Archive for the ‘Romance’ Category

O último dançarino de Mao (Mao’s Last Dancer, 2009)

janeiro 12, 2012

Por Alessandra Marcondes

Quando assistimos um filme baseado em um livro que já lemos, nossa impressão é sempre diferente de alguém que desconhece a história. Ou odiamos, porque o filme não conseguiu se manter fiel aos objetivos do livro, ou amamos, porque ele conseguiu transpor para a tela tudo o que imaginamos quando folheamos suas páginas. Eu li Adeus China: O último bailarino de Mao, e adorei. E adorei o filme também, porque poucas vezes tive a sorte de assistir a um longa tão fiel ao livro que lhe deu origem.

O filme traz a história de Li Cunxin, um bailarino chinês que foi recrutado aos 11 anos de idade para fazer parte da Academia de dança de Madame Mao, na época em que a China passava pela Revolução Cultural de Mao Tsé-Tung. Devido a uma visita do presidente dos EUA Richard Nixon à China, as relações dos dois países se estreitaram e, por isso, foi possível um maior intercâmbio entre eles, inclusive de artistas. Li Cunxin, já crescido, foi quem chamou atenção de Ben Stevenson, diretor do balé de Houston em visita à China. Foi convidado a passar uma temporada no Texas dançando com a sua companhia, acontecimento que mudaria sua vida para sempre.

Li muitas críticas dizendo que a história de Adeus China é um clichê, afinal, nada mais óbvio do que um camponês pobre que sai de uma província chinesa minúscula perto de Qingdao e acaba tirando a sorte grande de cair em uma cidade capitalista, cheia de riquezas, e se deslumbra com isso tudo. O que muita gente esquece, porém, é que se trata de uma história real. O livro é uma auto-biografia, escrita pelo próprio Li Cunxin, e ele mesmo descreve como ficou pasmo quando se deparou com os arranha-céus e uma ‘máquina que cuspia dinheiro’ (caixa-eletrônico), e o sentimento de angústia que tinha ao ver Ben gastando em um dia uma quantia muito além da que seu pai demorava um ano para conquistar nos campos da China.

Também tendemos a esquecer que a China de Mao Tsé-Tung era diferente da China de hoje. Extremamente fechada, às crianças só era permitido estudar o Livro Vermelho de Mao na escola, e a ideologia do regime comunista fazia uma verdadeira lavagem cerebral, levando todos a acreditarem que os norte-americanos e demais povos de países capitalistas viviam na extrema miséria. Óbvio que, para tornar o choque cultural ainda maior, Li Cunxin foi parar em uma companhia de balé, e teve contato com pessoas de classes muito mais altas do que estava acostumado.

O filme é uma bonita história de superação, dirigido com delicadeza e sensibilidade. Pude notar em cada cena elementos explorados no livro, como o papel de parede de jornal da sua casa em Qingdao, seu relacionamento problemático com Elizabeth, e o diálogo em uma danceteria em que ele fica assustadíssimo quando percebe que um norte-americano está falando mal do presidente em voz alta, sem medo de repreensões. Faz, sim, parecer que os Estados Unidos são a terra maravilhosa da liberdade, mas talvez para aquele recém-chegado da China comunista, realmente fosse.

Destaque para a música, os cenários e o figurino, impecáveis. Chi Cao, que interpretou Li Cunxin na fase adulta, também tem seu mérito no sucesso do longa: novato nas telas, ele conseguiu transmitir tudo o que eu esperava do personagem – sem contar as belíssimas cenas de balé, filmadas pelo próprio. Vale lembrar que Chi Cao é formado na Academia de Balé de Pequim e foi selecionado pelo próprio autor porque é filho de dois professores de Li Cunxin na época em que ele dançava na China.

O último dançarino de Mao equilibra perfeitamente a política com o romance, a dança com o pesar dramático, e traz um final fantástico, digno de filmão. Segure as lágrimas para não chorar.

Feeling: história de vida. Vá de cabeça aberta e lembre-se que nem tudo que parece clichê necessariamente o é, e se deixe levar pela música linda, pelo personagem fantástico, e pela história surpreendente. Deixe-se emocionar.

Johnny & June (Walk the Line, 2005)

agosto 26, 2011

Johnny canta para os presidiários da Folsom Prison, prisão na Califórnia que inspirou a música Folsom Prison Blues. O show resultou em um CD ao vivo

Por Alessandra Marcondes

Importante dizer que esta resenha foi escrita por uma pessoa que nada sabia sobre Johnny Cash ou June Carter, e não havia ouvido uma música sequer deles antes do filme.

A história de um garoto vindo de uma família pobre do Arkansas, que por causa de um talento nato, vira uma sensação da música nos Estados Unidos e acaba se envolvendo com drogas e tendo diversos problemas decorrentes do vício. Esta história lhe soa familiar?

Como li em na crítica do Andy Malafaya do Cineplayers, a história seria um imenso clichê, se não fosse baseado em uma figura real. O filme é um recorte da vida de Johnny Cash – por mais que a tradução do título para o português sugira que tratará por igual de Johnny e June – desde a sua infância, em um campo de algodão do Arkansas, até o casamento com June Carter. De recheio, temos passagens de sua vida pessoal ao lado da primeira mulher, Vivian Liberto, das turnês ao lado de figurões como Elvis Presley, Johnny Lee Lewis e Carl Perkins, dos problemas decorrentes das anfetaminas que tomava, e muitas, mas muitas canções country deliciosas tiradas de diversos álbuns do cantor.

