Posts Tagged ‘Segunda Guerra Mundial’

A Chave de Sarah (Elle s’appelait Sarah, 2010)

janeiro 8, 2012

Por Alessandra Marcondes

Filmes de guerra sempre são fortes, pesados, dramáticos. Não tem como assistir de maneira indiferente. A Chave de Sarah é mais um longa (adaptado do bestseller homônimo de Tatiana De Rosnay) que retoma a barbárie com que foram tratados os judeus na Segunda Guerra, desta vez sob um pano de fundo – quase – novo: o filme parte do episódio acontecido na França em julho de 1942, quando 13 milhões de judeus foram presos em Paris no Velódromo de Inverno – espécie de estádio onde deveriam acontecer apenas competições de ciclismo, hóquei e outros esportes – em condições sub-humanas. Ao contrário do ocorrido em outros países, onde a própria SS alemã se encarregava de caçar os judeus e os mandar para os campos de concentração, em Paris foi a própria Polícia Francesa a responsável por isso. Assim, o episódio até hoje é mal encarado pelos franceses, que não gostam de lembrar e muito menos mencionar esta mancha na história de sua nação.

Partindo daí, o filme já merece ter reconhecido seu mérito. É um longa francês sobre um episódio que todo francês gostaria de esquecer. Além disso, temos uma trama envolvente e emocionante sobre a história de Sarah Starzynski (a brilhante Mélusine Mayance), uma menininha que foi levada para o Velódromo junto com seus pais e, depois, para um campo de concentração nazista. O nome do filme é este porque quando a polícia francesa chega na casa de Sarah, esta tranca o irmão no armário para que os oficiais não o levem também. A partir daí, carrega sua pequena chave por todos os cantos, tendo em mente o único objetivo de voltar para casa para libertar o irmão.

Na outra ponta, temos a história de Julia (Kristin Scott Thomas), ambientada anos depois, em 2002. Ela é jornalista e foi incumbida pelo seu editor de escrever sobre o episódio do Velódromo de Inverno, que faria aniversário de 60 anos naquele ano. Já bastante dedicada à reportagem, sua investigação vira quase uma obsessão quando ela descobre que seu marido vai herdar um apartamento onde a família Starzynski viveu antes de ser deportada. A partir daí, a história de Sarah vai sendo desvendada e os dramas pessoais da jornalista caminham junto, virando quase que uma história só. A trama é envolvente e, mesmo cheia de vai e vem entre as cenas de Sarah e Julia, consegue manter o espectador grudado na cadeira, aguardando ansiosamente o rumo que aquilo tudo vai tomar.

A Chave de Sarah tem uma história bem triste, do início ao fim. Apesar de a menina ter a ‘sorte’ de encontrar um oficial alemão solidário que abre caminho para que ela fuja do campo de concentração e, logo depois, cruzar com um casal que, também de bom coração, acolhe 2 crianças judias em plena Segunda Guerra, mesmo sabendo dos apuros que aquilo podia lhes causar, a saga da menina ainda é triste, dramática, e representa toda a dor, o sofrimento e as feridas que uma guerra deixa abertas mesmo depois de anos. Julia investiga a trajetória de Sarah até o fim da Guerra, quando esta é adulta e tenta recompor sua vida. Mas, como esperar o final feliz de uma pessoa que (spoilers!) viu seus pais serem exterminados pela Guerra e, (spoilerzão!!) foi a única responsável pela morte do irmão, que foi uma das mais horríveis imagináveis, morrendo sozinho, com fome e sede, e decomposto dentro de um armário? Esta, para mim, foi a parte mais FODA do filme, que incomoda a gente, que dói, e que não dá pra esquecer. Fiquei mal mesmo com isso, angustiada, e neste momento vi o quanto eu estava envolvida com a personagem. E é por isso que o filme é muito bom e vale a pena.

