Ervas Daninhas (Les Herbes Folles, 2008)

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Por Bruno Pongas

Alain Resnais é um cara singular. Seus filmes têm característica própria e geralmente trazem à tona um universo completamente seu. Isso tem lá seus motivos. Resnais sempre foi de trabalhar com roteiristas ao invés de inventar os seus roteiros. Isso lhe deu uma característica única, por isso a singularidade que eu citei acima. Trabalhando assim, ele tem a dádiva de inventar, de colocar o seu próprio ponto de vista em cima de uma história.

É divertido, sabe ser bem humorado e ao mesmo tempo consegue ter prazer naquilo que faz. Ervas Daninhas é o máximo exemplo disso. É a prova cabal de que um cineasta pode, ao mesmo tempo, fazer um filme para o público e se divertir com aquilo tudo. Esse exercício de liberdade, no entanto, conta com suas restrições, que serão devidamente descritas ao longo desta resenha.

Há alguns meses atrás, neste mesmo espaço, desenrolei linhas e mais linhas contra Lars Von Trier e o seu terapêutico Anticristo. Para mim, a obra do conceituado dinamarquês também é única, só que única para o próprio Trier, já que ele fez um filme exclusivamente para ele, jamais para o público. A tentativa de chocar é uma descarga de seus sentimentos depressivos, ao passo que uma história que poderia ser interessante e inteligente é jogada no ralo em detrimento de preciosismo próprio.

Resnais faz algo semelhante em seu drama/comédia. Ele cria um trabalho para si e visivelmente sente prazer nisso. Por mais que seja uma investida interessante, assim como foi a de Trier, o longa se esvai a medida que os minutos transcorrem. A história se torna sem sentido e se perde numa eventual diversão aqui e ali. Tudo é absolutamente nonsense: o roteiro, os personagens, o desfecho… mas falta uma cara para o trabalho, falta um quê, um desfecho pretensioso, aquelas coisas todas que façam valer a pena.

É claro que algumas jogadas valem o ingresso. Há trechos impagáveis sim! O principal deles é já no finalzinho, quando sobe aquela música clássica dos filmes norte-americanos e um “FIM” piscante entra em cena. A metalinguagem desse trecho é divertida e realmente prova que Resnais é um cara merecedor de todas as honras como cineasta. Além disso, vale dizer que tecnicamente o filme é genial.

Sacadas de câmara, ótimos ângulos, cortes na hora certa… tudo isso faz parte do cartel de um diretor que sabe como montar suas cenas. Vale registrar também o fato de que Resnais sabe o que quer de seus comandados. Em Ervas Daninhas, ele exprime o máximo dos atores, que correspondem à altura. É impossível não se deliciar com as passagens de André Dussollier; um legítimo doido, psicótico. É extremamente divertido vê-lo em cena, e é por essas e por outras que eu nunca iria me arrepender de ter gastado nove valiosos reais num ingresso.

Para resumir em poucas linhas, Resnais sabe o que faz com uma câmera nas mãos, o que torna sua nova obra legítima e compreensível. Apesar de ter saído do cinema ligeiramente decepcionado, reconheço que acompanhei mais um trabalho de um cara único, daqueles que surgem de tempos em tempos e marcam seus nomes na história do cinema.

Minha Nota: 7.0

Direção: Alain Resnais
Duração: 104 minutos
Gênero: Comédia/Drama
Elenco: Sabine Azéma, André Dussolier, Mathieu Amalric, Emmanuelle Devos, Sara Forestier, Anne Consigny, Nicolas Duvauchelle, Edouard Baer e Vladimir Consigny

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12 Respostas to “Ervas Daninhas (Les Herbes Folles, 2008)”

  1. Leka Marcondes Says:

    Poxa, o único filme que tinha visto do Resnais até então tinha sido Medos Privados em Lugares Públicos, que é genial, então não nego que me decepcionei um pouco com Ervas Daninhas. Mas sem dúvidas a estética do diretor é única, e a história parece a todo momento uma espécie de sonho confundida com a realidade.
    Achei a forma de narração super original, com vai-e-véns e sem se preocupar em fazer um cinema certinho, que se pareça com nossa interpretação linear da realidade. É a realidade louca de um autor que resolveu brincar na telona.
    Meio confuso mas, se não levado muito a sério, é no mínimo divertido.

  2. Wally Says:

    Resnais me interessa muito. Seu cinema me conquistou já, e este aí vou à procura logo, logo.

  3. Amanda Says:

    não li o post inteiro pq eu quero ver esse filme e não quero me contaminar com a opinião de vcs. Mas, algo eu digo sobre alain resnais, o cara é bom, ele foi o único que conseguiu me deixar dentro da aula por 2h em um sábado de manhã! Assistam Hyroshima, meu amor e Noite e nevoeiro. E depois me conta o que achou.

  4. Matheus Castelo Says:

    Também acho que Resnais diminuiu um pouco com Ervas Daninhas… Mesmo assim, como você disse, é Resnais, né?

    Mas eu vim aqui pra te oferecer parceria com meu blog. É novo e é sobre cinema, também. Cara, eu acompanho suas críticas pelo CinePlayers.com e soube que você tinha um blog. Bom, passa lá e responde, que eu coloco o link por lá como recomendado/indicado. :)

    http://cineguides.wordpress.com

  5. Cassiano Says:

    ALain Resnais, incrivel, muito bom, legal ver esse filme aqui. Parabéns! O cinema ainda vive!

  6. tati Says:

    oi, com licença, sabe onde posso baixar o filme na internet? não consigo achá-lo… valeu.

  7. Pedro Henrique Says:

    Filmaço!!! Por curiosidade é a última postagem do meu blog. Um dos melhores que vi ano passado! Resnais ainda é jovem mesmo na casa dos 80.

    Abs!!!

  8. christianjafas Says:

    Olá,

    o filme Olhos Azuis de José Joffily estréia nesta sexta, 28/05.

    Escrevi uma crítica sobre ele no meu blog (http://christianjafas.wordpress.com/) e recomendo o filme para o fim de semana.

    Um abraço,

    Christian Jafas

  9. Samantha Silva Says:

    Acho o blog de voces interessantissimo, sempre otimas dicas sobre novos filmes. Nao vao postar mais? Seria uma pena se deixassem tudo parado aqui…

  10. Lilubia Says:

    Gostaria de saber sobre a trilha sonora do filme

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