Confesso que nunca tinha ouvido falar (don’t kill me, please!) de Johnny Cash, mas o filme me aguçou a curiosidade pela forma como termina, pelas músicas deliciosas, e fui atrás de mais informações sobre sua história. Foi aí que eu comecei a achar o filme não mais tão legal. Ele serve como um belo ponto de partida para quem não conhece a história deste cantor e compositor magnífico, mas ignora ao menos os 30 anos finais de sua trajetória, que são mais interessantes do que eu imaginava. Óbvio que não dá para abraçar o mundo, mas acho que o filme se perde um pouco repetindo muitas e muitas vezes cenas em que o cantor esteve perdido, afundando-se nas drogas, implorando que June ficasse com ele, etc. Também convenhamos que a música rouba preciosos minutos que dariam para contar uma história completa, mas ela é essencial para dar o tom do filme, então não reclamo. Minha maior reclamação é pela falta de profundidade e de emoção. A direção foi meio fraquinha, e não faz com que o espectador se envolva tanto com Johnny Cash, que foi é uma figura tão interessante.

A qualidade do filme está nas atuações de Joaquin Phoenix (no papel de Johnny) e Reese Witherspoon (no papel de June). Ele tem o carisma e a presença de um astro adorado de antigamente, mas também sabe ser grave,  sério e paranóico nas cenas mais fortes. Ela dá a leveza à trama, é a presença feminina que transforma a história em um belo romance. Vale lembrar que foram os próprios atores que interpretaram as músicas de Johnny Cash e June Carter para compor a trilha sonora do filme. Eu, particularmente, adoro quando isto acontece. Mostra um comprometimento, um mergulho de corpo e alma no personagem, que não é fácil de fazer.

Johnny & June é uma viagem no tempo, que nos leva pela música e pelos comportamentos comuns a uma época que eu não vivi, mas sempre ouço falar. Uma época que fazia com que uma cantora famosa, linda e até “certinha” como June Carter se importar com o julgamento de uma dona de casa qualquer em um supermercado, só por causa da sua separação conjugal, e o peso da fama em seus ombros ao ponto de pedir desculpas por ter decepcionado a mulher em questão. Achei esta uma das cenas mais bonitas do filme, pois mostra a atitude de verdadeiros ídolos que reconhecem a ‘responsabilidade’ que traz a fama, algo tão raro hoje em dia nos rockstars. A cena me lembrou uma história que um dia ouvi na MTV sobre Janis Joplin, que depois de ficar mundialmente famosa retornou à sua cidade natal, uma cidade pequena e moralista do Texas, achando que todos reconheceriam seu mérito como grande cantora. Muito pelo contrário, por lá ela continuava sendo a mesma esquisitona rebelde de sempre. E isso a afetou, mesmo sendo uma cantora tão magnífica, talentosa e famosa para o restante do mundo. Talvez não desse para deixar para lá.

Enfim, uma época em que era comum a figura da boa esposa dos anos 50, cozinhando enquanto espera o marido em casa, incorporada por Ginnifer Goodwin no papel da primeira esposa de Cash. A existência de um pai rigoroso, que gosta mais do filho que rende mais no trabalho do campo – interpretado muito bem por Robert Patrick, que nós mesmos acabamos odiando por tanta amargura e frieza com o filho. Aqui, faço uma pausa: desconfio que o filme tenha exagerado um pouco na dose da amargura do pai – afinal, todo protagonista problemático precisa de um vilão para culpar – por causa da entrevista que Johnny Cash deu à revista Rolling Stone em 1973. Destaco dois trechos:

Robert Hilburn: Além de ouvir música, você teve de trabalhar duro na fazenda quando era criança. Aquilo foi uma parte importante na sua formação?
Johnny Cash: Trabalho duro? Eu não sei. Cortar e colher algodão é complicado. Não sei o quão bom isso foi pra mim. Não sei o quão difícil isso é para alguém.  

Hilburn: Você cantava as músicas para sua família? Qual era a reação?
Cash: Oh, bem, você sabe como são os familiares. Meu pai me dava um tapinha na cabeça, dizendo que era tudo muito bom, mas “é melhor você começar a pensar em algo que vai te dar sustento algum dia”.  Minha mãe era 100% favorável à minha música […]*

Ou seja, percebo aí uma mãe mais amorosa do que o pai, mas nada que represente o crápula que é mostrado pelo filme. E uma infância dura, mas não tão difícil ao ponto de ter feito muita diferença no caminho que Cash percorreu depois de ter saído dos campos. Para mim fica claro que, mais do que a infância árdua, a perda de seu irmão é que foi sim, definitiva para a trajetória de Cash. Talvez eu esteja enganada e, em 1973, de um Johnny Cash já sóbrio e no caminho ‘certo’ da vida, estas questões já não o incomodassem mais ao ponto de falar para a revista. Mas foi a impressão que eu fiquei. Já o papel de June como a salvadora de Cash está mais do que correto: na mesma entrevista, Johnny diz que começou a sair desses ‘anos ruins’ (em que estava se autodestruindo com o vício nas pílulas de anfetamina) quando casou com June, e o amor e a força espiritual cresceu dentro dele. Ponto para o filme!

