Archive for the ‘Suspense’ Category

Melancolia (Melancholia, 2011)

agosto 25, 2011

Por Alessandra Marcondes

Melancolia foi um filme que mexeu comigo. Assim como todo filme do Lars Von Trier, confesso. Não é o melhor – nem um dos melhores – dele, ao meu ver. Mas mexeu comigo, e vou dizer por quê:

Melancolia trata de um estado comum aos homens que é difícil de entender, de aceitar, e de consertar. A melancolia é o sentimento de vazio que nos pega de surpresa e sem grandes motivos para existir. Justine (Kirsten Dunst) tem tudo: uma carreira, um homem que a ama, a família e os amigos ao seu redor, e o sonho de grande parte das mulheres, que é um vestido de noiva e todos os rituais que o envolvem. E mesmo assim, é difícil ser feliz. É difícil se importar com os outros, com a moral que nos faz viver em comunidade, com qualquer coisa do universo. É impossível escapar do vazio. É uma figura que vive sem lugar neste mundo, sem  ligação com nada nem ninguém, sem porquê de existir.

Na outra ponta (ou segundo capítulo), temos a irmã Claire (Charlotte Gainsbourg, a mesma de Anticristo), a parte centrada na vida de Justine. Claire é quem cuida incondicionalmente da irmã, mesmo esta não reconhecendo muito seu esfoço, seu carinho. É uma mulher que tem filho, marido rico e uma belíssima propriedade com 18 buracos no campo de golfe, e dá valor a isto tudo. Neste segundo capítulo também somos apresentados ao Melancholia, nome dado a um planeta azul gigante que tem o perigo de atingir a terra e reduzir nosso lindo planeta a poeira cósmica. Os cientistas prometeram que ele só passaria perto da Terra, mas vai saber.

Não sei se gostei deste quê de ficção científica em um filme de Von Trier. Ok, quem sou eu pra falar se existe o risco de outros elementos do espaço atingir-nos ou não? Mas reconheço que a ameaça iminente do planeta tem seu lugar na história. Mostra como a nossa existência pode ser reduzida ao nada, sem podermos controlar. É o perigo que se encontra ao nosso lado todos os dias, seja de ser atingido por um carro, levar um tiro em um assalto, bater a cabeça em uma pedra e se afogar. Sem aviso prévio ou nada que a gente possa fazer, somos reduzidos a uma carcaça sem vida. E de repente, tudo que a gente prezava tanto não tem mais a menor importância.

Refletindo…

Melancolia me fez pensar na questão da morte e de tudo que ela envolve. É divertido notar que o filme trata de um debate capaz de levantar polêmica em mesa de bar: é mais fácil morrer para quem crê em um sentido maior da vida e em tudo que a envolve, ou para quem não vê esperança nem sentido em viver, morrer, ou em elementos como vida após a morte, reencarnação,  existência de extraterrestres, etc? Eu mesma sou da teoria de que a morte é mais ‘fácil’ para quem crê em Deus e no Paraíso, mas talvez a realidade seja o contrário. Justine admite em um momento que não crê que exista vida além da Terra. Mas pra ela o perigo de morrer se apresenta de forma muito menos dolorosa do que em relação a Claire. Posto isto, adorei a cena em que Claire insinua que para Justine ‘é fácil’, afinal, o que ela tem a perder? E Justine responde com ironia: “fácil? é, muito fácil mesmo ser eu”. Não é fácil. Para ela viver é um martírio, uma luta constante contra fios cinzas de lã gigantes amarrados aos seus pés que não permitem que ela se mova. Mas ao mesmo tempo, o universo em si é descartável. Assim como somos descartáveis para o universo, Justine o descarta sem medo nem dor. Em qual lado você preferiria estar?

Outro fato que me remeteu à realidade foi (vem spoiler por aí!) o suicídio do marido de Claire, interpretado por Jack Bauer (cof, cof, quer dizer,  Kiefer Sutherland!). Demonstrou um egoísmo desprezível da parte dele, e sei que as situações são diferentes, mas a sensação de Claire pode ser facilmente comparada à de vovós que de repente perdem o marido, seu companheiro da vida toda, tendo que enfrentar a vida dali em diante de uma maneira bem mais difícil: sozinha. Isso acontece com muita gente por aí, e imagino que seja uma situação tão desesperadora quanto. Ela sabe que a morte pode a encontrar a qualquer momento, assim como Claire, e tem o sentimento cru de que terá que enfrentá-la sozinha.

Não gostei porque…

Principalmente por causa da personagem Justine. Não pela interpretação de Kirsten Dunst, longe disso. Mas não consegui acreditar na personagem, principalmente por suas atitudes antagônicas. Von Trier quer nos mostrar uma personagem triste e vazia, mas se em um momento ela prefere dormir do que estar em seu próprio casamento, em outro se diverte com uma situação totalmente mundana, a de uma limosine que não consegue fazer a curva. Se mostra frágil ao ponto de não conseguir nem tomar banho sozinha, mas vai até a beira do lago no meio da noite para  ‘curtir’ um momento semi-erótico em uma imagem que imita os quadros do renascentismo {alguém sabe qual? Procurei na internet e não achei}. É cruel com a irmã dizendo que seu comportamento é estúpido, mas não se incomoda de encenar uma cabana invisível para proteger o sobrinho. Ou seja: quem é essa mulher? A gota d’água foi insinuar que Justine teria super poderes, sabendo qual seria o final do impasse do planeta, acertando quantos grãos existiam em uma brincadeira boba da garrafa, e com energia azul saindo da ponta de seus dedos. O filme só conseguiu me deixar com raiva dela, e se o restante da narrativa me levou para realidade, estes foram os elementos que me fizeram pensar se eu não estava assistindo a alguma bobagem da astrologia. Tive que ignorar estes percalços para conseguir enxergar a perspectiva geral.

