Posts Tagged ‘Sean Penn’

A Árvore da Vida (The Tree of Life, 2011)

dezembro 10, 2011

Por Alessandra Marcondes

Meu Deus! Fazia tempo que eu não tinha vontade de sair do cinema antes da sessão acabar. O filme é uma mistura de 2001 com Foi apenas um Sonho. Tudo bem que a gente gosta de subjetividade, mas JUST IT não faz meu estilo. É um filme beeeem difícil. O Inácio Araújo, da Folha, achou o suprassumo da arte e escreveu que é uma linda história sobre o sofrimento desde os primórdios da humanidade.

Mas… sério que 20 minutos só de ensaios sobre a evolução das espécies era necessário? E colocar 2 dinossauros no meio do longa, um pisando na cabeça do outro, não foi forçar a barra?

Por mim, se não tivesse toda esta viagem darwiniana, ele não seria todo de se jogar fora.

É a história de sofrimento de uma família que de repente perde o filho/irmão, mesmo sendo tão correta de acordo com a moral e os bons costumes. Gostei da leitura sobre a mudança da fé em momentos de desespero ou de grande decepção. Deus geralmente é a válvula de escape para os nossos problemas, mas também a origem das nossas resoluções. Doloroso acreditar em um Deus assim, tão bondoso e cruel ao mesmo tempo.

Quando o roteiro volta pra contar a trajetória da família antes da morte, para mim compara a todo momento as atitudes do pai (Brad Pitt) e da mãe (Fiona Shaw) com a de Deus. Mostra pra gente que se Deus fosse só bom, como a mãe, perderia o controle da sua Terra, assim que o filho mais velho (que quando cresce é interpretado por Sean Penn) se volta contra ela. Se fosse só rígido, como o pai, impediria as pessoas de amá-lo. E para mim o maior acerto  é esta metáfora, do lado bom e ruim da fé e sua ação sobre nós, personificada nos filhos de maneiras tão marcantes, e até perturbadoras. Quando o filho mais velho diz ‘Pai, mãe, vocês sempre estão brigando dentro de mim’, é exatamente disso que se trata – de como o Deus consolador pode brigar com o Deus punitivo dentro de nós, e como eles nos confundem e se completam ao mesmo tempo.

Mãe e pai fazem um contraponto na criação dos filhos que pode ser comparado às duas faces de Deus: punitiva e consoladora

Também é um filme sobre a aceitação da morte doída, repentina, avassaladora. É um filme bonito para quem tem fé, porque (ao contrário de Melancolia, do qual eu falei neste post aqui), nos diz: no final, tudo dá certo. Há alguém lá do outro lado para ‘nos guiar até o final dos tempos’. Vamos nos encontrar todos em um lugar bonito onde a dor não tem lugar.

É legal também o jeito como a história coloca a ciência e a fé lado a lado, coisas que a gente reluta em misturar, como se fosse água e óleo. A mãe da família diz em certo ponto “Há dois caminhos na vida: um da natureza, e outro da graça. Você tem que escolher qual deles seguir”. Mas o que o filme deixa claro é que não dá para escolher um só. Para aquela família, foi Deus que criou todas as coisas, e é este o caminho que eles devem seguir. Mas em seguida, com os 20 longos minutos em que parece ser contada a história da evolução do homem de acordo com a ciência, o roteiro nos mostra que mesmo aquela família, que escolheu o lado da graça, não tem como escapar da força da natureza.

Na minha interpretação, com os 20 longos minutos de explosões, formações rochosas, micro organismos marinhos e a aparente crueldade gratuita entre os dinossauros – que evolui para o discurso de Sean Pean sobre a cobiça do ser humano – o filme explica que a gente criou a fé e tudo o que ela envolve – incluindo Deus – pra fazer um contraponto à crueldade deste mundo, porque viver seria muito difícil sem ela. Cabe a você acreditar ou não. Eu, cética e ateia que sou por exemplo, não comprei o final de ‘todos viveram felizes para sempre, juntos em um lugar melhor’.

Por tudo o que eu falei até agora, o filme tem seu mérito, não dá pra negar. Mas também não dá pra não mencionar que ele discute todas estas questões da maneira menos didática POSSÍVEL. É tipo aquela aula do curso que tinha potencial para ser magnífica, mas que você descobriu que é dada por um professor chato, às manhãs de sábado, em transparências de retroprojetor. É artístico e lúdico – demais. Mas é questão de opinião, de gosto. Eu ainda acho que dava pra deixar menos subjetivo, desenvolver melhor os dramas familiares e nos poupar de tanta ladainha (sério, deu vontade mesmo de abandonar o filme na metade) sem perder a mensagem nem a beleza.

Também achei altamente dispensável o papel de Sean Penn. Pela sua declaração ao jornal Le Figaro, nem o próprio Sean Penn entendeu seu papel na trama, e diz que Terrence Malick nunca explicou direito o que queria dele – então, o que podíamos esperar? Nada mais do que uma participação rala e sem sentido, facilmente descartável.