De qualquer forma, em linhas gerais, adorei o longa. É uma história gostosa de ouvir e assistir. A cena do pedido de casamento no meio do show é emocionante, pois é uma história de bonzinhos se dando bem! Até que enfim, já estava cansada das histórias dos grandes talentos da nossa música com um final trágico – não me deixam mentir  Joplin, Cobain, Hendrix, Lennon e mais recentemente Amy Winehouse, entre tantos outros.

*A entrevista está no livro ‘Rolling Stone: as melhores entrevistas da revista Rolling Stone’, da ed. Larousse (que eu super recomendo, tem entrevistas com uma pá de gente legal da música, do cinema e da política!).

Esses amores (Ces amours-là, 2010)

agosto 23, 2011

Um, dois, três, quatro, cinco amores. Muitos amores, muitos personagens, muito pouca habilidade em definir um foco.

Por Alessandra Marcondes

Esses Amores é um filme de Claude Lelouch, um diretor que eu particularmente não conheço, mas ouvi falar por aí – ou melhor, li no blog da própria distribuidora do filme, cof cof – que adora misturar vários gêneros em seus filmes. Fato importante, explica muito sobre este filme, e sobre o que vou falar por aqui. Como não conheço a obra de Lelouch, me restrinjo a falar do filme pelo que ele é. E já adianto que o resultado é ruim.

Em cena temos Ilva (Audrey Dana), uma jovem de belos cabelos ruivos que se apaixona facilmente. Vivendo em uma França em plena Segunda Guerra Mundial, consegue se apaixonar por um oficial nazista que quase matou seu pai (!) e, depois, por dois soldados norte-americanos ao mesmo tempo. Fora eles, temos o seu pai, um projetista de cinema interpretado por Dominique Pinon; seu namoradinho francês que se torna rapidamente ex; o advogado que a defende desde o início do filme no tribunal por um crime que só desvendaremos ao final; a judia por quem tal advogado se apaixona no campo de concentração alemão; um casal de músicos que vive cantarolando pelo caminho da moça, não se sabe ao certo por quê. Ufa! O filme tenta dar conta do background de CADA personagem, sem nos poupar ainda de detalhes sobre o contexto histórico, passando lentamente por cenas de guerra e acontecimentos ligados a elas. Ah, misture à receita um monte de referências metalinguísticas ao cinema, e pronto! Temos um filme longo, confuso, e indefinido.

A ‘confusão’ dos fatos não é de todo ruim: faz você se esforçar para amarrar cada ponto da história, mas não deixa nenhum deles soltos – pelo menos eu não percebi. Mas várias cenas poderiam ser facilmente cortadas da história, totalmente desnecessárias, servindo só pra cansar a gente na cadeira. Faltou foco. Faltou norte. Me peguei pensando no que eu iria jantar depois da sessão em alguns momentos.

Isso se deve – e muito – à mistureba de estilos. O filme não sabe se é drama, se é comédia, se é romance ou musical. Não liga. Não dá tempo de sofrer pela brutalidade da guerra, pois logo depois somos levados ao meio de uma roda de dança frenética e feliz entre quem estava sofrendo há minutos atrás. Nem dá para nos apegarmos a uma história de amor ali, já que nossa protagonista cada hora está com alguém e – convenhamos – não parece sofrer nem se importar muito com nenhum deles, pelo menos com este aceleramento dos fatos. E também não é uma ou duas cenas que parecem ter saído de um musical da Broadway que vão tornar o filme uma comédia cheia de purpurina.
Então, lhe pergunto: o que raios é Esses Amores?

No mesmo blog que citei lá em cima, li que a intenção do longa era ser uma ‘síntese’ da carreira do diretor, uma homenagem ao cinema, etc e tal. Pois bem: do mesmo jeito que fiquei magoada com Lars Von Trier, pois ele não tinha o direito de fazer eu engolir guela abaixo o controverso “Anticristo” só porque andava depressivo, acho que esta maçaroca de acontecimentos e gêneros só faz sentido e é legal para o seu criador – e no máximo para a mãe dele, vai saber.

Entre umas 600 cenas, têm umas dez que valem a pena. A atuação de Audrey Dana até que salva, coitada. Mas achei todo o resto bobinho. A menina mal se revolta quando descobre (spoilers!) que os próprios amigos da família mataram seu pai. WTF?! E os clichês? Se apaixonar por um negro e um branco ao mesmo tempo, transformar o negro em bonzinho e o branco em mau e levá-los para a boate “Black & White”. E todos os ‘maus’ se dando mal (o nazista, o boyzinho) e os bonzinhos se dando bem (o advogado, o ex-namoradinho), e a ceninha forçada da música de ‘amor’ improvisada do final… Não acreditei em nada daquilo, não mexeu com meus sentimentos, não serviu pra muita coisa. Tipo comédia romântica de Hollywood, sabe? Um filme fácil, com final fácil, e também fácil de esquecer.

Feeling: vá sem esperar grande coisa. A história é ok, mas bobinha, e tem que ter saco pros vários vai-e-vem entre personagens e tempos diferentes. Vá se não tiver nada melhor passando, ou se as outras salas estiverem esgotadas – que foi o meu caso.

PS: fui na pré-estréia, o filme só entra oficialmente em cartaz no dia 26 de agosto.

A Verdade Nua e Crua (The Ugly Truth, 2009)

setembro 28, 2009

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Por Bruno Pongas

O bom e velho gênero das comédias românticas produz anualmente uma quantidade infindável de filmes. A qualidade deles, no entanto, é discutível na maioria dos casos, pois raramente vemos uma que definitivamente valha a pena. Com finais óbvios, personagens bobos e roteiros canhestros, o gênero se desgasta cada vez mais, a p0nto de afastar os próprios fans das salas de cinema. A boa notícia é que de vez em quando aparece uma grata surpresa; foi assim com A Propostaalguns meses atrás – e agora com A Verdade Nua e Crua.

