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Ela (Her, 2013)

março 24, 2014

HER

Por Alessandra Marcondes

O filme Ela, um dos indicados ao Oscar 2014 (concorreu nas categorias melhor filme, trilha sonora, canção original e design de produção e levou a estatueta por melhor roteiro original) poderia ser um grande clichê sobre os males da vida moderna, passando pelo excesso de conexões via dispositivos que resulta em um grande vazio, pela reflexão de como estamos cada vez mais conectados e menos felizes ao mesmo tempo. Tá bom, o filme trata sim disso tudo em seu conjunto. Mas não o faz de maneira clichê, e o foco da trama é outro: o amor.

Theodore (Joaquin Phoenix) é autor-fantasma de cartas encomendadas por todo tipo de pessoa destinadas aos seus entes queridos, tipo serviço de tele-mensagem, só que mais personalizado. Só de ver algumas fotos do casal e ler um pouco sobre a descrição da pessoa amada, ele consegue compor uma bela mensagem de amor carregada de sentimentos que, na verdade, não são seus. Mas Theodore, na vida real, vive um momento complexo pós-separação e sofre o vazio deixado pela perda de seu próprio casamento. E é neste contexto que lhe é apresentado um sistema operacional de inteligência artificial personificado na figura de Samantha (Scarlett Johannson).

Samantha passa a ser a mais fiel companheira da rotina de Theodore e, bem mais inteligente do que a Siri ou qualquer comando de voz que a gente conheça hoje em dia, transcende o papel de secretária organizadora da sua agenda para fazer as vezes de amiga e namorada. E é aí que entraria a parte mais ‘bizarra’ da história, mas o roteiro evolui de uma forma tão natural e a relação do casal se faz tão sincera que passa a ser extremamente normal para quem assiste o fato de um romance ser estabelecido entre um ser humano, de carne e osso, e um sistema computadorizado. Samantha e Theodore vão se conhecendo aos poucos, apresentando seus mundos um para o outro, falando bobagem até tarde pelo telefone, dividindo suas dúvidas e seus anseios, assim como qualquer forma de relacionamento que a gente conhece. E aí que o roteiro dá uma sacudida em nossas próprias convicções: a partir do momento que nos relacionamos através de interfaces e que todo tipo de dispositivo se faz cada vez mais presente, o que é abstrato e o que é real? Se o sentimento existe, como explicar que um relacionamento com uma inteligência artificial seria menos real do que com outra pessoa, ainda mais considerando que, já que o sentimento parte de ambos, esta relação também não está livre de males do amor como o ciúme, a posse, a indiferença e o fim?

Joaquin Phoenix transmite belamente a transição emocional entre uma separação e um novo amor.

Joaquin Phoenix vive em “Her” a transição emocional entre uma separação e um novo amor e emociona.

A forma como Samantha se mostra encantada por coisas ‘simples’ do universo, como a praia ou a sensação de correr no meio de uma multidão, também deixa a sugestão sutil de como nós, humanos, estamos nos tornando apáticos. E quando somos apáticos em nossa rotina cada vez mais individualista, nos tornamos também desinteressantes uns para os outros. Desinteressantes ao ponto de uma voz amiga, emocional e apaixonada se mostrar mais interessante do que pessoas de carne e osso, independente dos desafios multidimensionais que esta relação teria como consequência. Claro que a dependência de dispositivos e conexões nasce de muitos problemas emocionais e tensões internas que nós mesmos vivemos, e ela em si acaba causando outros mil tipos de psicopatologias relacionadas à frustração, ansiedade etc, mas será que toda essa tecnologia também não é capaz de agregar valores positivos à nossa existência?

Embalado pela trilha-sonora minimalista do Arcade Fire – que cai como uma luva para este futuro não muito distante – o romance entre Samantha e Theodore convence mais do que muitos outros que já vi na telona, mesmo que Johannson não entre em cena em nenhum momento. O mérito disso, aliás, se concentra nas expressões totalmente emocionais de Phoenix, que passa do olhar melancólico ao sorriso ingênuo com facilidade e leva o filme praticamente sozinho, e na voz encantadora de Johannson que, mesmo não se materializando (que desperdício?), é peça-chave para desenhar esta bela relação que convence.

Por fim, “Ela” nos lembra como amar pode ser intenso, poético e arrebatador, independente das barreiras envolvidas. Em um mundo com tantos preconceitos embutidos, em que se recrimina amor à distância, amor entre pessoas do mesmo sexo, amor entre diferentes classes sociais ou [insira qualquer tipo de amor aqui] o longa ensina um pouco sobre a simplicidade deste sentimento. Ensina que nem toda relação sobrevive a todas as dificuldades, mas ainda assim pode resultar em um conjunto de belos momentos. Pode tirar do poço e fazer esquecer o sofrimento intrínseco à nossa existência, e tirar do poço pessoas como Theodore. Pessoas como eu ou como você.

