Uma Prova de Amor (My Sister’s Keeper, 2009)

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My Sister's Keeper

Por Bruno Pongas

Até que ponto é legal conceber um filho apenas para salvar um outro de uma grave doença?

É a partir dessa premissa que o diretor norte-americano Nick Cassavetes constrói Uma Prova de Amor. Em linhas gerais, a história nos conduz a um julgamento prévio das personagens, que, por fim, é jogado por terra num final surpreendente, tocante e comovente. E parece que o cineasta vem se especializando em trabalhar com temas controversos… foi assim com Um Ato de Coragem, em 2002, e Alpha Dog, em 2006. Na nova empreitada, Cassavetes vai mais longe: coloca em cheque o desenvolvimento de seres humanos para fins discutíveis e nos posiciona de frente com o dia-a-dia de um doente em estado terminal (sem ser apelativo, vale lembrar).

O grande lance do longa, além de todos os entraves morais nele contido, é, como já disse, o julgamento das personagens. Cassavetes coloca o espectador contra a parede num grande dilema. Ficar do lado de quem? Talvez quem já tenha seus próprios filhos entenda a causa daqueles pais desesperados, que veem a morte de sua cria se aproximar sem poder fazer nada. Ao mesmo tempo, é impossível ignorar os sentimentos da menina mais nova, que, além de ser concebida para salvar outra pessoa, ainda teria seu cotidiano afetado para o resto da vida. Complicado, né? O diretor vai fundo na ferida de todos nós: o egoísmo! O ser humano é egoísta por natureza, sentimento que é difícil de lidar e admitir. Contudo, Cassavetes saca um final alternativo da cartola, que foge da mesmice ao ignorar o happy end ao mesmo tempo que defende seus personagens de um apedrejamento moral.

Nesse quesito o roteiro se sai muito bem. Consegue esconder a sete chaves o ponto crucial da trama e deixa para o final a cereja do bolo. No entanto, há alguns pontos que gostaria de destacar (ao meu ver negativos). Temos no início uma pequena história sendo contada em off… na sequência, vemos mais e mais offs com imagens das pessoas ao fundo. Para mim, o uso excessivo desse tipo de recurso prejudica um pouco o andamento do longa, pois os diálogos acabam ficando em segundo plano. Há também o uso um pouco exagerado de flashbacks… nada contra, mas aqui, eles aparecem de uma forma mal organizada. O espectador menos atento demorará a entender que se trata de um período de tempo anterior ao da narrativa. Nada, no entanto, que prejudique a leitura da trama… muito pelo contrário: com o tempo percebemos que os flashbacks agregam muito ao enredo.

Apesar dos contras, trata-se de um bom roteiro. Mesmo as diversas subtramas ganham colorido especial, jamais aparecem como mero enfeite ilustrativo. Contribui com isso, é claro, um elenco inspiradíssimo. Li em algum lugar que Cameron Diaz está apática e pouco consegue representar uma mulher guerreira, a verdadeira leoa que deveria tomar conta da filha e contornar todos os problemas. Achei ela perfeita, auxiliada por uma ótima maquiagem – que a deixou com uma cara de acabada, típica de quem passou noites e mais noites em claro revirando na cama. Quem também merece destaque é a já famosa Abigail Breslin – a mesma que foi indicada ao oscar de melhor atriz coadjuvante por Pequena Miss Sunshine. Ela nos traz sensibilidade, humor e alegria como poucas… é uma atriz de grande futuro.

Por fim, Uma Prova de Amor é daqueles filmes que aparentemente ninguém da nada por eles. Confesso que comprei meu ingresso meio reticente. Drama estrelado por Cameron Diaz? Quase fugi correndo! Bom… felizmente me surpreendi, com ela e com tudo… isso que importa! O longa faz emocionar com simplicidade, com uma história bonita, de amizade, lealdade, companheirismo e amor de família. Recomendo a todos!