É bem verdade que a fita passa longe da originalidade que tanto se cobra do gênero, mas tem bons momentos suficientes para sobreviver num campo disputadíssimo. Pois é… e o ponto de partida para isso é a química entre o casal de protagonistas (Gerard Butler e Katherine Heigl). Sempre que em cena, Butler e Heigl enchem os olhos do espectador, já que em certos momentos chegam a fazer chorar de rir. A dupla segura o fraco roteiro com bastante habilidade, e mesmo que a comédia seja óbvia, ela se diferencia pelo bom desempenho do par principal.

Tenho para mim que o maior objetivo desse tipo de longa é divertir. Sou contra aquele pensamento que dá valor apenas ao cinema reflexivo. A sétima arte também surgiu como forma de entretenimento para as massas… sabendo disso, qual o mal em garantir boas risadas com algo fútil e estúpido? Nenhum! A Verdade Nua e Crua cumpre seu papel exemplarmente, sempre com o apoio de piadas pesadas e cenas escrachadas – que algumas vez até extrapolam o limite do bom senso.

Elogiei bastante a obra, mas como crítico devo apontar alguns defeitos que em minha leitura foram prejudiciais à história. O primeiro deles, claro, é o roteiro. Como é difícil sair do óbvio, buscar novos horizontes, tentar algo diferente… os roteiristas de comédias românticas parecem acomodados demais para pensar, pois chupinhar o que já existe é bem mais fácil mesmo… o filme caminha num ritmo muito bom até a metade, enquanto a personagem de Gerard Butler tenta aconselhar Katherine Heigl a conquistar o ‘homem perfeito’. Contudo, quando o enredo parte para outro viés e tudo é manipulado para acabar ‘bonitinho’, há uma queda abrupta de qualidade, o que deixa o espectador enfadonho e com um ar: “Poxa, já vi isso umas mil vezes antes!”.

Apesar desse deslize e do amontoado de clichês, A Verdade Nua e Crua ainda é forte o bastante para divertir sem compromisso; sem dúvidas uma ótima pedida para um casal num domingo à noite sem muito o que fazer. E lhe garanto, caro leitor, o emaranhado de cenas sugestivas e instigantes mexem com os hormônios, e fazem, de alguma maneira, valer o ingresso. Tá aí a dica!

Minha Nota: 6.5

Onze Homens e um Segredo (Ocean’s Eleven, 2001)

agosto 8, 2009

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Por Bruno Pongas

Quando muitas estrelas se juntam para um único filme, das duas uma: ou vai ser um perfeito fiasco ou um grande sucesso. O ainda jovem diretor Steven Soderbergh (46 anos) vem construíndo aos poucos uma carreira interessante. Na filmografia, participou duas vezes da cerimônia mais simbólica do cinema. Aliás, o cineasta foi um dos poucos na história a emplacar duas obras entre as concorrentes num único ano. Traffic, que garantiu o primeiro oscar ao diretor e Erin Brockovich – Uma Mulher de Talento. Vale lembrar que naquele ano o épico Gladiador foi escolhido como o melhor para a acadêmia. Gladiadores a parte, Onze Homens e um Segredo é um trabalho menor de Soderbergh. Menor no sentido de impacto, pois se levarmos em conta o que custou aos cofres da produtora e o que arrecadou, mudaremos um pouco o discurso.

Inspirado na obra homônima de Lewis Milestone (1960), o longa conta a história de Danny Ocean e seus amigos, bandidos clássicos que arquitetavam roubos gigantescos e pomposos em sua época. Devido ao estilo dos furtos e da calma do grupo, que dificilmente apelava para a violência, esses homens eram considerados ‘bandidos charmosos’, ou ‘bandidos mocinhos’, como preferir. Uma referência fácil é o atual John Dillinger, de Inimigos Públicos, que na sua época era considerado um mito, reverenciado e admirado pelo povo. Uma curiosidade aqui, é que a trama da década de 1960 contava com nada mais nada menos do que Frank Sinatra como personagem principal… (Sinatra fazendo jus a sua fama de mafioso). 

Soderbergh constrói um longa ágil, que vai direto ao assunto sem se perder em passagens desnecessárias. Talvez esse seja um dos grandes trunfos do longa, já que em poucos minutos – menos de 20 – somos apresentados a quase todos os personagens e ao plano de assalto aos cassinos. No entanto, como nada é perfeito, a agilidade pareceu tanta em tantos aspectos que a trama tem poucas cenas daquelas que você para e pensa: UAU!… apesar de muito bem feito em quase tudo, o longa carece de passagens mais trabalhadas, mais espetaculares – como pede o esquema de um filme desse tipo. Há ainda o romance entre as personagens de Clooney e Roberts, que apesar de demasiado clichê, tem a sua importância para a história… caso contrário, ele seria completamente descartável. Como destaque, o roteiro tem uma virada interessante e divertida no final, que me surpreendeu bastante.