Também achei o vai-e-vem do primeiro capítulo, durante o casamento, exagerados, prolongados demais, cansativos. Ok, ela é vazia, we got it, move on! Tem muito a ver com eu não ter acreditado naquela mulher, mais para desequilibrada do que vazia. Concordo que nada melhor do que as solenidades e os procedimentos burocráticos de uma cerimônia pomposa de casamento para desequilibrar quem já não dá a mínima para circunstâncias sociais – só acho que poderiam ter nos poupado alguns minutos daquilo. Também achei que o roteiro quis dar uma explicação para o surto de Justine apresentando-nos sua mãe, como um cavaleiro do apocalipse, dizendo para a filha parar de sonhar, e se divertir enquanto durar, porque nada é pra sempre. Melancolia não é um sentimento que precisa de um porquê, e por isso que é tão difícil. Juntando todos estes detalhes, cheguei à conclusão de que Justine precisava era de uma boa terapeuta pois era desequilibrada, e não melancólica.

Gostei porque…

De qualquer forma, Melancolia é um filme do qual gostei no geral. As cenas do início me lembraram os Cinemagraphs, fotos que ficam belíssimas no formato de gifs com detalhes sutis em movimento, praticamente como um retrato vivo. A música e a fotografia, mais amaralada no 1º capítulo, mais acinzentada no 2º, cai como uma luva para o tema.

O filme é forte, é drama, e deixa com um nó na garganta difícil de desatar. Deu angústia e medo. Medo de parar de enxergar as cores da vida de repente, ou de enxergar as cores e, mesmo assim, ser punida pelo universo com um desastre repentino, um marido covarde, ou uma pessoa querida que é um peso morto e faz questão de tornar minha vida miserável. Medo do vazio do mundo, que a gente tenta tanto dar um jeito com anti-depressivos, alucinógenos e falsos momentos de êxtase exagerado, mas que por mais que a gente recuse, sempre estará lá.

No final, chorei. I always cry at endings, mas desta vez foi diferente: chorei porque é muito triste aceitar esta falta de propósito em algo que prezo tanto – a vida – e a falta de esperanças para o futuro. A gente luta pra ser mais sustentável, para fazer o bem ao próximo, para marcar nossa existência na história de alguma forma especial. E Lars Von Trier, com este filme, nos diz: Conformem-se. Aqui não há nada, e há muito menos além daqui. Na minha opinião, o diretor foi muito mais feliz neste filme do que em Anticristo, pois foi com Melancolia que ele conseguiu transmitir verdadeiramente o que sentiu durante a depressão pela qual passou (ou, me pergunto: ainda passa, dada a intensidade do filme atual?).

Feeling: é bom, mas não dos melhores de Lars Von Trier. Como todos do diretor, vá a fim de botar a cabeça pra pensar. Se a questão da morte, da psicanálise ou os comportamentos humanos te instigam, você vai adorar. Se não, só passará raiva de Justine e achará o filme ruim.

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Cisne Negro (Black Swan, 2010)

fevereiro 18, 2011

Por Bruno Pongas

Fiquei muito empolgado quando soube da nova empreitada do nova-iorquino Darren Aronofsky. Sua grande carreira, apesar de curta, me animou bastante para esse Cisne Negro, ainda mais depois do excelente O Lutador. Antes de checar o longa nas telonas, no entanto, me deparei com algumas (poucas) críticas que batiam na mesma tecla: falta de originalidade.

De fato, Cisne Negro passa longe de ser original, experimental, ou qualquer coisa que o valha. Sobre isso, deixo aqui uma pergunta para quem se interessar em responder: o que é original nos dias de hoje? Bem, posso citar dois exemplos de filmes que assisti recentemente. Scott Pilgrim Contra o Mundo, de Edgar Wright, traz o universo dos quadrinhos para o cinema de uma forma nunca antes vista. Carregado de referências modernas, temos aqui um bom exemplar de originalidade. Obra-prima? Longe disso…

O segundo vem lá de longe, da Tailândia. Tio Boonmee, que Pode Recordar Suas Vidas Passadas, do experimental e premiado Apichatpong Weerasethakul, tem suas qualidades. A história é interessante, profunda, mas a trama é arrastada, regionalista. É um daqueles filmes, assim como Anticristo, de Lars Von Trier, que pede uma segunda leitura. O experimentalismo de Apichatpong tem seus pontos positivos, mas classificá-lo como magnífico é um tanto quanto exagerado.

Onde eu quero chegar com isso? É simples: nem tudo que é original é bom. É claro que filmes experimentais devem ser olhados com carinho e respeito, pois inovar é difícil, algo realmente para poucos – e bons. Contudo, vivemos num mundo, como eu disse, onde inovar é raridade. Faltam cabeças pensantes? Eu penso de outra forma. Os anos passam, muitos filmes chegam aos cinemas e as fórmulas cinematográficas, aos poucos, se esgotam. Se esgotam por quê? Porque já foram utilizadas por outro, que chupinhou a fórmula de outro, que se inspirou em outro e assim por diante.

Darren Aronofsky ao menos segue fiel às suas características. Em Cisne Negro, vemos muito do que foi visto em O Lutador. É claro que temos temáticas completamente distintas, mas o estilo do diretor é bem semelhante. Deixemos de lado a preferência por dramas familiares, mas falemos da câmera que segue a bailarina Nina (Natalie Portman) durante todo o longa. A câmera por detrás da personagem é a mesma que perseguiu Randy Robinson (Mickey Rourke) há pouco mais de dois anos.

Em Cisne Negro, todavia, o significado disso é mais representativo. Nina, deslumbrada com a chance de protagonizar o clássico O Lago dos Cisnes, começa a ficar paranóica com a presença de Lily (Mila Kunis), bailarina recém-chegada de San Francisco e a quem julga querer roubar seu posto no aclamado espetáculo. O que era pra ser um marco em sua carreira se transforma num pesadelo sem fim. Nina é perseguida em casa pelo protecionismo exacerbado de sua mae e na academia de balé pelo professor perfeccionista, sem falar da veterana Beth (Winona Ryder), que também bota suas manguinhas de fora com o passar da fita.

O suspense psicológico de Aronofsky nos fisga de maneira irresistível, especialmente nos 30 minutos finais – uma verdadeira sequência de tirar o fôlego. A alucinada Nina, outrora frágil e ingênua, mostra aos poucos que é capaz de tudo para se manter no papel principal do espetáculo. Ao espectador, resta a dúvida: o que é delírio e o que é real? A viagem pela demência da personagem de Natalie Portman é divertida e assustadora, nos envolve com a quebra de preconceitos e encanta de forma macabra no ato derradeiro do cisne negro.