Na minha opinião,o único pecado da trama foi fazer um esforço tremendo para que Julia tivesse um final feliz, tornando-o um tanto forçado. O casinho de amor comprado do final tenta amenizar todo o sofrimento pelo qual passou Sarah, como se o final feliz de Julia de certa forma até justificasse tudo o que aconteceu. Para mim, ameniza a gravidade da Guerra, que nunca deveria ser amenizada. Mas de qualquer maneira, o conjunto do filme é bom, bem feito e emocionante.

Feeling: filme de Guerra, vá preparado para sentir o sofrimento da humanidade. Um dramão muito bem feito, envolvente e com uma perspectiva original, vale a pena para quem gosta do gênero.

Esses amores (Ces amours-là, 2010)

agosto 23, 2011

Um, dois, três, quatro, cinco amores. Muitos amores, muitos personagens, muito pouca habilidade em definir um foco.

Por Alessandra Marcondes

Esses Amores é um filme de Claude Lelouch, um diretor que eu particularmente não conheço, mas ouvi falar por aí – ou melhor, li no blog da própria distribuidora do filme, cof cof – que adora misturar vários gêneros em seus filmes. Fato importante, explica muito sobre este filme, e sobre o que vou falar por aqui. Como não conheço a obra de Lelouch, me restrinjo a falar do filme pelo que ele é. E já adianto que o resultado é ruim.

Em cena temos Ilva (Audrey Dana), uma jovem de belos cabelos ruivos que se apaixona facilmente. Vivendo em uma França em plena Segunda Guerra Mundial, consegue se apaixonar por um oficial nazista que quase matou seu pai (!) e, depois, por dois soldados norte-americanos ao mesmo tempo. Fora eles, temos o seu pai, um projetista de cinema interpretado por Dominique Pinon; seu namoradinho francês que se torna rapidamente ex; o advogado que a defende desde o início do filme no tribunal por um crime que só desvendaremos ao final; a judia por quem tal advogado se apaixona no campo de concentração alemão; um casal de músicos que vive cantarolando pelo caminho da moça, não se sabe ao certo por quê. Ufa! O filme tenta dar conta do background de CADA personagem, sem nos poupar ainda de detalhes sobre o contexto histórico, passando lentamente por cenas de guerra e acontecimentos ligados a elas. Ah, misture à receita um monte de referências metalinguísticas ao cinema, e pronto! Temos um filme longo, confuso, e indefinido.

A ‘confusão’ dos fatos não é de todo ruim: faz você se esforçar para amarrar cada ponto da história, mas não deixa nenhum deles soltos – pelo menos eu não percebi. Mas várias cenas poderiam ser facilmente cortadas da história, totalmente desnecessárias, servindo só pra cansar a gente na cadeira. Faltou foco. Faltou norte. Me peguei pensando no que eu iria jantar depois da sessão em alguns momentos.

Isso se deve – e muito – à mistureba de estilos. O filme não sabe se é drama, se é comédia, se é romance ou musical. Não liga. Não dá tempo de sofrer pela brutalidade da guerra, pois logo depois somos levados ao meio de uma roda de dança frenética e feliz entre quem estava sofrendo há minutos atrás. Nem dá para nos apegarmos a uma história de amor ali, já que nossa protagonista cada hora está com alguém e – convenhamos – não parece sofrer nem se importar muito com nenhum deles, pelo menos com este aceleramento dos fatos. E também não é uma ou duas cenas que parecem ter saído de um musical da Broadway que vão tornar o filme uma comédia cheia de purpurina.
Então, lhe pergunto: o que raios é Esses Amores?

No mesmo blog que citei lá em cima, li que a intenção do longa era ser uma ‘síntese’ da carreira do diretor, uma homenagem ao cinema, etc e tal. Pois bem: do mesmo jeito que fiquei magoada com Lars Von Trier, pois ele não tinha o direito de fazer eu engolir guela abaixo o controverso “Anticristo” só porque andava depressivo, acho que esta maçaroca de acontecimentos e gêneros só faz sentido e é legal para o seu criador – e no máximo para a mãe dele, vai saber.

