Corra, Lola, Corra (Lola Rennt, 1998)

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Por Bruno Pongas

O velho continente é famoso por produzir filmes reflexivos, inspiradores, românticos e inteligentes. Há sempre alguma ‘bomba’ vinda de lá, mas no geral, a maioria dos trabalhos acaba rendendo bons frutos. Um desses que merece todos os elogios é Corra, Lola, Corra, obra que mescla uma série de técnicas numa coisa só. O resultado final é interessantíssimo. Difícil acreditar que uma mistureba mixada em pouco mais de uma hora e 20 minutos poderia pintar com tanta qualidade. Méritos para Tom Tykwer e sua equipe, que com um belo roteiro e uma ótima montagem produziram um dos melhores filmes da década de 1990.

Logo de cara somos apresentados aos personagens principais. Lola é filha de banqueiro, de família desestruturada e com um namorado digamos que… encrenqueiro. Manni é um fora-da-lei e está num péssimo dia. O chefe de sua quadrilha confia a ele a quantia de 100 mil marcos. Azarado que é, o rapaz perde o dinheiro após um pequeno entrevero no metrô. Sem a grana e precisando prestar contas com o chefe, Manni planeja assaltar uma loja para sanar seu prejuízo. É meio dia e quarenta… Manni irá executar o assalto dali a quinze minutos – a menos que Lola chegue no local antes desse horário. Será que o plano vai dar certo? É mais ou menos nesse ritmo que a história é conduzida, cheia de momentos eletrizantes (daqueles de deixar o espectador completamente vidrado).

Tom Tykwer, diretor e roteirista, transforma o longa numa grande brincadeira, num enorme mundo de coincidências e acasos. Por exemplo: quando há um acidente aéreo sempre aparecem aquelas pessoas falando para os jornais em tom dramático: “nasci de novo, era pra estar naquele voo mas meu filho passou mal e tive que adiar para mais tarde”. Embora o exemplo soe pouco esclarecedor, vale dizer que Tykwer se usa desses pequenos detalhes do nosso cotidiano para montar seu enredo. O famoso “e se” é a tônica da trama (e também a sua própria mensagem). Se o Manni não tivesse pego o metrô nada teria acontecido com o dinheiro, ou teria? Se a Lola tivesse comprado a bicicleta talvez ela conseguiria evitar uma tragédia. O grande trunfo do filme é exatamente esse: lida com coisas corriqueiras do nosso cotidiano, coisas com as quais estamos bastante acostumados. Pensar nisso tudo, ainda mais após assistir a Corra, Lola, Corra é uma grande viagem, um exercício imaginativo fantástico e indescritível.

O roteiro inteligente é o principal trunfo da obra. Mesmo que seja inspirado em alguns clássicos, como o próprio Um Corpo Que Cai (há alguns elementos bem semelhantes explicados pelo próprio diretor), o trabalho de Tykwer é essencialmente original. Original por contar a mesma história diversas vezes com um final diferente, por mostrar que milésimos de segundo podem mudar uma vida inteira. Por essas e por outras eu considero Corra, Lola, Corra uma das obras-primas dos anos 90. Tudo tem grande sintonia: o carismático desenho que retrata Lola descendo as escadas, a trilha sonora empolgante, o desempenho do elenco… tem também a câmera manual, que é usada para retratar os momentos do pai da garota com a amante. Isso, aliás, é muito bem sacado, pois contribui para criar aquele clima pessoal, supostamente secreto.

Sobram elogios, realmente sobram. Confesso que sou suspeito para falar qualquer coisa sobre o filme… sou nada mais do que um grande fan. Sei que de vez em quando os fanáticos apelam um pouco e tendem a superestimar algo apenas comum. No entanto, o montante de prêmios vencidos pelo longa mostra que existem mais pessoas que compartilham do meu parecer. Talvez os mesmos que tenham visto em Lola Rennt uma viagem sensacional em torno de coisas simples do nosso cotidiano. Isso parece meio doido, é verdade, mas se até Amelie Poulain pode ser feliz vivendo a simplicidade da vida e imaginado quantas pessoas têm orgasmos pelo mundo, nós também podemos nos deleitar com o mar de casualidades que nos cerca.

Minha Nota: 10.0

Direção: Tom Tykwer
Gênero: Ação/Policial
Duração: 81 minutos
Elenco: Franka Potente, Moritz Bleibtreu, Herbert Knaup, Nina Petri, Armin Rohde, Joachim Król, Ludger Pistor e Suzanne von Borsody.

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7 Respostas to “Corra, Lola, Corra (Lola Rennt, 1998)”

  1. Leka Marcondes Says:

    Teoria da casualidade, a la Salinas? hehe esse filme sempre vai me lembrar o primeiro semestre!

    Muito bom mesmo. É um formato de simplicidade incrível, que brinca com nossa vivência de mundo e que é incrementado por tudo de bom que o cinema tem a oferecer: narrativa não linear, desenho misturado com vida real, acelerar a câmera, dividir o enquadramento no meio. E as cenas dos dois na cama também são muito boas, dão o mesmo tom de intimidade da cena da amante do pai, fazendo-nos conhecer meio por cima os personagens, no meio da narrativa tão frenética.

    Genial!

  2. Wally Says:

    Me falam tanto deste filme… e esta sua nota 10 malígna está me martelando incansávelmente na cabeça. Droga! Deste jeito terei que me apressar em procurá-lo.

  3. Rafaela Melo Says:

    eu adoro o filme e sempre recomendo à meio mundo , ninguém entende o filme e ainda me acham louca de gostar dele ( raras exceções gostam dele e me agradecem ) aheuihaiuehaui

    • Bruno Pongas Says:

      hahaha felizmente eu tenho um pouco mais de sorte do que vc :p sempre recomendo ‘corra, lola, corra’ e a maioria das pessoas felizmente gosta :]

  4. Rafaela Melo Says:

    acontece ! haueihaiuehaiue com o tempo você vai aprendendo o que você pode recomendar ou não pra certas pessoas . eu recomendei ‘corra , lola , corra ‘ hoje pra uma amiga , vamos ver amanhã se ela vai me bater ou me agradecer ! ahueihauieha

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