O elenco fala por si só: Matt Damon, Casey Affleck, Don Cheadle e até a musa Julia Roberts como meros coadjuvantes? Pois é, o filme se dá ao luxo de ter atores desse nível como ‘figurantes’, podemos assim dizer. Entre os principais, Brad Pitt é destaque fazendo um papel que vem se tornando típico em sua carreira. Aqui, seu estilo lembra muito o de Tyler Durden em Clube da Luta (nem precisa falar que ele está pra lá de bem). George Clooney, por sua vez, também garante bons momentos interpretanto aquele que seria o personagem principal – Danny Ocean. No entanto, quem ofusca a luz de todos os outros é o cubano Andy Garcia. Se você procura saber o que é um bom ator e como se portar diante das câmeras, assista a esse filme e aprenda um pouco com ele. Como Terry Benedict, dono dos cassinos, o ator da show em cena e rouba o filme para sí com grande estilo. A cada cena que ele aparecia o longa ganhava alguns pontinhos a mais comigo – principalmente nas partes em que ele tentava se manter calmo mesmo com tudo dando errado.

No final das contas, Onze Homens e um Segredo é daquele tipo de entretenimento sem compromisso, daqueles que você assiste simplesmente para se divertir, sem precisar pensar. Se você for daqueles que procura algo sério, para refletir, passe bem longe desse trabalho. No entanto, como um blockbusterzinho de vez em quando também é bem-vindo, esse é daqueles que tem bons momentos, uma história interessante e muito bem montada, ao contrário da maioria dos super-sucessos-de-bilheteria por aí. Ah, e dica para os apreciadores do lado musical da coisa: a trilha sonora é genial!

Minha Nota: 7.5

Direção: Steven Soderbergh
Gênero: Comédia/Policial/Suspense
Duração: 116 minutos
Elenco: George Clooney, Brad Pitt, Julia Roberts, Matt Damon, Casey Affleck, Don Cheadle, Andy Garcia, Elliott Gould, Bernie Mac, Scott Caan, Carl Reiner, Shaobo Qin, Topher Grace e Joshua Jackson.

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Um Corpo que Cai (Vertigo, 1958)

julho 14, 2009

Vertigo

Por Bruno Pongas

Alfred Hitchcock é muito mais do que o mestre do suspense, ele vai além, muito além, é um gênio, um mito, um dos maiores – talvez o maior – cineasta de todos os tempos. Sobram exemplos para provar sua excelência; a técnica apurada, a habilidade em criar um clima tenso mesmo com elementos simples, sem exageros. Hitchcock foi um marco da história do cinema, foi o melhor do gênero, imbatível. A música que sobe nos momentos certos, que aflige o espectador, a simplicidade evidente – muito pelo ano de seus filmes – que pode até passar por tosca numa época em que vemos efeitos especiais aos montes… mas e o conteúdo? Parafernalhas tecnológicas podem ajudar, porém, genialidade se destaca mesmo sem muitos recursos. É difícil ver um filme de suspense hoje em dia que se iguale a Hitchcock… arrisco a dizer que é quase impossível.

Um Corpo que Cai é considerado uma das obras-primas do diretor, pois conta com todos os elementos necessários para se criar um bom suspense. A história gira em torno de um ex-detetive da polícia que se aposentou após um acidente por consequência de sua vertigem (fobia/medo de altura) – a cena inicial em cima do telhado é uma das mais clássicas do cinema. Mesmo fora de combate, John Scottie Ferguson (James Stewart) é contratado por Gavin Elster (Tom Helmore) para vigiar sua esposa (Kim Novak), pois acredita que ela tem alguns problemas psicológicos e tendências suicidas. No entanto, o enredo sofre um revés quando os dois se apaixonam, e o que era para ser uma coisa simples se transforma numa trama bastante complexa.

Hitchcock usa muito bem a trilha sonora, que é primordial para criar a tensão entre as personagens. A habilidade em saber os momentos certos para colocar, aumentar ou diminuir a música é parte importantíssima no suspense – nem preciso dizer que ele faz isso com primor. O roteiro é amarrado, bem construído e envolvente. A cada minuto o espectador mergulha mais e mais fundo na história querendo desvendar o mistério; à princípio temos a total impressão de que o ex-detetive é paranóico, maluco, perturbado (assim como a mulher que ele está investigando). Depois, no final, tudo é desvendado com clareza, da melhor forma possível e sem deixar furos ou dúvidas para quem está assistindo. O cineasta parece brincar de detetive com o público e aos poucos vai criando um cenário cada vez mais instigante, mais complexo.

Na parte dos personagens, Hitchcock caprichou, pois os construíu e aprofundou perfeitamente. Vemos claramente o processo evolutivo do drama psicológico de Scottie Ferguson (muitíssimo bem interpretado por James Stewart) e também observamos Kim Novak excelente em seus dois papéis – especialmente no segundo, em que conseguiu ser muito convincente ao passar um misto de amor, medo e agonia. O elenco de apoio também executa seu trabalho com competência, e aqui destaco o desempenho de Barbara Bel Geddes na pele de Midge – aquela coadjuvante de extrema importância para a trama.

No final, Um Corpo que Cai vai além de um simples exercício de detetive por parte do espectador, é uma aula de bom cinema e de como construír um suspense psicológico e perturbador. O filme ainda mostra que a acadêmia é injusta e fazedora de média, pois o longa foi indicado somente para duas categorias secundárias no Oscar de 1959. Mas quem liga para isso, afinal? O trabalho de Hitchcock ficará marcado para sempre na história, independente de qualquer prêmio pomposo do cinema americano.

