Inimigos Públicos (Public Enemies, 2009)

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O filme mostra a época em que gângsters eram tratados como heróis pela mídia e pelo povo.

O filme mostra a época em que gângsters eram tratados como heróis pela mídia e pelo povo.

Por Alessandra Marcondes

Inimigos Públicos tem todas as características necessárias a um blockbuster: um trailler energizante, atores-estrela mega competentes (Johnny Depp, Marion Cotillard e Christian Bale), um bandido que mais parece mocinho e uma história de amor de arrasar corações. Mas é com dor no coração que eu afirmo: mesmo assim, o filme simplesmente não dá certo. Como toda película baseada em livro que por sua vez é baseado em história real, o longa se preocupa demais em reproduzir fielmente os fatos, com sua abundância de personagens, sem ter tanto tempo para explicá-los. Resultado? Mesmo o espectador mais atento acaba confundindo os bandidos do grupo de John Dillinger (Depp) com os policiais de Melvin Purvis (Bale) nas horas de ação, e fica sem saber que lado está ganhando a cada homem que cai baleado.

Não é exagero. O filme parece eterno em suas 2 horas e 20 minutos, porque vemos Depp umas três vezes capturado, escapando de três prisões diferentes, e sendo pego outras três. Bastava dar uma amostra de cada, desde que bem feita. Lembro que muita gente criticou a extensão interminável do filme A Troca, e depois de assistir, o defendi – ainda acredito que cada pedacinho dele tenha uma razão de existir. Já em Inimigos Públicos, digo com toda a certeza que isso não acontece. A Troca mostra as tantas vezes em que a mãe quase encontra o filho perdido pois a realidade é exatamente assim, e é esse detalhe – da esperança ora dada, ora tirada – que torna a vida das famílias de crianças desaparecidas tão desesperadora. Já Inimigos Públicos não acrescenta grandes coisas à trama em seu vai-e-vem, e se torna chato para quem olha de minuto a minuto o relógio torcendo para que chegue logo o final.

A história remete a uma época distante e mitológica, que talvez nunca tenha existido de fato: em tempos de fome e miséria trazidos pela Grande Depressão de 1929, surge o bandido com síndrome de Robbin Hood, se vingando dos poderosos bancos que tiram mais e mais de quem já pouco tem. Também se utiliza de elementos já apropriados por vários filmes deste estilo, fazendo uma espécie de homenagem ao cinema gângster, com seu glamour ultrapassado e eterno ao mesmo tempo. Mesmo assim, o longa não passa de um apanhado sem graça da história, e só não é mais desinteressante devido à força das atuações. Foi boa, por exemplo, a escolha de mostrar tanto John Dillinger quanto o agente Purvis como homens decentes, de moral: fica a critério do espectador decidir se está do lado do primeiro, que defende a moça de um almofadinha que exige o seu casaco, ou do segundo, que a resgata da sessão de tortura mesmo que isso custe a fuga de seu inimigo.

O filme é carregado de ambiguidades, encarnando na ordem e no caos um pouco do sentimento confuso daquela época de transições. Porém, ao romancear demais a trama, Michael Mann mudou o foco do livro, pouco importando se aquilo tudo existiu e tem íntima relação com o que vivemos hoje, desde que nutra nosso saudosismo e nossos anseios por uma sociedade cor-de-rosa. A saga de Dillinger nunca seria possível em tempos de FBI, CIA e comunicação global, e ao cortar a conexão da trama com o nosso andar histórico, Inimigos Públicos joga fora o potencial de raciocínio e questionamento próprio do cinema para se tornar vazio, de facilidade semelhante à novela da globo ou aos programa de auditório de domingo. Entretenimento e pipoca, só.

O trailler me prometeu um filme de ação à moda antiga, com Johnny Depp encarnando o charme de Clark Gable em Vencidos pela Lei. Acenderam as luzes, subiram os créditos, e eu fiquei esperando mais cenas do bandido pelo qual torci, aquele que assalta bancos mas é piedoso com seus funcionários, cavalheiro e romântico com as mulheres, que tem o charme triplicado pelo clima de perigo. Senti falta inclusive de mais música (para quê escolher a genial Ten Million Slaves, de Otis Taylor, se era para explorar tão pouco?). Talvez o erro tenha sido meu; já deveria imaginar que, em tempos de torturadores, psicopatas, maníacos e estupradores, um filme com bandido belo e íntegro não me convenceria. O triste é que Inimigos Públicos tem a pretensão de contar a história, homenagear o cinema e saciar nosso imaginário com um belo romance, mas faz tudo pela metade e acaba não significando coisa alguma.