Entre umas 600 cenas, têm umas dez que valem a pena. A atuação de Audrey Dana até que salva, coitada. Mas achei todo o resto bobinho. A menina mal se revolta quando descobre (spoilers!) que os próprios amigos da família mataram seu pai. WTF?! E os clichês? Se apaixonar por um negro e um branco ao mesmo tempo, transformar o negro em bonzinho e o branco em mau e levá-los para a boate “Black & White”. E todos os ‘maus’ se dando mal (o nazista, o boyzinho) e os bonzinhos se dando bem (o advogado, o ex-namoradinho), e a ceninha forçada da música de ‘amor’ improvisada do final… Não acreditei em nada daquilo, não mexeu com meus sentimentos, não serviu pra muita coisa. Tipo comédia romântica de Hollywood, sabe? Um filme fácil, com final fácil, e também fácil de esquecer.

Feeling: vá sem esperar grande coisa. A história é ok, mas bobinha, e tem que ter saco pros vários vai-e-vem entre personagens e tempos diferentes. Vá se não tiver nada melhor passando, ou se as outras salas estiverem esgotadas – que foi o meu caso.

PS: fui na pré-estréia, o filme só entra oficialmente em cartaz no dia 26 de agosto.

Bastardos Inglórios (Inglourious Basterds, 2009)

janeiro 11, 2010


Por Alessandra Marcondes

Uma grande vingança. É assim que digeri o filme Bastardos Inglórios, o último super-novo mas não tão novo assim de Quentin Tarantino. Ao som de uma música nervosa, o trailler já dá a dica: assistiremos a quase 2 horas e meia do queridinho Brad Pitt arrancando os escalpos das cabeças nazistas (ou o ‘cucuruto’, no bom e velho português) como quem separa gordura da carne tentando ser light. Acostumada com o banho de sangue tarantinista, preparei meu estômago e esperei encontrar aquele cineasta que eu já conhecia, o mesmo de sempre. Não encontrei, e gostei.

Tarantino cresceu, meus caros. A começar pela primeira cena, percebemos a evolução: não é preciso tanto barulho para passar um nível desesperador de tensão a quem assiste. O diálogo de abertura acontece entre um fazendeiro pai de família e o coronel Hans Landa, que foi até a casa para averiguar se ele não estava escondendo judeus por lá. A cena crua não se apressa a terminar, mas não dá nenhuma dica certa de qual será o desfecho. É um jogo de pique-esconde eterno entre o que acontece na tela e as indagações do espectador, e a dosagem dos fatos sendo revelados é cuidadosamente calculada para manter a curiosidade de todos. Quando descobrimos que os judeus estão sob o assoalho, achamos que seu protetor não vá entregá-los; quando o coronel tem Shosanna em sua mira, acreditamos fielmente que ele vá matá-la; assim como na cena da taverna, é impossível que a atriz Bridget Von Hammersmark não convença a nós mesmos que tem compaixão pelo soldado que acabara de se tornar pai de gêmeos. E por aí vai…

Os mais cricris vão falar (ou já falaram) que está errado tratar um tema como a Segunda Guerra mundial, que trouxe sofrimento a tantos, de maneira engraçada. Já para os fãs de carteirinha, Tarantino se perdeu nos diálogos e nas cenas paradas, faltando a sensualidade de Uma Thurman e o deus-nos-acuda de porradaria e referências pop. Que seja. Não vi em momento algum povos sendo desrespeitados pela película, e a criação de personagens bastante caricatos e sarcásticos, para mim, foi exatamente o que proporcionou um resultado brilhante sobre um tema que já andava tão batido. Aliás, nos pegar no pulo enquanto nos divertimos frente a cenas de horror não é nenhuma novidade: alguém se lembra da cena de tortura de Cães de Aluguel?