Falando nela, Portman está nada menos do que brilhante, muito bem apoiada pelos coadjuvantes Vincent Cassel, Mila Kunis, Winona Ryder e Barbara Hershey. Com um elenco recheado de estrelas e uma trilha sonora mais do que adequada, Darren Aronofsky faz de Cisne Negro (mais) uma obra-prima em sua carreira.

Inverno da Alma (Winter’s Bone, 2010)

janeiro 29, 2011

Por Alessandra Marcondes

O filme me marcou tanto que me senti no dever de voltar a este blog após um hiato de um ano sem escrever sobre cinema. Daí, já conclua: é magnífico, um drama intenso que merece (e muito!) as quatro indicações ao Oscar que recebeu: melhor filme, roteiro adaptado, atriz e ator coadjuvante. Ainda mais mostrando uma vertente não muito valorizada por Hollywood, de um Estados Unidos ‘caipira’, onde miséria e drogas encontram lugar, e com um orçamento tão reduzido: apenas US$2 milhões foram investidos no longa. Para comparar, Preciosa e Guerra ao Terror, os filmes ‘baratinhos’ do Oscar do ano passado, contaram com US$10 e US$11 milhões, respectivamente.

Ree Dolly (Jennifer Lawrence) é uma menina de 17 anos que tem dois irmãos pequenos e uma mãe doente para cuidar. Como se já não fosse difícil o bastante, seu pai, um dos traficantes de drogas da região, sai da cadeia sob fiança e dá como garantia a casa da família. Se ele não comparecer ao tribunal para prestar depoimento, a família, já miserável, perde a casa. A partir daí, vemos uma adolescente obrigada a amadurecer antes do tempo com uma responsabilidade do tamanho do mundo nas costas, tentando encontrar o pai a qualquer preço, e lidando com pessoas e situações que muito homem formado preferiria evitar. Como pano de fundo, uma região provinciana onde é papel dos homens cuidar dos assuntos da família, o que fica explícito no momento em que perguntam a Ree: “você não tem nenhum homem para cuidar disto não?”. E ela continua tão durona, indo cada vez mais a fundo em assuntos obscuros, lidando com traficantes da pesada, sem estremecer. A menina de cabelos loiros não tem tempo para ser adolescente, para dar um sorriso sequer. Destaque para a atuação de peso de Jennifer Lawrence, que (de fato adolescente na época das filmagens) transmite sobriedade e um desespero contido, do jeitinho que tinha que ser. É uma lição de vida e de superação, e inevitavelmente sacode a gente em nossas vidas confortáveis e faz pensar. É uma luta pela sobrevivência tão sofrida de quem não tem mais o que perder… É o tipo de história que não faz chorar em um final trágico, mas sim em tantos momentos de dor e sofrimento presentes na trama. A sensação de abandono e solidão são desesperadoras, e deixam um nó na garganta dos mais sensíveis até o último dos 100 minutos de filme.

Com o cenário dos Montes Ozarck de fundo, Inverno da Alma é um filme frio, de cores gélidas e cenas silenciosas,  melancólicas. A fotografia é belíssima, e mesmo sem nem uma cena de ação bombástica, sentimos a tensão em cada passo que Lawrence dá colina acima, colina abaixo. Não descansei na poltrona do cinema durante um instante sequer, pois o filme não apela para cenas sanguinolentas, mas o perigo é palpável. Mesmo quando a menina leva uma surra, a violência é muito mais psicológica do que explícita, e tudo é tão… sutil. E falando em sutil, a história se desenrola muito bem, deixando por conta do espectador desvendar com atenção cada mistério. Fica bem claro que o pai da família não é nada do bem, e até mesmo seu irmão, tio da menina, se recusa a ajudá-la de início. Por isso, demora-se a entender que {spoiler! o pai não sumiu de propósito, e sim foi assassinado por “migrar” para o lado bom da força, topando testemunhar e entregar comparsas do crime ao xerife da região}. É como se assumíssemos a pele dela e soubéssemos o mesmo tanto que ela, o que colabora para nos envolvermos ainda mais com a personagem.

Mais um ponto positivo é que o filme conta a realidade ‘caipira’ dos Estados Unidos, tão ‘distante’ e propositalmente esquecida, mas sem estranhamento nem preconceitos. Ali são retratadas particularidades provincianas, como a tradição familiar e o peso de um sobrenome, muito bem embaladas por uma trilha sonora meio folk, meio country (me perdoem se a classificação não está correta, pois não entendo muito do gênero) que se encaixa com perfeição. Para ser o mais fiel possível à realidade, a diretora Debra Granik viajou diversas vezes para entrevistar moradores de comunidades rurais do Missouri sobre seu modo de viver, suas dificuldades e sua relação com o mundo. Muitos locais tiveram participação ativa no filme, inclusive as duas gracinhas que interpretam os irmãos de Ree (Isaiah Stone e Ashlee Thompson) e a senhora que aparece cantando em uma roda de country esta música aqui (o nome dela é Marideth Sisco, e também aparece neste vídeo aqui) .

Não há melhor forma de contar uma história do que ouvi-la primeiro, e por isso Granik se destaca entre tantos diretores de ‘cinema fácil’ hollywoodiano. Ela fez questão de ouvir a história de quem não costuma ter voz, e contá-la para aqueles que nem sempre estão dispostos a ouvi-la. E é isso o que torna tão excepcional esta produção independente que, mesmo sendo redondinha, não vai ganhar o Oscar, mas tem todo o mérito por ter chegado até lá.

Way down in Missouri where I heard this melody
When I was a little fellow on my mommie’s knee
The old folks were humming the banjos were strumming so sweet and low

Harry Potter e as Relíquias da Morte: Parte I (Harry Potter and The Deathly Hallows: Part 1, 2010)

dezembro 3, 2010

Por Bruno Pongas

Harry Potter perdeu toda a magia de Hogwarts e também sua infantilidade. A tradicional escola de bruxos sequer aparece no sétimo filme da franquia. As mágicas, no entanto, continuam lá, mais sombrias do que nunca, seguindo a linha de Harry Potter e o Enigma do Príncipe.

O fato é que Harry Potter deixou de ser um filme para crianças e adolescentes e se tornou uma obra para gente grande. Jovens atores, como Daniel Radcliffe, Emma Watson e Rupert Grint, cresceram e agora atuam como adultos.

