De Repente, Califórnia (Shelter, 2007)

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Por Alessandra Marcondes

Antes de mais nada, uma denúncia: a tradução de Shelter para De Repente, Califórnia é um crime linguístico e cinematográfico. Puxa da memória aquela música do Lulu Santos, e passa a impressão de uma aventura sobre ondas com adolescentes desvendando histórias de um amor fácil e juvenil. Traduzir ao pé da letra (shelter quer dizer ‘abrigo, refúgio’ em inglês) seria mais honesto com a trama e com o espectador.

Bem, depois de passada a má impressão, nos vemos diante de um belo filme, tanto pela delicadeza das atuações e dos detalhes bem pensados, quanto pelas cenas de praia, pôr do sol, horizonte e oceano. A temática delicada – que não deveria ser tão delicada nestes dias modernos, mas infelizmente ainda o é – trata da descoberta da homossexualidade de Zack (Trevor Wright), jovem surfista de cidade pequena. A transição já seria difícil por si só no que diz respeito à aceitação da família e de si próprio, em um universo preconceituoso em que os meninos são educados desde cedo a agir ‘como machões’. Porém, some a isto tudo os fatores escassez de dinheiro, família desestruturada e responsabilidades precoces, que você entenderá a complexidade de Shelter.

O filme fez sucesso em festivais de cinema gay (por aqui, no Mix Brasil 2007), mas entrou no circuito comercial por mérito próprio. O time de atores não é muito famoso – mas são todos belíssimos, vale lembrar – e é o primeiro longa de Jonah Markowitz (ele já dirigiu curtas e foi diretor-assistente de arte em Rocky Balboa e Apha Dog). É verdade que a inexperiência deixa certas falhas; a repetição em excesso de passagens românticas dá um tom de apelação novelística, e cortes descuidados provocam uma transição brusca de cenas. Mas nada de grave. O conjunto constitui uma bela história de amor, seja para gays ou heteros, e a luta por um lugar ao sol da personagem principal traduz a realidade de jovens do mundo todo.

Quando entrou em cena O Segredo de Brokeback Mountain, os mais conservadores caíram pra trás com a novidade – ninguém imaginava que estaria vivo pra ver cenas de sexo entre Heath Ledger e Jake Gyllenhaal. Já na comunidade gay, a conquista: o romance ‘diferente’ chegou à academia e arrebatou três estatuetas, transformando anos de ódio e preconceito em poeira. Méritos à parte, ainda faltava alguma coisa: os casais gays não teriam direito a um final feliz? Pois bem, Shelter é a alternativa para quem vive longe das fazendas de Brokeback, de realidade menos rústica e mais plural. Os dramas de Zack não são nunca subestimados, mas há a presença do bem sucedido Shaun (Brad Rowe) para dar apoio em horas difíceis que se desvendam – pasmem! – superáveis.

O filme trata exatamente da frágil linha que separa a persistência da desistência, mostra como é difícil se libertar da inércia em nome de amores proibidos ou de sonhos profissionais. O pobre Zack se vê preso à cidade enquanto todos os amigos desertam para fazer faculdade, pois precisa sustentar a família e cuidar de um filho que não é dele (seu sobrinho, interpretado pela gracinha-mirim chamada Jackson Wurth). O tédio vai se mostrando aos poucos infelicidade com uma vida nada atraente, e os desencantos do jovem se transformam em expressão artística, proporcionando bons desenhos e grafitagens com base na cenografia. O surf aqui representa muito mais do que manobras aventureiras sobre águas, e se traduz perfeitamente (e olha eu reclamando do título de novo) como um refúgio de toda aquela vida pacata e irrelevante.

Shelter é um filme daqueles que não promete muito, mas cumpre. Não é chocante nem reacionário, pois apresenta gradativamente aqueles garotos do surf – nem machões, nem afeminados – até que aceitemos seu amor sem estranhamento. Também acerta na escolha da trilha sonora (um surf music leve e relaxante), nas atuações impecáveis e na trama bem costurada. É, acima de tudo, um lindo romance, que chegou de mansinho defendendo uma causa da qual todos nos tornamos adeptos após assistir.