O mais importante é que Tarantino ainda está lá, na cenografia exuberante da noite de estréia no cinema de Shosanna, no cuidado com os movimentos de câmera e no uso das músicas de faroeste que já marcaram bastante Kill Bill, mas que também se encaixaram muito bem aqui. Li vários elogios sobre a atuação espetacular de Christoph Waltz (que interpreta o coronel nazista Hans Landa) – e sim, ela é tão espetacular que, até agora, sinto pavor do rosto frio e cruel do assassino de judeus. Mas também destaco no mesmo patamar a caracterização de Brad Pitt na pele do tenente Aldo Raine, um sujeito debochado, sincero e de sotaque carregado que me fez rolar de rir fingindo ser da Itália enquanto arranhava um péssimo italiano. A parisiense graciosa Mélanie Laurent também foi excepcional no papel de garota inocente-mas-não-tanto que decide se vingar dos culpados pelo extermínio de sua família. Que time, hein?

A história é de ficção e se inspira nos fatos reais para seguir uma trajetória diferente. Certos detalhes merecem atenção, como o fato de justo os americanos tomarem as atitudes mais drásticas na película, enquanto na real Segunda Guerra eles foram os últimos a sujar as mãos. Também pode ser considerada uma grande homenagem ao cinema, não só por causa dos recursos metalingüísticos, mas pela maneira de constituir seu final: usar o cinema para dar cabo a um evento de tamanha importância como a guerra mundial mostra o envolvimento da sétima arte com as questões históricas, detalhe que passa desapercebido em roteiros ‘bobinhos’ de ficção hollywoodianos. E ainda digo que a arrogância de Tarantino em mudar o percurso da história (a queda do Partido Nazista e as mortes de seus componentes seguem um enredo totalmente diferente do real em Bastardos) foi a cereja do bolo neste filme: que atire a primeira pedra quem nunca desejou infernizar a vida de um cara como Hitler e explodi-lo dentro de um cinema junto com todos os torturadores daquela época. Muito obrigada, fomos vingados.

Direção: Quentin Tarantino
Duração:
153 minutos
Gênero: Drama/Guerra
Elenco: Brad Pitt, Christoph Waltz, Mélanie Laurent, Eli Roth, Diane Kruger

Tempos de Paz (Tempos de Paz, 2009)

agosto 17, 2009

temposdepaz

Por Bruno Pongas

O cinema nacional vem ganhando novos ingredientes a cada ano. Um novo ator promissor aqui, uma obra inteligente acolá… tudo isso em meio às baboseiras de sempre, como Se Eu Fosse Você, por exemplo. Citei a comédia estrelada por Tony Ramos por dois motivos: primeiro porque o filme que irei resenhar também conta com o ilustre ator no elenco, e segundo porque o diretor das duas obras é o mesmo: Daniel Filho.  Falando nisso, andei lendo algumas críticas positivas sobre o novo longa internet afora, mas, como só acredito vendo, precisei ir ao cinema para checar o trabalho do cineasta. Hei de confessar que me surpreendi um bocado. Pois é, caros leitores; Tempos de Paz, que passa bem longe de ser uma obra-prima (vale dizer), também é facilmente o melhor trabalho na cinebiografia de Daniel Filho.

O longa é inspirado na obra teatral Novas Diretrizes em Tempos de Paz, de Bosco Brasil. À grosso modo, a história se passa no final da Segunda Guerra Mundial, quando europeus iniciaram um processo migratório para outros países. No Brasil, o governo Getúlio Vargas impunha barreiras contra a possível vinda de adeptos do nazi-fascismo para cá. É nesse contexto que há o embate entre Clausewitz (Dan Stulbach) e Segismundo (Tony Ramos). O primeiro tenta entrar no país alegando ser agricultor, enquanto o segundo tem que interrogá-lo para identificar possíveis tendências nazistas. Nos palcos, a dupla principal era a mesma, o que explica a química entre as personagens. Além disso, a parceria ajudou na hora de transpor a linguagem teatral para a cinematográfica. Isso, aliás, o diretor faz com bastante competência, sempre auxiliado por uma trilha sonora honesta, simples e eficiente.