Adultos esses que enriquecem e muito a trama. David Thewlis, Timothy Spall, Ralph Fiennes, Jason Isaacs, Imelda Staunton e, sobretudo, Helena Bonham Carter e Alan Rickman, colorem o filme de maneira especial. Cada um encanta à sua maneira. O sadismo de Bellatrix Lestrange é incomparável, assim como a frieza de Severus Snape e o medo de Lucius Malfoy.

A trama sombria ainda dá espaço para momentos lúdicos, como a dança de Harry e Hermione, e tristes, como a morte do elfo Dobby – de longe uma das cenas mais bonitas da série. Em meio a tristezas e alegrias, destaque para os cenários e paisagens caprichados. Belos rios, montanhas, florestas – um show à parte.

O roteiro de Steve Kloves é um dos pontos fortes do longa. Kloves vai muito bem ao adaptar apenas metade do sétimo livro. Ele é fiel à obra original na medida do possível e corrige alguns erros do filme anterior, como a falta de momentos tensos, por exemplo. Aqui, temos suspense de sobra e até alguns sustos que podem pegar desprevenidos os espectadores menos avisados.

Steve Kloves também soube dar um ponto final à trama na hora certa. É claro que fica aquele gostinho de “quero mais”, mas o momento escolhido para encerrar o filme foi perfeito. Além disso, ele acertou ao evitar introduzir a história para aqueles que nunca assistiram Harry Potter antes. No auge do sétimo capítulo, era de se esperar que todos já conhecessem o mínimo sobre o bruxo mais famoso dos cinemas.

Como toda película, Harry Potter e as Relíquias da Morte: Parte 1 também tem seus defeitos, ambos na parte de relacionamentos. No livro, nunca ficou em aberto um suposto clima entre Harry e Hermione, algo descaradamente explícito no filme. Esperava também que Gina Weasley ganhasse um pouco mais de destaque, já que foi bastante explorada durante o Enigma do Príncipe.

Defeitos à parte, Harry Potter e as Relíquias da Morte: Parte 1 é muito eficiente em sua proposta: entreter e deixar o espectador ansioso para o capítulo final da saga, que chegará às telonas cercado de expectativas. Uma pena que a segunda metade demore tanto tempo para entrar em cartaz. A data de lançamento está marcada para julho de 2011.

Minha Nota: 9,0

Avatar (Avatar, 2009)

dezembro 21, 2009

Por Bruno Pongas

Depois de muito tempo ausente por aqui, com outros projetos para tocar e um pouco de falta de tempo aliado a preguiça de ir ao cinema, estou de volta para comentar uma obra que achei maravilhosa e impressionante. Sim, vou falar do blockbuster-megasucesso-de-bilheteria, Avatar.

E James Cameron é um cara engraçado, né? Muita gente fala mal de Titanic, que é brega, que é isso, que é aquilo, mas é outro filme muito bom, à frente de seu tempo em diversos aspectos. Para mim não merecedor de tantos prêmios, claro, mas isso quem deve julgar são os especialistas. Nós, meros blogueiros cinéfilos, apenas brincamos de comentar cinema, e nos divertimos com isso, óbvio.

Mas Avatar é uma experiência como eu nunca antes tinha vivenciado no cinema. Uma técnica exuberante, efeitos especiais de deixar qualquer um boquiaberto e uma trama, querendo ou não, eficiente. Críticos de cinema, por mais que muitos deles tenham estudado para isso, adoram encontrar defeitos onde simplesmente não existem. Falar que o roteiro é fraco? Tudo bem, é um argumento aceitável, pois a história pouco foge da tão desgastada “saga do herói”, em que uma pessoa vem do nada e aos poucos vai construindo um mito ao seu redor até terminar como o grande salvador do mundo.

Só que temos que parar e pensar. Uma coisa é utilizar um roteiro assim e construir uma história chata, pouco interessante, tediosa, arrastada… outra coisa é transformar um enredo simples em algo fascinante, e acho que está aqui o grande trunfo de James Cameron. Um roteiro para ser bom não precisa ter mil reviravoltas e um final imprevisível. Um roteiro bom consegue prender o espectador durante quase três horas na cadeira e fazer com que essa mesma pessoa fique na expectativa e torcendo profundamente para a sorte dos personagens.

Avatar é bem costurado, tem o toque de humor na hora certa, tem o toque de drama na hora certa e é eficiente na hora de distribuir as cenas eletrizantes. A música é bem utilizada, a maquiagem é de outro mundo e os efeitos especiais dispensam comentários. Trata-se de um trabalho moderno, em que o espectador simplesmente imerge naquele mundo cheio de vida e cores. É até triste quando sobem os créditos, pois, como o personagem principal, vivemos toda a experiência intensamente, como se estivéssemos fazendo parte daquela tribo.

Confesso que comprei meu ingresso esperando algo inovador, e garanto que saí do cinema com a certeza de que assisti um dos mais belos e magníficos filmes dos últimos tempos, onde o coletivo se sobressai perante o individual. Ou seja, não há nenhum destaque específico, nenhum ator é melhor do que o outro, simplesmente o conjunto é que se destaca. James Cameron me surpreendeu positivamente; assistiria ao longa mais umas duas ou três vezes com todo o prazer.

O retrato de uma humanidade perdida

James Cameron foi bem cuidadoso na hora de abordar o tema. O retrato ali exposto é semelhante ao que vivemos nos dias de hoje. Vemos potências mundiais brigando desumanamente por jóias raras da natureza, observamos ganância e lamentamos o fato de presenciarmos tudo isso sem a possibilidade  de fazer nada.

É difícil apontar alguma diferença evidente entre a raça humana que invade Pandora e os Estados Unidos, que assolam o Iraque procurando petróleo. Há pouca diferença entre os seres humanos do filme e os seres humanos de cérebro pequeno que arquitetam um jeito de se infiltrar na amazônia brasileira.

Mas ao pensar bem, talvez haja alguma diferença. No mundo real as coisas são feitas apoiadas em desculpas esfarrapadas. O Iraque foi invadido sob a ideia de depôr a sanguinário ditador Saddam Hussein. Verdade? Mentira. Querem colocar bases militares na Amazônia para controlar o narcotráfico. Verdade? Mentira! As grandes potências apoiam Israel numa guerra religiosa onde ambos têm razão. Para tudo há um jogo estúpido e ganancioso de interesses.

