Na Natureza Selvagem (Into the Wild, 2007)

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Por Alessandra Marcondes

Quando ouvi falar de Na Natureza Selvagem, tive a impressão de que seria exposta a tomadas fantásticas de uma natureza distante que me diriam: ‘isso não é para você’. Talvez um filme que servisse de marketing para o ecoturismo, e recortasse a realidade árdua da selva de forma amena e feliz, típico de Globo Repórter e afins. O que encontrei, entretanto, atropelou minhas expectativas e, de tão excepcional, deu as costas para elas e saiu andando, sem nem ligar.

Um rapaz chamado Chris foge da família, da carreira, do dinheiro e de outras convenções para varrer o mundo aos seus pés. Fugindo da mediocridade burguesa de sua família, mirou o Alasca e todo seu significado selvagem como forma perfeita de libertar sua alma, em viagem interior que prometia horizontes inabitados pela grande maioria dos homens. Em capítulos que dividem a grande empreitada como em atos teatrais, conhece tipos bem característicos em harmonia com a fase vivida: repare na presença dos hippies cumprindo o papel de pais em “o nascimento”, os dinamarqueses estranhíssimos e a bebedeira com o amigo trambiqueiro situados em “adolescência”, e o velho homem símbolo de um amadurecimento inevitável, em “sabedoria”.

Reconheço que sou uma menina urbana, e ficar acampada longe de um bom chuveiro quente num lugar cheio de mosquitos não é muito a minha praia. Mas mesmo que nem todos nós desejemos efetivamente a empreitada de Cris, é inevitável invejar sua coragem. Abandonar tudo o que se conhece como seguro e arriscar o novo é atidude de homem crescido, e deixar celulares, cartões de crédito e cigarros para trás deve dar uma sensação magnífica de liberdade que a maioria dos homens infelizmente não terão a oportunidade de vivenciar. Talvez tenha certa ingenuidade nas atitudes do menino rebelde que despreza tanto a vida burguesa que sua família lutou para ter, mas ganhar um carro como presente de formatura dos seus próprios pais mostrou que os dois não entendiam nada a seu respeito, nem respeitavam seus instintos e seus sonhos.

Há um alerta visível para a falta de importância de conceitos supervalorizados pela nossa geração. As prioridades para o homem são discutidas a todo momento: é necessário ficar sozinho para compreender a si mesmo e entrar em harmonia com o mundo, ou de nada vale a felicidade se não for compartilhada? Essa foi uma das melhores frases que já ouvi na minha vida, e transformou o filme em muito mais do que a história sobre a introspecção de um personagem – me fez pensar na minha própria realidade, meus valores, meus sentimentos. E isso, meu caro leitor, é o que o cinema tem de melhor pra mostrar; é nessa hora que sabemos a qualidade da película que está na nossa frente, e damos graças aos céus pelo cinema simplesmente existir. Isso, caro leitor, é um bom filme.

Paisagens incríveis, diálogos poéticos e a trilha (aaaah, a trilha) desenhada exemplarmente por Eddie Vedder completam Na natureza Selvagem, tornando-o perfeito. Este sim mereceria uma nota 11 do cricrítico Bruno Pongas. Típico de filmes sobre viajantes, há a constante narração em off de reflexões do personagem principal e a presença abençoada de secundários que dão cor à vida do andarilho. Faz lembrar as personagens de Um Beijo Roubado, que, sendo tão magníficas, fazem o espectador torcer para que sejam reais. Algumas das cenas grudam na memória visual e não nos deixam para sempre: como quando Cris chora feito criança por ter matado um animal à toa, pois não conseguiu aproveitar sua carne; ou como aquele garoto com tanta certeza de si se transformou no final em criança novamente, com sentimentos tão humanos que são a saudade, o medo e a dor.

‘Chamar cada coisa pelo seu nome certo’ – foi o que faltou na hora de comer o fruto errado, e que fez o corajoso Alexander SuperTramp voltar a ser, finalmente, Christopher McCandless. Um final para chorar e continuar chorando pela meia hora seguinte. O final de um filme definitivamente excepcional.

Hapiness only real when shared.

Direção: Sean Penn
Duração: 148 minutos
Gênero: Ação/Drama
Elenco: Emile Hirsch, Marcia Gay Harden, Willian Hurt, Vince Vaughn, Jena Malone, Catherine Keener, Kristen Stewart, Brian Dierker e Hal Holbrook.

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10 Respostas to “Na Natureza Selvagem (Into the Wild, 2007)”

  1. Bruno Pongas Says:

    Cara…

    Realmente sem palavras pra esse filme…
    Entra no meu TOP 10 com a maior facilidade do mundo…
    É bonito, tocante e inspirador. E com uma trilha sonora que dispensa comentários, pq o Eddie Vedder é foda!
    Os atores tbm fazem um papel muito bom, especialmente o Emile Hirsch! Genail! BRILHANTE! hahahahaha

  2. Joel Says:

    Filme brilhante, um dos melhores que eu já vi, junto com Gênio Indomável, que tem uma trilha sonora muito boa também, são os que mais influenciaram de certa forma, a maneira que eu enxergo a vida, Eddie fez uma trilha perfeita, e o filme é realmente inspirador.
    Parabéns a brilhante direção do Sean Penn.
    Recomendo a todos, os alienados por bens materiais. =)
    E bem lembrado pela Alessandra “Um beijo roubado”, outro filme muito bom também, principalmente pela trilha e participação da Cat Power. rs.

  3. toni Says:

    alessanda.
    concordo em genero numero e grau com vc!!!!!!!! eh umdos melhores filmes q eu vi nos ultimos anos. o sean penn eh maravilhoso como ator e provou ser tb como diretor.
    abracos

  4. Leka Marcondes Says:

    Joel, Na natureza selvagem sem dúvida também influenciou a minha vida. Um beijo roubado eu achei super parecido no sentido de a menina rodar por aí sozinha conhecendo diversos lugares e pessoas, incorporando isso para o próprio crescimento. Os dois filmes são muito bons.

    Toni, que bom que você concorda comigo! :] hehe, fico feliz quando vejo que não sou a única que fica de queixo caído com alguns filmes!!

    Brigada por comentarem!

  5. Tiago Ramos Says:

    Ainda não tive oportunidade de ver! Mas estou ansioso!

  6. Pedro Tavares Says:

    Filme maravilhoso. De longe #1 de 2008.

  7. alberto Says:

    O filme da minha vida – Sou um andarilho.

  8. Marco Aurelio Says:

    Filme marcante.
    Fiquei em extâse com o filme…

  9. Robson couto Says:

    E a final, o que significou pra vocês, tendo em vista este maravilhoso filme, “chamar cada coisa pelo seu nome certo”?.
    Estou em uma introspecção absurda e não cheguei à minha conclusão sobre isso.

    • Leka Marcondes Says:

      Difícil esta resposta, Robson, porque depende de cada interpretação, mas para mim, ele se referia a duas coisas: uma é conhecer realmente o mundo, entrar em contato com cada coisa da natureza para conhecê-las intimamente e aprender a chamar cada coisa pelo seu nome certo. E a segunda, lógico, está ligada ao final trágico que o filme tem só por causa de um detalhe, de um nome errado, que se fosse o nome certo não teria colocado a personagem principal naquela situação.

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