Um dos pontos chave da trama é o roteiro. Posso afirmar que ele é bom e ruim ao mesmo tempo. Bom porque deixa poucos furos. A história, que é pouco extensa por si só, podemos dizer que é bem contada e vai ganhando alguns contornos bem vagarosamente – o que é interessante. Por outro lado, a subtrama que envolve o médico em busca do seu ‘carrasco’ é falha e muito pouco aprofundada. Daniel Filho (que por sinal interpreta o médico) poderia ter construído melhor essa parte, pois para o espectador ela fica como uma mera paisagem, apenas para agregar alguma coisa extra à história.

Tais erros, no entanto, ficam bem pequenos se comparado ao desempenho pungente dos atores. Falo aqui especialmente de Dan Stulbach – para mim uma das melhores figuras da dramaturgia nacional. Sou fan confesso de seu trabalho, desde os tempos das raquetadas na bela Helena Ranaldi (acho que todos lembram dessa, certo?). Na pele de Clausewitz, Stulbach é um show em cena. Sabe utilizar a linguagem teatral e adaptá-la de maneira magnífica. Seu personagem, destacado pelo sotaque inconfundível, é inocente e carismático, daqueles que vivenciou horrores de uma guerra sem perder a alegria e os encantos da vida. Tony Ramos, por sua vez, também agrega bons elementos ao impiedoso Segismundo – aquele que sempre seguiu ordens de seu padrinho. Seu grande erro, ou talvez falha mesmo, é ser parecido com todos os outros personagens de sua carreira. Sempre os mesmos trejeitos, sempre as mesmas caras e bocas… ver Tony Ramos em cena passa algo como: “eu já vi isso antes em algum lugar”. Acho ele ótimo ator, mas com pouca capacidade de ‘metamorfose’, podemos assim dizer.

Tempos de Paz é um filme recomendável, embora seja teatral por natureza. Transformar uma obra dessas em cinema faz com que ela perca muitos elementos exclusivos do teatro. Ainda assim, Daniel Filho consegue adaptá-la de uma maneira competente, sendo muito fiel ao texto original e sem inventar modismos desnecessários. Por fim, posso dizer que a trama vale mesmo pelo embate entre dois ótimos atores com seus personagens muito bem aprofundados e conflituosos.  Para os cri-críticos, algumas falhas técnicas saltam aos olhos (a maioria delas, na verdade). Reparem nos efeitos especiais… de péssima qualidade! Mas isso já é outra história…

Minha Nota: 7.0

Direção: Daniel Filho
Gênero: Drama
Duração: 82 minutos
Elenco: Tony Ramos, Dan Stulbach, Daniel Filho, Louise Cardoso, Aílton Graça, Anselmo Vasconcelos, Leonardo Thierry, Maria Maya, Bernardo Jablonski e Felipe Martins.

A Espiã (Zwartboek, 2006)

agosto 12, 2009

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Por Bruno Pongas

Fazendo a conta para dados recentes, a partir de A Lista de Schindler diversos filmes com a temática Segunda Guerra Mundial/Nazismo foram jogados no mercado. Alguns de ótima qualidade, outros nem tanto. O assunto sofre de tal desgaste que recentemente o cineasta Bryan Singer também resolveu fazer seu longa ambientado na época, só que com um porém: falado em ingês. Alguém deve estar se perguntando: ué, mas como um filme que fala de nazismo e é ambientado dentro dos quartéis da SS pode ser falado em inglês? Pois bem, essa dúvida ninguém sabe ao certo responder, mas é fato que o resultado até que ficou razoável.