Avatar realmente tem uma história que pode ser considerada clichê, mas as metáforas ali contidas são muitas. Piedade? Essa palavra não existe no imperialismo. Natureza? Ela não é necessária quando se tem dinheiro. É esse pensamento que rege a humanidade nos dias de hoje. A lógica capitalista faz as pessoas perderem qualquer tipo de discernimento e as torna cegas a ponto de fazê-las passar por cima dos outros sem tomar conhecimento.

Água e vida em outros planetas são constantemente procuradas em investimentos gigantescos. Há dinheiro e ganância de sobra para isso. Quem pensa que o objetivo é apenas desvendar os mistérios do universo está enganado. Há dinheiro em jogo. Tudo que for necessário para obter mais e mais lucro será feito. O ser humano é ingrato com a vida, com a natureza, com tudo. A humanidade está perdida… talvez não caminhe para o fim, como muitos teóricos do apocalipse pregam, mas seu fim moral já está decretado faz tempo.

Ultimamente tenho sido bem generoso com as notas, mas com Avatar é impossível ser rígido; merece nota máxima.

Minha Nota: 10.0

Direção: James Cameron
Duração: 162 minutos
Gênero: Ação/Drama/Suspense
Elenco:
Sam Worthington, Zoe Saldana, Sigourney Weaver, Stephen Lang, Michelle Rodriguez, Giovanni Ribisi, Joel Moore.

Todos os Homens do Presidente (All The President’s Men, 1976)

outubro 20, 2009

Por Alessandra Marcondes

O filme Todos os Homens do Presidente é muito mais do que um clássico de suspense baseado em fatos reais – ele é uma aula muito bem dada de jornalismo investigativo, antes de tudo. Baseado no escândalo de Watergate, incidente ocorrido em Washington em 1972 que resultou na renúncia de Richard Nixon algum tempo depois, o longa mostra a busca incessante de dois repórteres do Washington Post pela verdade dos fatos. A partir daí, o espectador se vê frente a um jornalismo romanceado na pele de Bob Woodward (Robert Redford) e Carl Bernstein (Dustin Hoffman), fiéis a técnicas e valores típicos da profissão, mas que talvez tenham se perdido no tempo – ou até mesmo nunca tenham existido.

Ao notarem que há um esquema complexo de corrupção escondida por trás da invasão à sede dos democratas, os repórteres começam a se empenhar a fundo em descobri-la para mostrar para o mundo, mas os próprios diretores do jornal não acreditam na história. Quando um dos diretores questiona se o Post deveria mesmo insistir em cobrir o caso, já que nenhum outro veículo da época estava dando atenção a ele, já notamos uma das primeiras críticas ao jornalismo. A agenda setting, espécie de valores que norteiam o que é importante para ocupar o espaço dos jornais, já estava presente na época das máquinas de escrever e se configura até hoje, podendo desviar o jornalista de seus objetivos finais.

Ao mesmo tempo, o filme acerta em mostrar o exercício da profissão da forma mais ética possível: os repórteres sempre se identificam como sendo jornalistas diante das fontes, e sempre checam os fatos com mais de uma pessoa para não correr o risco de publicar uma inverdade. Talvez isso que esteja faltando no jornalismo de hoje em dia, quando repórteres e diretores de redação mal têm tempo para checar a fundo as informações, postura que resulta em erros e em falta de credibilidade no jornalismo.
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A dupla de peso Redford-Hoffman dá carisma a este filme longo e difícil – seus 139 minutos são extremamente silenciosos (apesar de ter ganhado o Oscar de Efeitos Sonoros) e não são fáceis de acompanhar, pois envolvem uma infinidade de nomes e cargos políticos dos Estados Unidos da década de 70. Os personagens se completam, sendo Woodward um jornalista ‘novato’ e Bernstein já macaco velho, o primeiro mais calmo e inocente, e o segundo com mais desenvoltura necessária à profissão. É divertido acompanhar os truques que os repórteres utilizam para convencer uma fonte a falar o que sabe, manipulando a situação para que ela se sinta apenas confirmando uma versão já pronta, e não entregando as informações de mão beijada. Também é mostrada a desconfiança das pessoas ao ouvir a frase “Olá, sou jornalista do Washington Post”, mas é preciso admitir que, ao menos no filme, Woodward e Bernstein contam bastante com o advento da sorte.

Todos os Homens do Presidente também tem uma fotografia cuidadosamente elaborada, o que lhe rendeu o Oscar de Direção de Arte: são notáveis os contrastes entre tomadas escuras e claras, representando a verdade dos fatos escondida e a vontade dos jornalistas em encontrá-la. Em todos os encontros entre Woodward e “Garganta Profunda”, sua fonte secreta – e bastante desconfiada – do Executivo, é possível notar a divisão na tela, que dá certo aspecto mítico à presença da fonte. Mas até isto é cogitado pelo filme; quando o relator, que é quase um conselheiro, sugere que o repórter não se intimide com os mitos da Casa Branca, chama a nossa atenção para os próprios mitos do jornalismo, visto que o profissional não está livre de se perder entre o que acha e o que sabe de fato, acreditando cegamente em fontes míticas que também são passíveis de erro.

No final das contas, o filme pune os bandidos graças à insistência e ao empenho dos mocinhos, mas como é baseado em fatos reais – ganhou inclusive o Oscar de Melhor Roteiro Adaptado – dá a impressão de que o jornalismo serviria de termômetro da justiça na sociedade, bastando seus profissionais quererem. Quando chegam por telex as notícias das condenações dos envolvidos no caso, fica ao espectador a lição errônea de jornalismo como Quarto Poder, principalmente com a renúncia de Nixon. Em prol do romance fictício então o filme se perde, ignorando as limitações do jornalismo frente à justiça, e passa uma imagem bela e utópica de uma profissão que, assim como todas as outras, possui defeitos.

De qualquer forma, Todos os Homens do Presidente é um ótimo filme para entender o caso de Watergate e as conspirações que envolvem – infelizmente – a política até os dias de hoje. Quanto ao jornalismo, o longa serve de ponto de partida para um debate mais aprofundado sobre as suas técnicas e o exercício da profissão, mas não basta a si mesmo.

