Inverno da Alma (Winter’s Bone, 2010)

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Por Alessandra Marcondes

O filme me marcou tanto que me senti no dever de voltar a este blog após um hiato de um ano sem escrever sobre cinema. Daí, já conclua: é magnífico, um drama intenso que merece (e muito!) as quatro indicações ao Oscar que recebeu: melhor filme, roteiro adaptado, atriz e ator coadjuvante. Ainda mais mostrando uma vertente não muito valorizada por Hollywood, de um Estados Unidos ‘caipira’, onde miséria e drogas encontram lugar, e com um orçamento tão reduzido: apenas US$2 milhões foram investidos no longa. Para comparar, Preciosa e Guerra ao Terror, os filmes ‘baratinhos’ do Oscar do ano passado, contaram com US$10 e US$11 milhões, respectivamente.

Ree Dolly (Jennifer Lawrence) é uma menina de 17 anos que tem dois irmãos pequenos e uma mãe doente para cuidar. Como se já não fosse difícil o bastante, seu pai, um dos traficantes de drogas da região, sai da cadeia sob fiança e dá como garantia a casa da família. Se ele não comparecer ao tribunal para prestar depoimento, a família, já miserável, perde a casa. A partir daí, vemos uma adolescente obrigada a amadurecer antes do tempo com uma responsabilidade do tamanho do mundo nas costas, tentando encontrar o pai a qualquer preço, e lidando com pessoas e situações que muito homem formado preferiria evitar. Como pano de fundo, uma região provinciana onde é papel dos homens cuidar dos assuntos da família, o que fica explícito no momento em que perguntam a Ree: “você não tem nenhum homem para cuidar disto não?”. E ela continua tão durona, indo cada vez mais a fundo em assuntos obscuros, lidando com traficantes da pesada, sem estremecer. A menina de cabelos loiros não tem tempo para ser adolescente, para dar um sorriso sequer. Destaque para a atuação de peso de Jennifer Lawrence, que (de fato adolescente na época das filmagens) transmite sobriedade e um desespero contido, do jeitinho que tinha que ser. É uma lição de vida e de superação, e inevitavelmente sacode a gente em nossas vidas confortáveis e faz pensar. É uma luta pela sobrevivência tão sofrida de quem não tem mais o que perder… É o tipo de história que não faz chorar em um final trágico, mas sim em tantos momentos de dor e sofrimento presentes na trama. A sensação de abandono e solidão são desesperadoras, e deixam um nó na garganta dos mais sensíveis até o último dos 100 minutos de filme.

Com o cenário dos Montes Ozarck de fundo, Inverno da Alma é um filme frio, de cores gélidas e cenas silenciosas,  melancólicas. A fotografia é belíssima, e mesmo sem nem uma cena de ação bombástica, sentimos a tensão em cada passo que Lawrence dá colina acima, colina abaixo. Não descansei na poltrona do cinema durante um instante sequer, pois o filme não apela para cenas sanguinolentas, mas o perigo é palpável. Mesmo quando a menina leva uma surra, a violência é muito mais psicológica do que explícita, e tudo é tão… sutil. E falando em sutil, a história se desenrola muito bem, deixando por conta do espectador desvendar com atenção cada mistério. Fica bem claro que o pai da família não é nada do bem, e até mesmo seu irmão, tio da menina, se recusa a ajudá-la de início. Por isso, demora-se a entender que {spoiler! o pai não sumiu de propósito, e sim foi assassinado por “migrar” para o lado bom da força, topando testemunhar e entregar comparsas do crime ao xerife da região}. É como se assumíssemos a pele dela e soubéssemos o mesmo tanto que ela, o que colabora para nos envolvermos ainda mais com a personagem.

Mais um ponto positivo é que o filme conta a realidade ‘caipira’ dos Estados Unidos, tão ‘distante’ e propositalmente esquecida, mas sem estranhamento nem preconceitos. Ali são retratadas particularidades provincianas, como a tradição familiar e o peso de um sobrenome, muito bem embaladas por uma trilha sonora meio folk, meio country (me perdoem se a classificação não está correta, pois não entendo muito do gênero) que se encaixa com perfeição. Para ser o mais fiel possível à realidade, a diretora Debra Granik viajou diversas vezes para entrevistar moradores de comunidades rurais do Missouri sobre seu modo de viver, suas dificuldades e sua relação com o mundo. Muitos locais tiveram participação ativa no filme, inclusive as duas gracinhas que interpretam os irmãos de Ree (Isaiah Stone e Ashlee Thompson) e a senhora que aparece cantando em uma roda de country esta música aqui (o nome dela é Marideth Sisco, e também aparece neste vídeo aqui) .

Não há melhor forma de contar uma história do que ouvi-la primeiro, e por isso Granik se destaca entre tantos diretores de ‘cinema fácil’ hollywoodiano. Ela fez questão de ouvir a história de quem não costuma ter voz, e contá-la para aqueles que nem sempre estão dispostos a ouvi-la. E é isso o que torna tão excepcional esta produção independente que, mesmo sendo redondinha, não vai ganhar o Oscar, mas tem todo o mérito por ter chegado até lá.

Way down in Missouri where I heard this melody
When I was a little fellow on my mommie’s knee
The old folks were humming the banjos were strumming so sweet and low

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3 Respostas to “Inverno da Alma (Winter’s Bone, 2010)”

  1. Pedro de Sá Says:

    Jornalistas não deviam poder escrever sobre cinema, cara, só sobre SAPATOS

  2. Bruno Pongas Says:

    Suspense na medida certa e um desempenho impactante de Jennifer Lawrence. Ótimo filme, mas acho que fica sem o Oscar…

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