Paul Verhoeven é holandês, experiente e com uma série de sucessos de mercado no currículo. Entre eles, o famoso Robocop Instinto Selvagem, com a sensual Sharon Stone. O cineasta, que nos últimos anos se tornou figurinha carimbada em hollywood, já dirigiu bons filmes em sua fase holandesa – um grande exemplo é o polêmico Sem Controle. No entanto, depois de tantos anos fora do mercado europeu, poucos acreditavam que ele poderia produzir novamente um excelente filme cult. Longe de ter a capacidade de um A Vida dos Outros, por exemplo, mas ainda assim muito bonito, bem feito e com umas sacadas bastante inteligentes (a do chocolate com a insulina, por exemplo).

O diretor volta à sua terra natal e conta a história de Rachel (Carice van Houten) , uma judia holandesa que vê sua família morrer pelos nazistas quando tentavam fugir para a Bélgica. Depois do trágico ocorrido, ela se junta à resistência holandesa contra os germânicos. O enredo ganha novos contornos quando um abastecimento de armas que chegaria para a resistência é descoberto; com isso, os membros que faziam parte do carregamento ficam sob custódia no quartel general nazista. É aí que entra a personagem de Rachel, que recebe nova identidade (Ellis de Vries) e se infiltra entre os germânicos com objetivo de seduzir o oficial maior Ludwig Müntze (Sebastian Koch).

Ao mesmo tempo em que conta uma bela história, Paul Verhoeven jamais deixa de lado sua veia hollywoodiana. O cineasta dirige suas cenas com um estilo próprio: faz um retrato de forma agitada, cheio de reviravoltas, cenas eletrizantes, fugas, tiros – tudo aquilo que as grandes massas adoram. Ainda assim, foi capaz de criar um drama competente, que se foca no sofrimento de sua personagem principal – sem nada na vida, traída, enganada… desta maneira, Verhoeven agrada a todos: aos partidários do estilo Duro de Matar e aos que gostam de um drama bem contado e inteligente. Além disso, faz uso da música – no melhor estilo hitchcockiano – para criar um ótimo suspense em cima do destino das personagens e dos acontecimentos subsequêntes.

Falando neles, quem rouba o longa para si é a ainda jovem holandesa Carice van Houten. A atriz tem um desempenho pungente e literalmente enche os olhos em cena. Carice aproveita a profundidade de sua personagem para executar um ótimo papel, ora transparecendo o drama de uma menina que sofre muito com a Segunda Guerra Mundial, ora sabendo usar todo o seu charme para seduzir o principal oficial nazista. A jovem ainda é bem sucedida em demonstrar seus conflitos internos, desde a perda de seus pais, até participar da resistência e se apaixonar por um inimigo.

A ausência de marketing em cima da trama fez com que ela ficasse pouco tempo em cartaz nos cinemas por aqui – uma pena. O filme se insere dentro de um gênero saturado, mas mesmo assim consegue se destacar por ter uma história muito bem contada. Talvez pudessem ter cortado um pouco do final, já que ele se estende sem muito propósito. É bem verdade que a maior parte das reviravoltas ficam para os minutos derradeiros, mas creio que elas poderiam ter sido condensadas em menos tempo. Há também alguns erros históricos por parte de Paul Verhoeven, que parece ter tomado pouco cuidado nesse quesito. Um deles, por exemplo, acontece logo após o término da guerra, quando nos é mostrado os QG’s nazistas ocupados pelos aliados – uma inverdade. Errinhos à parte, A Espiã é mais um belo trabalho vindo do cinema europeu. Me impressiona a regularidade vinda dos filmes de lá…

Minha Nota: 8.5

Direção: Paul Verhoeven
Gênero: Drama/Guerra/Suspense
Duração: 135 minutos
Elenco: Carice van Houten, Sebastian Koch, Thom Hoffman, Halina Reijn, Waldemar Kobus, Derek de Lint, Christian Berkel, Peter Blok, Michiel Huisman e Ronald Armbrust.

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