Minha Nota: 10.0

Direção: Alfred Hitchcock
Gênero: Suspense/Drama/Romance
Duração: 128 minutos
Elenco: James Stewart, Lee Patrick, Kim Novak, Barbara Bel Geddes, Tom Helmore, Henry Jones, Raymond Bailey, Ellen Corby e Konstantin Shayne.

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Juno (Juno, 2007)

junho 16, 2009

junobleeker

Por Bruno Pongas

Nada é mais divertido e gostoso do que assistir a uma boa comédia. E é essa a impressão que temos quando acabamos de ver Juno, filme indicado ao Oscar em 2008. O longa, segundo trabalho do diretor Jason Reitman, tem todos os elementos necessários para triunfar no gênero: sabe arrancar risadas do espectador quando preciso ao mesmo tempo que sensibiliza o público nas partes mais dramáticas, sem que isso seja fantasioso ou sensacionalista demais – a trama flui naturalmente.

Diferente dos romances adolescentes modernos, vemos aqui um panôrama bastante diferente. Juno MacGuff (Ellen Page) é a típica garota que podemos tranquilamente chamar de estranha. Ela se veste, fala, age e tem todos os trejeitos de uma menina pouco comum. É a típica jovem rebelde, que é vista com olhares estranhos num colégio infestado de pessoas normais. Seu par romântico, o jovem Paulie Bleeker (Michael Cera), também é o oposto do homem ideal. Ele é nerd, desajeitado, se veste antiquadamente e tem pouco jeito para lidar com as mulheres. Ou seja, Juno é uma comédia que tenta, ao menos, fugir de esteriótipos – embora em alguns momentos seja difícil fugir deles (falaremos disso ao longo do texto).

Para situar o leitor, a história conta os meses que se sucedem após Juno engravidar indesejadamente de Paulie Bleeker. Aqui, temos uma parte muito interessante do roteiro, pois é mostrado todo o processo aterrorizante pós-engravidamento indesejado. Primeiro temos o teste de gravidez, que, obviamente, dá positivo após algumas tentativas. Depois, como toda boa – ou nem tanto – história adolescente, tem a parte de contar para a melhor amiga – que reage com a maior originalidade possível. O grande pesadelo fica para o final, e realmente, contar para os pais deve ser uma das tarefas mais indigestas do mundo. No entanto, a conversa se dá como se fosse sobre qualquer outro assunto, mas claro, com uma pontinha de surpresa por parte do pai e da madrasta. O que achei legal aqui, embora os pais possam, para muitos, serem esteriotipados por se encaixarem num estilo relapso – como o da filha – foi que esse assunto extremamente delicado – o da gravidez na adolescência – é tratado com maturidade, sem que passe a imagem de algo banal.

Para completar o ciclo de qualidades, Juno ainda acerta nas outras tramas da história – como a dos pais adotivos que pretendem adotar a futura filha da garota. Assim como Ellen Page, que dá um show na pele de Juno MacGuff (em pensar que na época ela já tinha 20 anos), Jennifer Garner representa com primor uma mãe agoniada incapaz de reproduzir. As passagens que envolvem a casa da família Loring (os pais adotivos), inclusive, são as mais interessantes – e também as mais dramáticas. Aliás, o longa ganha contornos de drama em sua segunda metade, o que nos mostra uma sensibilidade antes escondida em seus personagens. A própria Juno passa por um processo de amadurecimento durante a história; se antes ela era apenas uma menina rebelde sem causa, com o passar dos meses ela percebe a importância de ter um filho e a necessidade da outra família em receber aquele bebê.

Juno é comédia genuína, daquelas que vemos passar pelos cinemas de tempos em tempos (infelizmente). Além disso, ainda agrada os aficionados pelas comédias românticas, já que é capaz de fazer rir e chorar ao mesmo tempo sem perder a qualidade. Destaque também para a trilha sonora, que embala o longa de maneira incrível e bonita, e se encaixa perfeitamente em cada passagem – um excelente trabalho nesse quesito.

Minha Nota: 8.5

Direção: Jason Reitman
Gênero: Comédia/Romance
Duração: 96 minutos
Elenco: Ellen Page, Michael Cera, Jennifer Garner, Jason Bateman, Allison Janney e J.K. Simmons.

Hitch: Conselheiro Amoroso (Hitch, 2005)

maio 26, 2009

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Por Roberto Camargo

Ah, quem dera se cada um de nós pudesse contar com Alex Hitchens…

Seu emprego é o amor; sua vida é o amor. Cada palavra, cada movimento, cada instante é friamente calculado para impressionar a pessoa amada. Lições como essa são aprendidas na ótima comédia romântica Hitch (2005). Estrelada por Will Smith, é um dos melhores filmes para assistir a dois. Ou entre amigos. Ou com a família. Enfim, um filme que lhe garantirá risadas, sorrisos e suspiros – seja com quem ou quando for.

A história se passa em Nova York, onde Alex Hitchens (Smith) ensina, no anonimato, homens apaixonados a conquistar a mulher amada. A maioria dos casais que o doutor do amor consegue formar foge do lugar-comum dos relacionamentos, quando a patricinha escolhe o bonitinho e blá-blá-blá. Aqui, o nerd mais hardcore conquista uma bela mulher apenas por mostrar quem ele é. Por dentro.

