Tempos de Paz (Tempos de Paz, 2009)

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temposdepaz

Por Bruno Pongas

O cinema nacional vem ganhando novos ingredientes a cada ano. Um novo ator promissor aqui, uma obra inteligente acolá… tudo isso em meio às baboseiras de sempre, como Se Eu Fosse Você, por exemplo. Citei a comédia estrelada por Tony Ramos por dois motivos: primeiro porque o filme que irei resenhar também conta com o ilustre ator no elenco, e segundo porque o diretor das duas obras é o mesmo: Daniel Filho.  Falando nisso, andei lendo algumas críticas positivas sobre o novo longa internet afora, mas, como só acredito vendo, precisei ir ao cinema para checar o trabalho do cineasta. Hei de confessar que me surpreendi um bocado. Pois é, caros leitores; Tempos de Paz, que passa bem longe de ser uma obra-prima (vale dizer), também é facilmente o melhor trabalho na cinebiografia de Daniel Filho.

O longa é inspirado na obra teatral Novas Diretrizes em Tempos de Paz, de Bosco Brasil. À grosso modo, a história se passa no final da Segunda Guerra Mundial, quando europeus iniciaram um processo migratório para outros países. No Brasil, o governo Getúlio Vargas impunha barreiras contra a possível vinda de adeptos do nazi-fascismo para cá. É nesse contexto que há o embate entre Clausewitz (Dan Stulbach) e Segismundo (Tony Ramos). O primeiro tenta entrar no país alegando ser agricultor, enquanto o segundo tem que interrogá-lo para identificar possíveis tendências nazistas. Nos palcos, a dupla principal era a mesma, o que explica a química entre as personagens. Além disso, a parceria ajudou na hora de transpor a linguagem teatral para a cinematográfica. Isso, aliás, o diretor faz com bastante competência, sempre auxiliado por uma trilha sonora honesta, simples e eficiente.

Um dos pontos chave da trama é o roteiro. Posso afirmar que ele é bom e ruim ao mesmo tempo. Bom porque deixa poucos furos. A história, que é pouco extensa por si só, podemos dizer que é bem contada e vai ganhando alguns contornos bem vagarosamente – o que é interessante. Por outro lado, a subtrama que envolve o médico em busca do seu ‘carrasco’ é falha e muito pouco aprofundada. Daniel Filho (que por sinal interpreta o médico) poderia ter construído melhor essa parte, pois para o espectador ela fica como uma mera paisagem, apenas para agregar alguma coisa extra à história.

Tais erros, no entanto, ficam bem pequenos se comparado ao desempenho pungente dos atores. Falo aqui especialmente de Dan Stulbach – para mim uma das melhores figuras da dramaturgia nacional. Sou fan confesso de seu trabalho, desde os tempos das raquetadas na bela Helena Ranaldi (acho que todos lembram dessa, certo?). Na pele de Clausewitz, Stulbach é um show em cena. Sabe utilizar a linguagem teatral e adaptá-la de maneira magnífica. Seu personagem, destacado pelo sotaque inconfundível, é inocente e carismático, daqueles que vivenciou horrores de uma guerra sem perder a alegria e os encantos da vida. Tony Ramos, por sua vez, também agrega bons elementos ao impiedoso Segismundo – aquele que sempre seguiu ordens de seu padrinho. Seu grande erro, ou talvez falha mesmo, é ser parecido com todos os outros personagens de sua carreira. Sempre os mesmos trejeitos, sempre as mesmas caras e bocas… ver Tony Ramos em cena passa algo como: “eu já vi isso antes em algum lugar”. Acho ele ótimo ator, mas com pouca capacidade de ‘metamorfose’, podemos assim dizer.

Tempos de Paz é um filme recomendável, embora seja teatral por natureza. Transformar uma obra dessas em cinema faz com que ela perca muitos elementos exclusivos do teatro. Ainda assim, Daniel Filho consegue adaptá-la de uma maneira competente, sendo muito fiel ao texto original e sem inventar modismos desnecessários. Por fim, posso dizer que a trama vale mesmo pelo embate entre dois ótimos atores com seus personagens muito bem aprofundados e conflituosos.  Para os cri-críticos, algumas falhas técnicas saltam aos olhos (a maioria delas, na verdade). Reparem nos efeitos especiais… de péssima qualidade! Mas isso já é outra história…

Minha Nota: 7.0

Direção: Daniel Filho
Gênero: Drama
Duração: 82 minutos
Elenco: Tony Ramos, Dan Stulbach, Daniel Filho, Louise Cardoso, Aílton Graça, Anselmo Vasconcelos, Leonardo Thierry, Maria Maya, Bernardo Jablonski e Felipe Martins.