Direção: Alan J. Pakul
Duração: 139 minutos
Gênero: Suspense
Elenco: Dustin Hoffman, Robert Redford, Jason Robards, Martin Balsam e Jack Warden.

Rambo IV (Rambo, 2008)

setembro 1, 2009

Rambo IV

Por Bruno Pongas

O eterno marombado Sylvester Stallone tem dado um gás extra em sua carreira cinematográfica nos últimos anos. Dono de personagens icônicos como Rocky Balboa e John Rambo, o ator e diretor parece estar em ótima forma. Em 2006 reviveu o lendário Balboa num filme bastante elogiado por público e crítica. No ano passado (2008), foi a vez do truculento Rambo voltar às telonas. Aos 63 anos, Stallone corre, pula, mata… faz tudo como se ainda fosse o mesmo jovem de décadas atrás. É claro que sempre haverá uma meia duzia dizendo que sua forma física é mantida através de anabolizantes… pura besteira! Cabe a nós avaliar seu comportamento apenas diante das câmeras.

No quarto episódio da franquia, o impiedoso John Rambo volta mais violento do que nunca. Falando nisso, é bom avisar aos de estômago fraco que Rambo IV possui cenas bem fortes – de dar inveja, inclusive, aos mais sangrentos filmes de terror. Brincadeiras à parte, a nova empreitada do soldado quase-imortal possui alguns prós e muitos contras. Aliás, já que vamos falar mal, é bom iniciar por um ponto chave: os diálogos em alguns momentos chegam a ser risíveis, manjados e nada profundos: “Viva por nada ou morra por algo” (essa foi uma das célebres frases do nosso Confúcio do século XXI).

Os esteriótipos também aparecem com muita clareza no episódio. Temos os soldados maus que matam tudo o que aparece pela frente, os americanos idiotas que se portam como os melhores do mundo, a mocinha que é presa e acaba incentivando a volta do ‘aposentado’ Rambo… e por aí vai. Além, é claro, da previsibilidade do roteiro. Ninguém precisa assistir ao filme para saber o que vai acontecer no final. 

A história por si só é bem fraquinha. O roteirista Art Monterastelli tinha um leque infinito de possibilidades ao retratar o cotidiano vivido pelo povo de Mianmar. No entanto, a falta de cuidado e sensibilidade resultou numa obra rasa e sem o mínimo fim ideológico – o que é uma pena, pois se trata de um assunto ainda pouco explorado pelo cinema. Para piorar, vemos clichês disparados a todo o momento, sem dó nem piedade do espectador, que aguenta firme durante pouco mais de 90 minutos só por causa do bom trabalho de Stallone.

Pois é, caro leitor! Apesar de ser um longa descartável em quase tudo, o veterano Sylvester Stallone até que consegue um resultado interessante (bem acima da média no gênero). Ao optar por fazer um filme curto, Stallone é bem objetivo e prende o espectador durante todo o tempo. Nisso ele acertou em cheio e foi bem inteligente, já que a maioria dos diretores por aí acha que história boa é aquela que demora uma eternidade para acabar. No mais, ele aplica muito bem elementos básicos do cinema – como trilha sonora, por exemplo.

Podemos dizer que Rambo IV tem seus bons momentos. É extremamente frenético, eletrizante e empolga quem está assistindo com propriedade (especialmente nos 30 minutos finais). Fica difícil cobrar uma obra-prima ou algo do tipo. O quarto episódio da saga de John Rambo é mais do mesmo, só que bem mais violento e divertido – tirando o efeito canhestro daquela bomba explodindo no meio da floresta, é claro.

Minha Nota: 7.0

Direção: Sylvester Stallone
Gênero: Ação/Suspense
Duração: 91 minutos
Elenco: Sylvester Stallone, Julie Benz, Matthew Marsden, Graham McTavish, Reynaldo Gallegos, Jake La Botz, Tim Kang, Maung Maung Khin e Paul Schulze.

A Noiva Cadáver (Corpse Bride, 2005)

agosto 25, 2009

noivacadaver

Por Bruno Pongas

Fatidicamente todos devem lembrar do Rei Midas, ou King Midas para os que estudaram a historinha em inglês. Para os que não lembram ou nunca sequer ouviram falar de tal pessoa, o Rei Midas é um famoso personagem da mitologia grega. Sua fama é associada ao ouro: na antiguidade, reza a lenda que as coisas tocadas pelo monarca viravam ouro… impressionante, né? Falei tudo isso com um único objetivo – e se engana quem já está pensando que a fábula da noiva cadáver tem alguma coisa ligada ao famoso rei da mitologia. Muito pelo contrário! Introduzi a pequena história somente para associar sua imagem à de Tim Burton. Por que? É simples! Alguém já viu algum trabalho ruim de Burton? Alguém já viu algum filme dele que tenha sido um fracasso? Acho difícil, afinal, tudo que ele se envolve também vira ouro, ou seja, se torna um grande sucesso.

Bobagens à parte, admiro Tim Burton por diversos motivos. O primeiro porque me identifico bastante com seu estilo. Aquela mescla de alternativo, surreal, macabro e psicodélico me encanta bastante. Segundo porque ele sabe escalar um elenco como poucos (aqui falo também como um fan, já que Johnny Depp e Helena Bonham Carter são dois dos meus atores prediletos). Por fim, fico admirado com sua capacidade de criar fábulas imaginárias extremamente originais e fantásticas, daquelas que você acaba mergulhando completamente como se fosse um mundo paralelo extremamente criativo.

Em A Noiva Cadáver podemos observar todos esses elementos juntos. Temos o alternativo (a história incomum e diferente), o surreal (o mundo dos mortos em paralelo com a terra), o macabro (mortos que andam, cantam e falam como se fossem humanos), o bom elenco (Depp, Bonham Carter, Albert Finney), e por fim, o enredo original. Esse amontoado de qualidades fazem do longa um trabalho interessante. Em aspectos técnicos é praticamente perfeito, tem um roteiro seguro e umas passagens muito divertidas (aquele cachorro Scrubs é genial!). Aliás, Tim Burton é mestre em juntar elementos sombrios com uma alta carga de humor – Sweeney Todd é outro grande exemplo, um musical divertido e aterrador. Para encerrar o ciclo de elogios, a trilha sonora de Danny Elfman é bem elaborada e cai como uma luva no filme.