Dentre seus contratantes, a película foca o conto de Albert Brennaman (Kevin James), contador introvertido, asmático e acima do peso. Kevin James, aliás, é um dos pontos altos do filme. Com uma atuação brilhante no quesito comédia, o ator nos brinda com cenas inesquecíveis, como a aula de dança e o “primeiro beijo”. Albert trabalha para uma herdeira e socialite, Allegra Cole (Amber Valetta), por quem é perdidamente apaixonado. Disposto a chamar sua atenção, o contador contrata o maior especialista na área: Hitch.

Nesse meio tempo, a personagem de Smith conhece Sara Melas (Eva Mendes), uma bela jornalista de fofocas que não costuma baixar sua guarda para o sexo oposto. Ele acredita que ela seja a mulher certa, então decide investir todo seu charme e conhecimento teórico na relação. Não nos surpreende quando o consultor de casais se enrola todo e erra em quase tudo nos encontros com Sara. As situações criadas nos encontros rendem outra grande parte das risadas que damos quando assistimos Hitch.

A trama dessas quatro personagens se encontra quando a jornalista começa a seguir uma pista de que a socialite está saindo com alguém improvável. Assim, acaba descobrindo que ele não conseguiu isso sozinho, teve a ajuda de um profissional…

Hitch não é um filme de arte. Sequer tem força para se tornar icônico (apesar das personagens de Will Smith e Kevin James serem hilárias e marcantes). Mas o trabalho do diretor Andy Tennant (de Para Sempre Cinderela e Ana e o Rei) merece aplausos, principalmente por saber dosar o óbvio e o inusitado e se apoiar na química da dupla Smith/James.

Ouvi diversas opiniões sobre a película. Uns disseram que o filme se trata de um documentário… Outros não gostaram, embora nenhum de seus argumentos tenha me convencido. Bruno Pongas daria uma nota 8.0. Leka Marcondes diria: Regra número 1 para conquistar uma mulher: não há regras. Uma outra publicação recomendaria um baldão de pipoca para assistir Hitch.

Eu? Eu simplesmente recomendo.

Ps.: esse foi, acreditem, o primeiro filme assistido em conjunto pela equipe MovieforDummies! Destaque para Leka e sua raiva absoluta com a reviravolta no final; para mim que, descontente, contei o filme todo antes de sua metade; e para Pongas e seu ronco sincero…

Direção: Andy Tennant
Gênero: Comédia romântica
Duração: 105 minutos
Elenco: Will Smith, Eva Mendes, Kevin James, Amber Valetta, Julie Anne Emery, Jeffrey Donovan, Adam Arkin.

O Curioso Caso de Benjamin Button (Curious Case of Benjamin Button, The, 2008)

fevereiro 23, 2009

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Por Bruno Pongas

David Fincher parece ser daquelas pessoas difíceis de lidar. Egocêntrico, teimoso e perfeccionista – o que pode ser considerado uma qualidade tratanto-se de um cineasta. Ao longo de sua carreira, Fincher nos apresentou obras de extrema qualidade.

Seu primeiro grande trabalho foi o excelente suspense Seven – Os Sete Crimes Capitais (1995); despontava aí um jovem e competente diretor. Com o passar dos anos, Fincher se aperfeiçoou, amadureceu e conseguiu lançar sua obra-prima, tida como uma das melhores da história do cinema. Clube da Luta fez pouco alarde no ano em que foi lançado (1999), passou longe das premiações e não teve uma bilheteria arrebatadora; no entanto, o reconhecimento veio alguns anos depois.

Mantendo a regularidade da carreira – que aliás é invejável – Fincher lançou em 2007 o competente Zodíaco. Criticado por uns e adorado por outros – assim como seu diretor – Zodíaco foi considerado pela crítica mais um ótimo filme do cineasta. Mesmo suas obras mais descontraídas e “bobinhas” são interessantes – caso de O Quarto do Pânico, que apesar de ideologicamente nulo, transmite certa tensão.

O Curioso Caso de Benjamin Button era um filme muito aguardado. Muita expectativa se criou por ser o novo trabalho de David Fincher e por contar com dois atores em excelente fase no elenco principal. Tanto Brad Pitt quanto Cate Blanchett tem emplacado grandes filmes em sequência, o que lhes credencia como dois dos principais ícones da Hollywood atual.

Cartas na mesa, o longa tinha tudo para ser um grande sucesso – e realmente foi. A principio, as quase três horas de filme podem assustar alguns; e de fato, um roteiro ruim dificilmente conseguiria mantêr o nível durante tanto tempo. Com tanta história pra contar, confesso que senti uma pequena quebra de ritmo pouco antes da trama atingir sua metade – absolutamente normal. No entanto, a tal quebra passa despercebida diante de tanta beleza e sensibilidade empregadas na obra.

O Curioso Caso de Benjamin Button é uma fábula de amor encantadora e muito bem contada; a história é daquelas que nos faz pensar sobre a vida e refletir diante de nossas conquistas, atitudes e capacidades. Nada é impossível aos olhos de quem ama e acredita – e por mais que isso soe piegas, é contado de uma maneira maravilhosa e emocionante.

O elenco, como já era de se esperar, tem desempenho de primeira. Contudo, nenhum dos superstars rouba a cena. Brad Pitt mantêm o nível de sempre, embora ao meu ver, ache que foi aquém de outros trabalhos – sendo assim, creio que ele caiu de pára-quedas na disputa da estatueta de melhor ator. Cate Blanchett também esbanja o talento e a beleza de sempre – pena que ela aparece somente na metade final da trama. Quem rouba a cena, no entanto, é a menos conhecida Taraji P. Henson. Na pele da hospitaleira Queenie, Henson simplesmente dá um show em cena, dá gosto de vê-la atuar e cada vez que ela aparece é como se fosse um colírio para os olhos do espectador – sem dúvidas foi merecidíssima sua escolha para disputar o Oscar de melhor atriz coadjuvante.