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8 Respostas to “Tempos de Paz (Tempos de Paz, 2009)”

  1. Leka Says:

    Discordo. O filme é incômodo até muito próximo do final, só melhora um pouco quando Stulbach põe um pouco de emoção em seu monólogo poético e teatral.

    A linguagem do teatro é feita para o TEATRO, e para dar certo em filmes (principalmente com atores globais acostumados com o enquadramento de novela, que requer pouca expressão corporal) precisa de mudanças e adaptações. Perde-se o toque presencial dos atores, e o filtro da filmagem requer muito, mas MUITO mais dedicação do que vi em Tony Ramos e Dan Stulbach.

    Chato e irrelevante, na maior parte do tempo. Afinal, Daniel Filho não é nenhum Lars Von Trier para construir obras primas do cinema a partir de elementos do teatro.

    • Bruno Pongas Says:

      Depois eu que sou o cricrítico! hahahaha
      Bom, qdo chegar em casa eu respondo, pq no meio da aula do Sandano NAO rola!
      E porra, comparar Daniel Filho com Lars Von Trier é sacanaigi (como diria os cariocas)…

  2. Pedro Tavares Says:

    Eu discordo da Leka. Acho que ele consegue ser fiel a elementos teatrais e faz isso direitinho. E acho interessante essa adaptação. Sempre querem uma adaptação cinematográfica o bastante para fazer um novo produto e separa-los com a fronteira da linguagem de cada um. Ao contrário da opinião dela, acho que o filme perde forças quando Dan acha que é o Roberto Benigni e dá uma de bobo-alegre-artista. O filme me surpreendeu, de verdade.

  3. O Cara da Locadora Says:

    Eu gostei muito do filme, muito mesmo… Atuações fantásticas (o Dan é a mistura perfeita da ingenuidade com a dureza, muito bom mesmo) e o Daniel Filho conseguiu muito bem transportar a linguagem do teatro pro cinema, e foi só o que ele precisou fazer afinal são atuações já consagradas e um texto já muito bom… Ahn, e obrigado pelo link, camarada….

    Abraços…

  4. Leka Marcondes Says:

    Pedro, não sou a favor de que mudem a peça de teatro pra que ela se adeque melhor ao cinema. Só acho que, por se tratarem de plataformas diferentes, se a opção foi usar a linguagem do teatro, é preciso tomar cuidado com uma série de coisas que passaram despercebidas pelo filme. Na telona perdem-se vários elementos que são garantidos em especial pela presença do ator no palco, e como Tony Ramos é um típico ator de TV – de expressão sempre igual, como o Bruno falou – Tempos de Paz fica extremamente chato, arrastado, com pouca emoção.

    Se é pra comparar (por mais que sejam tipos de filmes completamente diferentes), acho mil vezes melhor Quase dois irmãos (2004), que é levado também pelos dois atores principais, mas estes souberam dar a cara da história de maneira menos artificial.

  5. Myrian Says:

    Não sei se algum de vcs assistiu à peça, bem eu assisti, e arrisquei mesmo assim assistir ao filme.
    O desenrolar da parte do médico fica vago porque na peça ele não existe! Pelo menos eu não me lembro dele, faz muito tempo que assisti. E ao contrário do filme, na peça não se tem essa impressão “estática” da atuação do Tony, até mesmo pq ele não estava com esse bigodinho rídiculo que acharam por algum motivo que no filme ficaria bom.
    O Dan é um caso a parte, ele é maravilhoso, a atuação primorosa do teatro infelizmente na telona fica um pouco apagada, mas ainda assim é ótima.
    No geral é um bom filme, mas não é para os menores de 40 anos, ou aqueles que não gostem de história, porque senão não vão entender nada.
    ;)

    • Bruno Pongas Says:

      Myrian.. acho que não deve ser uma questão de idade.. eu tenho 21 anos e entendi perfeitamente os conflitos do filme. Assim como devem existir pessoas na casa dos 40 que não entenderam nada…

  6. Anônimo Says:

    Ai de mim…

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