“Eu posso roubar um banco a qualquer momento
Eles tem que ficar alertas a todo momento.
Nos divertimos hoje e não pensamos no amanhã,
Por isso estamos no topo do mundo.”

Direção: Michael Mann
Gênero: Drama/Policial
Duração: 140 minutos
Elenco: Christian Bale, Johnny Depp, Marion Cotillard, Channing Tatum, Stephen Dorff, Giovanni Ribisi, Lili Taylor, Leelee Sobieski e Billy Crudup.

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8 Respostas to “Inimigos Públicos (Public Enemies, 2009)”

  1. Doc Brown Says:

    incrível, também pensei em A Troca, mas como você, acho que o filme do Eastwood deveria ter tido o tempo que teve, já Inimigos Públicos realmente parece mais longo que deveria!

    curti o blog de vcs!
    vou por um link no meu…

    abs!

  2. Rafaela Melo Says:

    ainda não assisti ‘inimigos públicos’ , confesso que o que me chamou a atenção pra querer assistí-lo foi a presença do johnny depp no filme ( meu ator preferido *-* ) . mas quando assitir volto aqui pra comparar minha opinião com a de vocês !

    ah , adorei o blog ! :)

  3. Bruno Pongas Says:

    Tive uma sensação idêntica a sua após sair da sala de ‘Inimigos Públicos’. O trailler e a ótima música nos apresentava uma obra-prima em potencial do gênero. O elenco, brilhante, nos iniciava a um grande trabalho. De fato, os atores não decepcionam, mas o filme sim. Michael Mann, que é um dos mestres nesse gênero, aqui faz um trabalho confuso e arrastado. Os tiroteios, apesar da beleza, são extremamente mal dirigidos. Como você disse, não se sabe quem é da turma do Dillinger ou da turma do Purvis.
    ‘Inimigos Públicos’ é uma das decepções do ano… uma pena!

  4. Todd Says:

    Olá
    ao contrario de vc, achei o filme bem legal. o elenco é de primeira e mann pra variar faz um bom trabalho. poucos sabem filmar um tiroteio como michael mann

  5. Leka Says:

    Doc, eu pensei na Troca pq tb é um filme de época, tb longo, e tb tem uma baita atriz no papel principal. Só que achei realmente injustas as críticas ao seu tempo de duração, sendo que quanto ao ‘Inimigos públicos’ eu li muito mais críticas positivas do que negativas, sendo que, para mim, foi uma decepção. Bom saber que tem gente que concorda comigo!! :]

    Rafa, assista o filme sim, ainda + se vc gosta do Johnny Depp, pq ele é uma das poucas coisas que valem a pena – tb, quando é que Depp não vai valer a pena, né?

    Todd, acho que o elenco é sim de primeira, e a idéia do filme é boa, só q na prática ele não funciona, falta muuuio para ser um filme ao menos interessante, que valha a pena.

  6. Kau Oliveira Says:

    Alessandra, eu ainda não vi Inimigos Públicos por um simples motivo: mesmo alguns blogueiros dando notas altíssimas, não tenho vontade nenhuma de conferí-lo.

    Sobre A Troca, sou suspeito. Fui um dos que achou o filme maravilhoso e que achou sua duração muito necessária.

    Até mais!

    • Leka Marcondes Says:

      Kau, que booom q vc tb concorda comigo!
      Adorei A Troca e achei que o povo foi injusto, e quanto ao Inimigos Públicos, se um dia estiver na sua prateleira e vc não tiver nenhuma melhor opção, pode assistir, que não faz mal nenhum. Agora, se tiver qualquer outro filme com melhor potencial, dê preferência a ele, pq vc não vai perder nada!

      Obrigada pela visita ;]

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