Curiosidade: Na história, Anna é apenas um apelido. Seu nome verdadeiro é Andrômeda. Na mitologia grega, Andrômeda era a princesa da Etiópia, que foi acorrentada num rochedo como sacrifício para salvar seu povo de um monstro enviado por Poseidon. No filme, Anna (ou Andrômeda) também é ‘acorrentada’ e oferecida ao sacrifício, só que para outro fim – salvar a vida de sua irmã.

Minha Nota: 7.5

Direção: Nick Cassavetes
Gênero: Drama
Duração: 109 minutos
Elenco: Abigail Breslin, Cameron Diaz, Sofia Vassilieva, Alec Baldwin, Jason Patric, Evan Ellingson, Emily Deschanel, Jeffrey Markle, Thomas Dekker e Joan Cusack.

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12 Respostas to “Uma Prova de Amor (My Sister’s Keeper, 2009)”

  1. Renan Says:

    Esse é um filme que espero ver em breve. Pena que o cinema daqui demore um pouco pra estreiar alguns filmes. Deve ser interessante ver Cameron Diaz em um drama pra modificar a idéia fixa de As Panteras que eu tenha dela.

  2. Kamila Says:

    Ainda bem que não é um drama manipulador, como eu suspeitava que ele fosse. Se eu já tinha vontade de ver o filme, agora, depois de saber dessa, a vontade aumentou!

    • Leka Marcondes Says:

      Renan: Pelo menos pra mim a imagem da Cameron Diaz mudou bastante. Achei que ela foi bem no papel, mas melhor do que ela foram mesmo as duas meninas. A outra, inclusive, nem citei no texto, mas ela vai mto bem tbm!!!

      Kamila: Acho que o filme passa longe de ser manipulador, mas esse conceito é um pouco amplo, pelo menos pra mim. O que vc quer dizer ao certo?

      • Bruno Pongas Says:

        /\
        ||
        Onde está Leka Marcondes ai em cima leia Bruno Pongas… estava na casa da Leka postando :~]

  3. Hugo Says:

    Considero que Cassavetes fez um bom filme em “Um Ato de Coragem” e acertou em cheio com “Alpha Dog”. Esta nova obra ao menos em uma história controversa, preciso assistir para ter uma opinião.

    Abraço

  4. Cristiano Contreiras Says:

    Confesso que, assim de inicio, achei equivocada a escolha da Cameron Diaz – mas, queimei um tanto da lingua depois, ela esteve aceitável e o filme é muito bom.

    abraço a todos daqui!

  5. Leka Marcondes Says:

    Na minha opnião, tanto os flashbacks quanto as narrações em off foram ferramentas muito válidas. A narração atenta para outros aspectos que não seriam tão valorizados se substituidos por diálogos, e quanto aos flashbacks, não ficou nem um pouco confuso, e se o espectador é ‘desatento’, a culpa é dele, e não do filme. Papinho de ‘ah, é muito confuso’ é coisa de quem não entendeu o filme pq não prestou atenção.

    Concordo q a Cameron Diaz conseguiu sim passar aquela impressão de mãe forte e meio neurótica, mas a questão central do filme não é o egoísmo, e sim a forma como diferentes indivíduos lidam com a morte.

    Um filme bonito, acima de tudo.

  6. Dewonny Says:

    Esse parece ser o drama do ano, verei com certeza!
    Tua crítica aguçou mais a minha curiosidade!
    Abs! Diego!

  7. Mayara Bastos Says:

    Já esperava ver um bom filme, agora, seu texto, me deu mais vontade de ver o filme. Parece ser bem emocionante. ;)

  8. Laura Says:

    Adorei sua critica bruno..concordo com vc!
    vi seu topico no orkut..
    parabens

    chorei lendo a critica

  9. Ana Maria Says:

    Achei muito bacana esse filme. Toca numa questão muito delicada e foi conduzida com sensibilidade, sem cair no melodrama. É emocionante e interessante.Òtimas interpretações, até Cameron convence. Acredito q ñ exista uma questão central e sim várias: culpa, perda, medo, compreensão, livre arbitrio ( tanto de optar pela vida ou pela morte, afinal a personagem central decidiu q ñ queria mais viver daquele jeito. A questão do amor como algo q liberta e ñ sufoca. È sim, um belo filme.

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