frieza e antipatia, o segundo é o alívio cômico da trama. Cleef, que na história recebe o nome de Angel Eyes, é o que menos aparece durante os 161 minutos. No entanto, só a cena em que ele é apresentado já seria o bastante, pois é, de longe, uma das melhores do filme. Wallach, por sua vez, atende pelo nome de Tuco e é caracterizado por um punhado de frases de efeito, como na passagem em que está tomando banho numa banheira e recebe uma visita inesperada: “Quando tiver que atirar, atire, não fale!”

Por fim, é impossível falar de Três Homens em Conflito sem rasgar elogios ao seu desfecho. A cena em que os três apontam suas armas um para o outro é tensa e parece interminável. Os cortes, aqui, aparecem na medida certa. O enquadramento perfeito mostra a agonia e o suor escorrendo frio pelo rosto dos pistoleiros. Antes de os créditos subirem, ainda sobra tempo para a melhor frase do longa: “Existem dois tipos de homens no mundo: os que têm uma arma e os que cavam. Você cava!”.

O excelente roteiro, que conta com reviravoltas na medida certa, aliado ao desempenho fantástico de seus atores, faz de Três Homens em Conflito uma obra-prima. É um filme que deve ser apreciado por qualquer um, pois transcende as barreiras estereotipadas do gênero Western. Sergio Leone consegue como ninguém derrubar esse muro de estereótipos. Para isso, seus aliados aparecem das mais variadas formas, mas os principais deles têm um quê característico: os diálogos, oriundos do bom roteiro de Luciano Vincenzoni e do próprio Leone, e a estupenda trilha sonora, do compositor romano Ennio Morricone – um verdadeiro show à parte.

Minha Nota: 10,0

Harry Potter e as Relíquias da Morte: Parte I (Harry Potter and The Deathly Hallows: Part 1, 2010)

dezembro 3, 2010 by

Por Bruno Pongas

Harry Potter perdeu toda a magia de Hogwarts e também sua infantilidade. A tradicional escola de bruxos sequer aparece no sétimo filme da franquia. As mágicas, no entanto, continuam lá, mais sombrias do que nunca, seguindo a linha de Harry Potter e o Enigma do Príncipe.

O fato é que Harry Potter deixou de ser um filme para crianças e adolescentes e se tornou uma obra para gente grande. Jovens atores, como Daniel Radcliffe, Emma Watson e Rupert Grint, cresceram e agora atuam como adultos.

Adultos esses que enriquecem e muito a trama. David Thewlis, Timothy Spall, Ralph Fiennes, Jason Isaacs, Imelda Staunton e, sobretudo, Helena Bonham Carter e Alan Rickman, colorem o filme de maneira especial. Cada um encanta à sua maneira. O sadismo de Bellatrix Lestrange é incomparável, assim como a frieza de Severus Snape e o medo de Lucius Malfoy.

A trama sombria ainda dá espaço para momentos lúdicos, como a dança de Harry e Hermione, e tristes, como a morte do elfo Dobby – de longe uma das cenas mais bonitas da série. Em meio a tristezas e alegrias, destaque para os cenários e paisagens caprichados. Belos rios, montanhas, florestas – um show à parte.

O roteiro de Steve Kloves é um dos pontos fortes do longa. Kloves vai muito bem ao adaptar apenas metade do sétimo livro. Ele é fiel à obra original na medida do possível e corrige alguns erros do filme anterior, como a falta de momentos tensos, por exemplo. Aqui, temos suspense de sobra e até alguns sustos que podem pegar desprevenidos os espectadores menos avisados.

Steve Kloves também soube dar um ponto final à trama na hora certa. É claro que fica aquele gostinho de “quero mais”, mas o momento escolhido para encerrar o filme foi perfeito. Além disso, ele acertou ao evitar introduzir a história para aqueles que nunca assistiram Harry Potter antes. No auge do sétimo capítulo, era de se esperar que todos já conhecessem o mínimo sobre o bruxo mais famoso dos cinemas.