David Fincher surge com uma nova obra e mais uma vez ele brinda os cinéfilos com um excelente trabalho. Talvez um pouco superestimado mas ainda assim um dos melhores filmes que eu vi nos últimos tempos. É praticamente impossível ver o longa sem se emocionar; é praticamente impossível sair ileso em meio a essa fantástica história de amor e vida.

Minha Nota: 9.0

Direção: David Fincher
Gênero: Drama/Romance
Duração: 167 minutos
Elenco: Brad Pitt, Cate Blanchett, Kimberly Scott, Jason Flemyng, Taraji P. Henson, Tilda Swinton.

Foi Apenas Um Sonho (Revolutionary Road, 2008)

fevereiro 23, 2009

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Por Alessandra Marcondes

Muitos dos filmes que existem por aí se dedicam a retratar dramas da vida real, em suas mais variadas vertentes. O palco para a choradeira pode ser um acidente, uma morte inesperada, ou um amor proibido de épocas distantes nas quais a tradição era algo respeitável. Revolutionary Road – o título original é bem melhor, diga-se de passagem – é daqueles que retratam um tipo diferente de tristeza: aquela que vem de dentro, sem aviso prévio e é inexplicável, pois foi imposta pelas nossas escolhas na vida. Ao assistir o trailler, conduzido por uma bela música e com a presença dos melhores diálogos do filme, fiquei instigada a assisti-lo, pois parecia se tratar de uma bela história de amor, emocionante e com problemas delicadamente elaborados.
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Porém, o longa coleciona diversas falhas, desde a apresentação das personagens até a definição de gênero. Logo no início do filme, fui surpreendida por uma discussão entre Frank (Leonardo Di Caprio) e April (Kate Winslet) sem nem fazer idéia do laço que eles tinham, e sem acreditar naquilo, pois os atores pareciam perdidamente neuróticos em uma discussão infundada e esquisita.
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Conforme passa o tempo, percebemos que o promissor casal de Titanic encarna agora um par infeliz, frustrado pela mudança de ritmo de suas vidas: antes, dois jovens cheios de sonhos; hoje, dois adultos em uma grande e monótona casa no subúrbio norte-americano. O problema é que o filme oscila entre drama e comédia de cena a cena. Kate e DiCaprio interpretam a dor formidavelmente em certas horas, como quando o marido retorna ao lar depois de ter traído sua esposa, que o espera dedicada e amorosa com seus filhos em uma pequena festa surpresa pelo seu aniversário. Porém, quebrando o ritmo, ambos encarnam pessoas ingênuas, mimadas e inconstantes, que reclamam muito sem se esforçar para mudar de vida de uma maneira realista. Sem contar a aparição de John Givings (Michael Shannon), filho da vizinha, que retorna do hospício para uma visita à casa do ‘casal perfeito’, e faz o papel de uma espécie de gurú que enxerga a verdade em tudo, misturado com um lunático bizarro que torna cômicas as cenas com sua participação.
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A idéia de discutir o quão essenciais são as formalidades que rodeiam nossa vida social, como possuir um emprego aceitável, constituir família e se dedicar a ela, cai como uma luva nestes tempos modernos, nos quais é preciso trabalhar muito em um emprego que nem sempre nos agrada, deixando pouquíssimo tempo para nos dedicarmos ao que nos faz feliz. Porém, se tratando de um problema tão real, o filme comete um pecado gravíssimo ao retratá-lo de tal maneira tragicômica, pois não lhe confere devida seriedade, e passa a mensagem de que todos nós, no fundo, reclamamos à toa pois acreditamos ser mais verde a grama do vizinho – ou mais bela a mulher do vizinho, no caso – sem nem refletirmos a respeito.

Para fazer justiça, admito que Sam Mendes continua sendo aquele bom diretor de Beleza Americana nos aspectos audiovisuais: a trilha que embala o filme é um de seus pontos altos, aliada a detalhes de iluminação que fazem um paralelo entre o abismo que assola a alma dos personagens, sempre em tomadas internas pálidas e escuras, e o mundo belíssimo e iluminado que existe além daquele belo jardim em frente à casa.
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Foi Apenas Um Sonho acaba sendo uma boa história, colocada em prática da maneira errada. Para provar que pequenos detalhes fariam toda a diferença, é só compará-lo ao genial Pecados Íntimos, também com Kate Winslet no papel principal: os personagens são tão problemáticos quanto, e sofrem por motivos não evidentes tendo um final meio frustrante e atordoado. Mas ao invés de escancarar a piada que se tornaram as regras invisíveis da humanidade, discute de maneira mais profunda o mal que elas podem causar para a personalidade de cada um, e envolve o espectador em tal sofrimento. Ao final de Revolutionary Road, por sua vez, é impossível evitar uma testa enrugada que duvida que a ficção projetada na telona tenha grandes semelhanças com a vida real.
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“Who made this rules, anyway?”

Direção: Sam Mendes
Gênero: Drama
Duração: 119 minutos
Elenco: Kate Winslet, Leonardo DiCaprio, Kathy Bates, Michael Shannon, Zoe Kazan, David Harbour.