Há quem diga que A Noiva Cadáver tem uma história boba e sem sal. No entanto, podemos enxergar isso sob óticas distintas. Se analisarmos cruamente, hei de concordar com essa teoria. Aquele esquema de casamento arranjado que desencadeia a vinda de mortos para o ‘mundo real’ é bem simples. Nada comparado à ousadia do assustador Coraline e o Mundo Secreto, por exemplo. Contudo, se pensarmos um pouco, temos a chance de ver o outro lado da moeda. Como assim? Para mim, o grande lance desse trabalho de Tim Burton é a simplicidade. Nem sempre uma trama engenhosa é sinal de qualidade, e fazer o simples, às vezes, é a grande chave do sucesso.

Em nenhum momento a aventura deixa de ser interessante, e algumas passagens agregam muito ao longa (as partes cantadas, por exemplo). O roteiro também tem qualidade, embora pouco se preocupe em maquiar o seu desfecho. No final das contas, A Noiva Cadáver é um passatempo divertidíssimo e um colírio para os olhos (visualmente muito bonito). No entanto, se comparado a obras mais recentes do gênero, como as da Pixar (Wall-E, Ratatouille…) e o já citado Coraline, a fantasia de Tim Burton é inferior. Também pudera, competir com essas é um pouco difícil…

Minha Nota: 8.0

Direção: Tim Burton e Mike Johnson
Gênero: Animação/Comédia/Musical/Terror
Duração: 77 minutos
Elenco: Johnny Depp, Helena Bonham Carter, Emily Watson, Tracey Ullman, Joanna Lumley, Albert Finney, Richard E. Grant, Christopher Lee, Michael Gough, Jane Horrocks, Enn Reitel e Danny Elfman.

Pacto Sinistro (Strangers on a Train, 1951)

agosto 21, 2009

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Por Bruno Pongas

  • Esse texto possui spoilers.

Pacto Sinistro foi um dos grandes sucessos da carreira de Alfred Hitchcock. É verdade que sem o mesmo barulho de Psicose (1960), Um Corpo Que Cai (1958) ou Janela Indiscreta (1954), por exemplo, mas com uma qualidade bastante semelhante a esses trabalhos. A data de 1951 marca o primeiro filme do diretor após assinar com a multimilionária americana Warner Bros. Marca também uma de suas obras mais sinistras e admiráveis. Vale lembrar que nessa época o cineasta já era dono de uma carreira sólida, com alguns clássicos no currículo. Entre eles: Festim Diabólico (1948), Interlúdio (1946) e Rebecca – A Mulher Inesquecível (1940).

Em linhas gerais, a história gira em torno do tenista Guy Heines, personagem que por um terrível azar esbarra com o psicótico Bruno Anthony no trem. Desfeito o mal entendido, ambos iniciam uma conversa estranha. Bruno dá mostras logo de cara que é um maluco, enquanto Guy apenas dá corda à conversa fiada do ‘amigo’. Papo vai, papo vem… o estranho Bruno faz uma proposta ousada ao companheiro: o plano seria o assassinato perfeito. De acordo com o suposto plano, cada um cometeria o crime do outro. Ou seja, Haines teria que matar o pai de Bruno (Sr. Anthony), enquanto Bruno mataria a esposa de Haines (Mirian). O que parecia mera brincadeira é levada a sério por um deles, desencadeando graves acontecimentos.

Como em todos os filmes de Hitchcock, Pacto Sinistro tem uma série de sacadas geniais. A primeira delas acontece logo no início: dois homens aparecem caminhando até o trem. Na tomada, o diretor apenas filma os pés de cada um. Para a nossa surpresa, ambos possuem sapatos completamente distintos – como se revelariam suas respectivas personalidades ao longo da trama. Em outra cena (a do parque) é criado todo um clima macabro: Miriam Haines navega pelo rio junto com outros dois pretendentes; atrás deles, o psicótico Bruno os segue sem pudor. Na passagem da caverna, Hitchcock cria uma das cenas mais legais que eu já vi no cinema. A sombra se aproximando, o grito da mulher… mera brincadeira. O ponto final de Miriam Haines na história é adiado por mais alguns minutos. Há também toda a mística do trem: o meio de transporte é um dos preferidos dos cineastas para cenas de suspense/terror. Os trens, ao mesmo tempo que nos levam a algum lugar, transmitem uma imagem claustrofóbica, como se o mocinho estivesse encurralado, sem saída.

Sacadas à parte, Alfred Hitchcock também é mestre em desenvolver seus trabalhos. Acho impressionante o modo como ele faz tudo ao mesmo tempo: constrói o suspense, desenvolve a história, os personagens, as subtramas… tudo isso com muita qualidade e sem deixar furos. Outros cineastas têm por costume fazer uma parte de cada vez, tornando seus filmes um pouco mais arrastados. Com Hitchcock tudo é ágil, rápido… é raro ver alguém dizer que alguma de suas obras é ‘parada’. Para isso, colabora a trilha sonora de Bernard Herrmann, sempre muito adequada e utilizada nas melhores horas. Em Pacto Sinistro temos uma aula de como usar os efeitos sonoros – que é um dos recursos primordiais do suspense.

Falamos de tudo, mas ainda falta citar os atores… que fantástico é o desempenho de Robert Walker na pele de Bruno Anthony! A personagem goza de um desenvolvimento absurdo, muito bem trabalhado e aprofundado. Bruno é o típico filhinho de papai mimado que nunca teve um pedido rejeitado na vida. Quando cresceu, virou um maníaco, doido, maluco, frio, calculista… tudo que se pode imaginar. Impressiona a sequência do parque, quando logo após cometer um crime, ajuda um cego a atravessar a rua. Que lógica é essa? Como isso funciona? É difícil explicar, mas é um personagem interessantíssimo. Outra cena rica em suspense e extremamente tensa é a do quarto, quando Guy Haines se depara com Bruno em plena cama do pai. Aliás, toda aquela sequência é de deixar os cabelos em pé – dá vontade de adiantá-la no controle remoto para ver logo o que acontece.