Adaptação (Adaptation, 2002)

abril 2, 2009

Susan muda de opinião sobre John Laroche à medida que conhece o mundo apaixonante das orquídeas raras.

Susan muda de opinião sobre John Laroche à medida que conhece o mundo apaixonante das orquídeas raras.

Por Alessandra Marcondes

Adaptação é um filme complicado, confuso, com muitas informações inseridas na trama e também por trás das filmagens – por isso, mais difícil ainda escrever a respeito dele. Mesmo assim, a gente dá um jeito:

Um livro: “O Ladrão de Orquídeas”, publicado nos Estados Unidos em 1988.
Sua autora: Susan Orlean, jornalista, que manteve contato com seus personagens para escrever suas histórias. 
Um roteirista: Charlie Kaufman tem a tarefa de adaptar o livro “Ladrão de orquídeas” para a telona.
Tais fatos são reais; o livro existe, trata da imersão da jornalista no mundo das orquídeas raras e, Charlie Kaufman, para quem não conhece, é o ganhador do Oscar de Melhor Roteiro Original por Brilho Eterno de uma Mente sem Lembranças.

Já o filme trata das dificuldades que Kaufman enfrenta para adaptar “O Ladrão de Orquídeas”, por esta ser uma obra basicamente descritiva, que engloba diversos casos ao mesmo tempo, sem um enredo linear. Porém, em Adaptação, o roteirista tem um irmão gêmeo, e a escritora tem um caso com o ladrão de plantas John Laroche – fatos fictícios. Como se tratam de personagens reais e Nicolas Cage dá vida a um Charlie problemático e brilhante, que condiz com o esteriótipo de genialidade cult impregnado em nossas mentes, impossível para o espectador não se convencer da legitimidade dos fatos apresentados. Mas se em Quero ser John Malkovich a direção de Spike Jonze utiliza circunstâncias surreais para criticar a obsessão por personalidades famosas, seu toque especial em Adaptação é mesclar ficção e realidade a todo momento, sendo possível somente para quem dedica atenção total a cada um dos 114 minutos de filme compreender a história.

O longa tem alto potencial informativo. Ao mesmo tempo em que critica a indústria hollywoodiana e suas incontáveis histórias óbvias, aborda a tarefa utópica de ser fiel à obra original quando esta é adaptada por uma arte de natureza distinta, trata do envolvimento anti-ético entre pesquisador e objeto analisado, e ainda passa a lição (seja “de auto-ajuda”, como li em crítica, ou não) de que o sentimento que procuramos para dar sentido às nossas vidas é inalcançável, pois a insatisfação do homem moderno está muito acima dos obstáculos em se conseguir dinheiro, paixões ou orquídeas-fantasma. Susan (interpretada por Meryl Streep) se encanta com o mundo de apaixonados por orquídeas, nos promovendo uma trama sensível e instrospectiva, combinada com belas imagens florais – sem deixar de lado o diálogo emocionante sobre as espécies de insetos que se encaixam perfeitamente com certos tipos de plantas, conspirando para a manutenção do universo. Na outra ponta, utilizando-se muito bem da voz em off, Charlie Kaufman narra hilariamente o fluxo de consciência de um fracassado, meio careca e meio gordo, sem idéias para iniciar um roteiro, e sem jeito nenhum para lidar com as mulheres.

Temos então um filme inteligente e original, que proporciona as mais diferentes sensações em meio ao enredo marcado de estranhezas – como a utilização de cenas dos bastidores de Quero ser J. M., por exemplo. Charlie Kaufman só queria fazer um filme sobre flores, sobre o sentimento maravilhoso de admiração que elas transmitem, sobre seu poder, sua beleza e todas as coisas do universo interligadas. Mas sua crise criativa fez com que pedisse ajuda para seu irmão Donald, de idéias fáceis e massificantes, para dar um final à sua obra. O que acontece então? O filme descamba, temos uma sequência final que mescla tráfico de drogas indígena, casos secretos entre a madame e o caipira, perseguições e assassinatos. Admito que não era o que eu esperava. Mas o nome de Donald Kaufman – personagem irreal, lembra? – aparecendo como co-autor do roteiro nas sinopses oficiais de Adaptação dá uma dica do efeito metalinguístico meio bizarro que os autores pretendiam. Como se fosse uma briga entre dois mundos dentro de uma única pessoa, a obrigação de ser original misturada à tentação de cair no óbvio. Para quem está familiarizado com Charlie Kaufman e seus finais que ficam suspensos no ar, não há surpresas negativas – é só se deliciar.

 Eu queria saber qual é a sensação de gostar
de alguma coisa tão apaixonadamente.

Direção: Spike Jonze
Gênero: Comédia
Duração: 114 min
Elenco: Nicolas Cage, Meryl Streep, Chris Cooper, Tilda Swinton