O Discurso do Rei (King’s Speech, 2010)

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Por Bruno Pongas

Albert Frederick Arthur George, ou George VI, ou simplesmente rei gago. Integrou a escola naval britânica, foi Duque de York – título de nobreza geralmente atribuído ao segundo filho do monarca reinante – e finalmente, em 1936, rei do Reino Unido, substituindo Eduardo VIII, que abdicou do trono por motivos pessoais – ele casaria com uma mulher duplamente divorciada, o que era proibido na época.

George VI foi coroado às vésperas da II Guerra Mundial. Na vizinha Alemanha, Adolf Hitler vinha ganhando cada vez mais poder apoiado na ideologia nazista. É nesse cenário que temos o filme O Discurso do Rei, de Tom Hooper. Apesar do período retratado, em nenhum momento vemos armas, combates ou coisas do tipo. O enredo se foca nos problemas pessoais de George VI, sobretudo sua gagueira, que o impedia de falar em público.

Num panorama geral, temos um roteiro bem simples, mas eficiente. Ponto para o roteirista David Seidler, que conseguiu contar a história de George VI sem nós. Seidler também leva o mérito por construir ótimos diálogos, alguns deles divertidíssimos. O mérito maior, no entanto, é mesmo de Tom Hooper, que soube dosar como poucos o humor e a ternura de seu filme. Podemos dizer que O Discurso do Rei é uma obra correta, sem exageros e paradoxal, pois mescla a pompa da monarquia britânica com uma história simplista, quase que escondida num cantinho qualquer da Inglaterra.

Hooper também merece elogios por conseguir extrair o máximo de seus comandados. Colin Firth está magnífico e só uma grande zebra será capaz de roubar sua estatueta de melhor ator. O mesmo vale para Geoffrey Rush, menos brilhante, mas ainda assim muito bem no papel do “médico” Lionel Logue – responsável pelo tratamento de George VI. O destaque negativo fica por conta de Helena Bonham Carter. Embora seja uma das minhas atrizes prediletas, em O Discurso do Rei ela está um pouco apagada, retratada sempre como esposa excessivamente compreensiva. Talvez seja a falta de costume, pois estamos habituados com a Helena Bonham Carter de Clube da Luta, Sweeney Todd e mais recentemente Harry Potter e Alice no País das Maravilhas.

Ainda sobre a história, gostaria de tecer alguns comentários sobre o clímax da obra, o qual achei especialmente emocionante. Talvez tenha faltado uma dose extra de sentimento, mas confesso que o discurso perfeito de George VI, comunicando o início da II Guerra Mundial ao povo britânico, me atingiu em cheio. Tom Hooper evitou cair nos clichês do gênero, talvez por isso tenha sido direto, novamente simples. É o tipo de coisa que agrada alguns, desagrada outros… eu gostei! No mais, destacaria o figurino caprichado, praxe nos filmes de época, e a boa trilha sonora do compositor francês Alexandre Desplat. Ambos (figurino e trilha sonora) concorrem ao Oscar em suas respectivas categorias.

Por fim, outro ponto positivo do longa foi mostrar de forma detalhada o desenvolvimento do laço afetivo entre o rei, aparentemente intocável, e um britânico qualquer. George VI se identificou com Lionel Logue justamente porque ele o tratava de igual pra igual – como todos os outros pacientes. Numa época em que parte dos relacionamentos eram construídos por interesse, a figura de uma pessoa comum despertou um sentimento praticamente inédito na autoridade máxima da monarquia britânica: a amizade. Por essas e por outras, O Discurso do Rei é muito mais do que um filme sobre um homem que superou suas dificuldades. Vai bem além disso; trata de amizade, amor, perseverança e sobretudo valores.

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Uma resposta to “O Discurso do Rei (King’s Speech, 2010)”

  1. Leka Marcondes Says:

    Na verdade o mais legal do filme é proporcionado pela história: um rei que precisa representar a voz do povo mas não consegue lidar nem com a própria voz. O personagem do Lionel é um belo de um terapeuta, e o filme em alguns momentos acerta ao abordar a questão da gagueira um pouco ligada à psicanálise, mas achei que se perde porque apela pra um humor meio fútil, superficial.
    Sem contar que os atores tão beem abaixo da sua capacidade. Não sei, esperava mais. É um bom filme, mas meio bobinho e fácil demais.

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