O longa também conta com um elenco de apoio respeitável. Aqui, destaco a própria filha do diretor: Patrícia Hitchcock. Ela é o alívio cômico da trama; é desbocada, fala o que quer, garante risadas… ainda por cima é uma das chaves para desvendar o mistério. Mistério esse que é solucionado em outra cena empolgante (reparem na música ao fundo). De volta ao parque, no carrossel, com direito a ‘velhinho’ quase se sacrificando para evitar uma tragédia… aliás, alguém acredita que cavalos inofensivos de carrossel possam dar medo em alguém? Hitchcock de alguma maneira os transforma em diabólicos e assustadores (coisa de gênio).

Por fim, vemos em Pacto Sinistro uma obra completa, com todos os elementos necessários para se montar um grande filme. Obra obrigatória a todos os cinéfilos, especialmente aos que adoram um bom suspense!

Completando a ficha…

  • Para quem é daqueles que gosta de ter os dvd’s em casa, há uma versão recheada de extras interessantíssimos. Um dos mais legais é uma entrevista com o diretor M. Night Shyamalan, autor de obras como O Sexto Sentido e Sinais. O cineasta, fan assumido do trabalho de Alfred Hitchcock, comenta o filme com propriedade – bem melhor do que esse que vos fala. Vale a pena conferir.

Minha Nota: 9.5

Direção: Alfred Hitchcock
Gênero: Suspense
Duração: 101 minutos
Elenco: Farley Granger, Leo G. Carroll, Ruth Roman, Robert Walker, Patricia Hitchcock, Kasey Rogers, Marion Lorne e Jonathan Hale.

Os Pássaros (The Birds, 1963)

agosto 14, 2009

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Por Bruno Pongas

Os Pássaros é daqueles filmes difíceis de resenhar, de conteúdo complexo, diferente, que aborda temas pouco comuns – especialmente para o universo hitchcockiano. Acostumado a romances, suspenses policiais e derivados, Alfred Hitchcock traz a tona nesse trabalho algo completamente novo em sua carreira: o sobrenatural. Pois é! Muito mais do que um exercício de suspense, o clássico de 1963 nos instiga a refletir sobre algo que nunca vivenciamos, sobre o que temos medo e aquilo que jamais desejaríamos enfrentar: coisas do outro mundo. Além de tudo, o cineasta mostrou para o mundo toda a sua criatividade ao brincar com um assunto tabu para as pessoas (assunto esse que gera polêmica até hoje). De quebra, Hitchcock ainda mostrou sua enorme capacidade ao brindar o público com mais um bom trabalho, apenas três anos após Psicose – uma de suas obras-primas.

Talvez a primeira impressão que o longa passe após seu término é: “ué, mas acaba assim mesmo?”. Sim, Os Pássaros acaba de uma maneira estranha, podemos assim dizer, pois o diretor constrói todo um clima de suspense para no final deixar a maioria das coisas por resolver. Para quem gosta de filmes inseridos naquela fórmula básica do começo, meio e fim, é bem provável que esse trabalho de Hitchcock seja decepcionante. Quase caí nessa, confesso, mas depois de pensar um pouco e contextualizar com a época, concluí que o cineasta executou uma grande obra, repleta de pequenos detalhes, bem filmada e assustadora.

Sim, assustadora! Embora muito dos efeitos soem como mera tosqueira (hoje em dia nem assustam mais), é bom lembrar que na época aquilo foi revolucionário, pois Hitchcock sempre esteve muito à frente de seu tempo. Ainda assim, mesmo parecendo infantil e por vezes até risível (nos dias de hoje, volto a ressaltar), o diretor consegue montar um clima dos mais intrigantes, pouco visto antes na história do cinema. O ar sombrio, aliás, ganha contornos mais tenebrosos com a ajuda da ‘trilha sonora’. Entre aspas porque simplesmente há ausência de qualquer tipo de trilhaO diretor, junto com Bernard Herrmann – seu consultor e compositor -, optou por trabalhar a trama sem músicas. Isso já fica bem claro logo no início, quando aparecem os créditos sem nenhum tipo de som além do ruído de pássaros. O filme todo é assim, repleto de ruídos de todos os tipos, o que torna o suspense ainda mais macabro e curioso.

O desempenho do elenco contribui com o ar intrigante e sobrenatural – desde os protagonistas aos personagens menos importantes. Vale ressaltar que, como de costume, Alfred Hitchcock aparece em uma das cenas. É logo nos primeiros minutos, quando ele é mostrado saindo da loja de pássaros com alguns cachorros. Mas como o assunto aqui é outro, alguns atores merecem suas ressalvas. A bela Tippi Hedren está muito bem na pele de Melanie Daniels; algumas cenas suas, como a da cabine telefônica, por exemplo, passam um sentimento claustrofóbico impressionante. Aqui, ela está muito bem auxiliada pela maquiagem, que consegue reproduzir seus ferimentos com uma realidade admirável para aquela época. Acima de Tippi, quem merece todo o destaque é Jessica Tandy. Como Lydia Brenner, Jessica nos entrega uma personagem sinistra, enigmática e indecifrável. Suas atitudes têm pouca justificativa; é uma pessoa confusa, diabólica… sobrenatural, talvez? Para completar o trio, Rod Taylor também merece elogios: na primeira metade como o bonitão convencido e na segunda como o mocinho da história.

O fato é que com Os Pássaros, Alfred Hitchcock se mostra capaz de obter destaque em diversas vertentes do suspense. Dessa vez sem roubos, sem assassinatos, sem vertigem, sem planos mirabolantes, sem nada comum em seu cinema. Talvez isso justifique o sucesso que a obra conseguiu ao longo das décadas, já que além de agregar elementos novos ao mundo hitchcockiano, temos ainda o ótimo trabalho de sempre, como personagens muito bem construídos, um suspense pra lá de amarrado e técnicas de filmagem impressionantes (é perceptível algumas cenas filmadas sem um único corte). Uma obra-prima das mais competentes que o cinema já viu, merecedora de muitos e muitos elogios.

Minha Nota: 8.5

Direção: Alfred Hitchcock
Gênero: Suspense
Duração: 119 minutos
Elenco: Rod Taylor, Jessica Tandy, Suzanne Pleshette, Tippi Hedren, Veronica Cartwright, Ehel Griffies e Charles McGraw.