Como toda película, Harry Potter e as Relíquias da Morte: Parte 1 também tem seus defeitos, ambos na parte de relacionamentos. No livro, nunca ficou em aberto um suposto clima entre Harry e Hermione, algo descaradamente explícito no filme. Esperava também que Gina Weasley ganhasse um pouco mais de destaque, já que foi bastante explorada durante o Enigma do Príncipe.

Defeitos à parte, Harry Potter e as Relíquias da Morte: Parte 1 é muito eficiente em sua proposta: entreter e deixar o espectador ansioso para o capítulo final da saga, que chegará às telonas cercado de expectativas. Uma pena que a segunda metade demore tanto tempo para entrar em cartaz. A data de lançamento está marcada para julho de 2011.

Minha Nota: 9,0

The Runaways – Garotas do Rock (The Runaways, 2010)

outubro 25, 2010 by

Por Bruno Pongas

The Runaways passa longe de ser o melhor filme já feito sobre rock, tampouco se trata de um registro documental sobre a história da banda de mesmo nome. A trama é baseada na trajetória do grupo, que surgiu na década de 1970 em busca de espaço num cenário amplamente dominado por homens. Detalhe: o quinteto era formado apenas por garotas.

Entre erros e acertos, o resultado final da obra é bom. A diretora Floria Sigismondi conseguiu um bom trabalho em sua essência: transmitir o espírito rebelde e desafiador daquela época, retratado especialmente pelo produtor Kim Fowley, aqui brilhantemente interpretado por Michael Shannon, que sabia que o grupo só chegaria aonde chegou se transpassasse violência e sexualidade.

As Runaways (Fugitivas, em português) duraram cinco anos (1975-1979). Nesse período, lançaram quatro CDs: The Runaways (1976), Queens of Noise (1977), Waitin` for the Night (1977) e And Now… The Runaways (1978).

Seus maiores expoentes foram Cherie Currie, a temperamental vocalista, e Joan Jett. Vale recordar, no entanto, da bela Lita Ford, que construiu uma carreira de grande sucesso pós-Runaways, tendo inclusive um dueto com Ozzy Ousbourne em If I Close my Eyes Forever.

E é justamente aqui que está um dos grandes erros do roteiro. Ford foi simplesmente deixada de lado. Tudo bem a história ser focada em Currie e Jett, mas a guitarrista deveria ter sido lembrada com mais carinho. Para piorar, ela ainda passa uma imagem de chata – e quem nunca ouviu a banda certamente irá concordar.

Outro erro do roteiro é apressar demais os acontecimentos. A fita tem menos de duas horas, poderia ter sido melhor trabalhada. Aqui, o espectador fica perdido em meio aos fatos. Tudo é muito mal explicado, desde o relacionamento adolescente entre Joan Jett e Cherie Currie até os motivos que causaram a ruptura do grupo.

Apesar dos defeitos, as qualidades me mantiveram ligado durante os 105 minutos. O que mais me animou foi o desempenho de Kristen Stewart (a chatinha Bella Swan, de Crepúsculo) e Dakota Fanning, que aos 16 anos está crescendo muito como atriz.

Kristen se destaca no papel da carrancuda Joan Jett. É um personagem complexo, completamente distinto da enjoada Bella Swan. Jett tem personalidade forte, é uma líder nata. Isso a atriz transmite ao espectador muito bem. O mesmo vale para Dakota Fanning, que dá vida à instável Cherie Currie.

O ponto forte, no entanto, é a trilha sonora, que embala perfeitamente a história das garotas rebeldes. Aqui, temos muito mais do que apenas The Runaways. O espectador tem a chance de ouvir clássicos do rock como I Wanna Be Your Dog (The Stooges), Rebel Rebel (David Bowie) e Pretty Vacant (Sex Pistols).

The Runaways – Garotas do Rock é um filme para quem já conhece a banda ou simplesmente é apreciador de Rock and Roll. Quem não se encaixa em nenhum desses perfis pode ficar em casa e economizar seu dinheiro, porque o resultado final pode ser uma legítima bomba.

Minha Nota: 7.5