Devaneios de Sean Penn são altamente descartáveis em Árvore da Vida

Consegui terminar esta crítica meses após ter assistido, pois só agora cheguei a um veredito: vale a pena assistir o filme, pois ele dá uma aula de história da humanidade, e as cenas dos dramas familiares salvam o público. Mas vá preparado para um filme longo, chato e arrastado. Sim, é possível que um filme chato pra caramba valha a pena apesar de tudo – quem não concorda que Terra em Transe é uma obra prima, mas chato pra chuchú?

Feeling: um filme justo sobre os temas Deus x natureza, fé x incredulidade. Vale a pena, mas vá preparado para 20 minutos de pura ‘arte’ (cof cof, embromação).

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Na Natureza Selvagem (Into the Wild, 2007)

agosto 16, 2009

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Por Alessandra Marcondes

Quando ouvi falar de Na Natureza Selvagem, tive a impressão de que seria exposta a tomadas fantásticas de uma natureza distante que me diriam: ‘isso não é para você’. Talvez um filme que servisse de marketing para o ecoturismo, e recortasse a realidade árdua da selva de forma amena e feliz, típico de Globo Repórter e afins. O que encontrei, entretanto, atropelou minhas expectativas e, de tão excepcional, deu as costas para elas e saiu andando, sem nem ligar.

Um rapaz chamado Chris foge da família, da carreira, do dinheiro e de outras convenções para varrer o mundo aos seus pés. Fugindo da mediocridade burguesa de sua família, mirou o Alasca e todo seu significado selvagem como forma perfeita de libertar sua alma, em viagem interior que prometia horizontes inabitados pela grande maioria dos homens. Em capítulos que dividem a grande empreitada como em atos teatrais, conhece tipos bem característicos em harmonia com a fase vivida: repare na presença dos hippies cumprindo o papel de pais em “o nascimento”, os dinamarqueses estranhíssimos e a bebedeira com o amigo trambiqueiro situados em “adolescência”, e o velho homem símbolo de um amadurecimento inevitável, em “sabedoria”.

Reconheço que sou uma menina urbana, e ficar acampada longe de um bom chuveiro quente num lugar cheio de mosquitos não é muito a minha praia. Mas mesmo que nem todos nós desejemos efetivamente a empreitada de Cris, é inevitável invejar sua coragem. Abandonar tudo o que se conhece como seguro e arriscar o novo é atidude de homem crescido, e deixar celulares, cartões de crédito e cigarros para trás deve dar uma sensação magnífica de liberdade que a maioria dos homens infelizmente não terão a oportunidade de vivenciar. Talvez tenha certa ingenuidade nas atitudes do menino rebelde que despreza tanto a vida burguesa que sua família lutou para ter, mas ganhar um carro como presente de formatura dos seus próprios pais mostrou que os dois não entendiam nada a seu respeito, nem respeitavam seus instintos e seus sonhos.

Há um alerta visível para a falta de importância de conceitos supervalorizados pela nossa geração. As prioridades para o homem são discutidas a todo momento: é necessário ficar sozinho para compreender a si mesmo e entrar em harmonia com o mundo, ou de nada vale a felicidade se não for compartilhada? Essa foi uma das melhores frases que já ouvi na minha vida, e transformou o filme em muito mais do que a história sobre a introspecção de um personagem – me fez pensar na minha própria realidade, meus valores, meus sentimentos. E isso, meu caro leitor, é o que o cinema tem de melhor pra mostrar; é nessa hora que sabemos a qualidade da película que está na nossa frente, e damos graças aos céus pelo cinema simplesmente existir. Isso, caro leitor, é um bom filme.

Paisagens incríveis, diálogos poéticos e a trilha (aaaah, a trilha) desenhada exemplarmente por Eddie Vedder completam Na natureza Selvagem, tornando-o perfeito. Este sim mereceria uma nota 11 do cricrítico Bruno Pongas. Típico de filmes sobre viajantes, há a constante narração em off de reflexões do personagem principal e a presença abençoada de secundários que dão cor à vida do andarilho. Faz lembrar as personagens de Um Beijo Roubado, que, sendo tão magníficas, fazem o espectador torcer para que sejam reais. Algumas das cenas grudam na memória visual e não nos deixam para sempre: como quando Cris chora feito criança por ter matado um animal à toa, pois não conseguiu aproveitar sua carne; ou como aquele garoto com tanta certeza de si se transformou no final em criança novamente, com sentimentos tão humanos que são a saudade, o medo e a dor.

‘Chamar cada coisa pelo seu nome certo’ – foi o que faltou na hora de comer o fruto errado, e que fez o corajoso Alexander SuperTramp voltar a ser, finalmente, Christopher McCandless. Um final para chorar e continuar chorando pela meia hora seguinte. O final de um filme definitivamente excepcional.

Hapiness only real when shared.

Direção: Sean Penn
Duração: 148 minutos
Gênero: Ação/Drama
Elenco: Emile Hirsch, Marcia Gay Harden, Willian Hurt, Vince Vaughn, Jena Malone, Catherine Keener, Kristen Stewart, Brian Dierker e Hal Holbrook.