Direção: Jonah Markowitz
Duração: 97 minutos
Gênero: Drama
Elenco: Trevor Wright, Brad Rowe, Tina Holmes, Jackson Wurth, Katie Walder, Albert Reed, Ross Thomas e Matt Bushell

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10 Respostas to “De Repente, Califórnia (Shelter, 2007)”

  1. Bruno Pongas Says:

    Cara, é a pior tradução da face da terra. Se vermos o trailler, que eu coloquei ai no meio do post em alguma palavra sem sentido (hahaha) vemos que fica bem clara a referência do surf como se fosse um refúgio. Mas como às vezes é a imbecilidade que impera ficou muito mais fácil traduzir para o totalmente sem nexo ‘De Repente, Califórnia’.

    Pois bem, o filme é muito bom e gostoso de assistir. Os atores têm talento, apesar de pouco conhecidos para nós aqui do Brasil e o diretor, se tratando de um iniciante, vai bem. Para mim, como já havia comentado anteriormente com você, achei que ele podia desenvolver um pouco mais os conflitos entre a personagem do Trevor Wright e sua homossexualidade. Já que o filme é consideravelmente curto, ele podia aprofundar um pouco mais essa questão, pois acheo que ele decide de uma hora pra outra: “Ah, sou gay e vou me jogar nos braços do cara”.

    Shelter é sem dúvidas um excelente trabalho, que como dito, deve ser apreciado por gays, não gays, sem preconceito, um ótimo drama para quem gosta de cinema. E aquela cena, já quase no final, entre o Gabe e o Zach, velhos amigos de infância. é impagável…

  2. Leka Marcondes Says:

    Que horror! Óbvio que não foi assim… ele mostrou a indecisão e os problemas do Zach sem ser apelativo, acho que não precisava de muito mais do que foi mostrado!

  3. christianjafas Says:

    Bruno,

    muito bom o seu blog. Simples e direto. Leitura fácil e rápida.

    Eu vou tentar te colocar lá nos favoritos, acho que sei fazer. Hehehehe.

    Fiquei um tempo parado.

    Eu estou me aquecendo com os textos de livros. Depois vou escrever sobre filmes também. Bom, o blog foi criado pra isso, né?

    Vai dar pra trocar ideia sobre filmes quando eu estiver “em funcionamento”.

    Um abraço,

    Jafas

  4. Leka Marcondes Says:

    Cristian, este post não é do Bruno.

  5. Caio Says:

    Eu gostei mto deste filme…eh como os belos filmes que falam sobre relacionamentos héteros, mas com uma história homossexal tao boa ou melhor do que o convencional!!!!!os meninos tao otimos e interpretam mto bem as revelacoes dessa epoca que faz parte da viida de mta gente.

    gosteei mto do blog e da resenha, depois da uma passadinha no meu (acho que eh soh clicar no meu nome) Abraco!!!!!

  6. toni Says:

    a beleza esta muito mais na iniciativa de fazer um filme como esse do que no filme em si… os homsexuais sao orpimidos na sociedade e um filme como esse chegar aqui e fazer sucesso é muito gratificante pra comunidade gay. Espero que ele chegue tb para o resto do brasil…vc sabe se veio só pra sao paulo??

  7. Pedro Tavares Says:

    Concordo contigo Leka. Gostei bastante da crítica.
    beijos

  8. Kika Says:

    Ótimo post, Alessandra! Amei o filme, e suas opiniões são todas muito pertinentes, parabéns!

  9. Leka Says:

    Obrigada Kika e Pedro!

    E sim, Toni, só o fato de o filme ter chegado até aqui já é um grande mérito, com temática tão fora do comum. Não sei muito bem se só veio pra SP, pq não houve muita divulgação; vi o trailler no cinema há um tempo e depois encontrei o filme passando nos cinemas por acaso. Tente procurar na internet, talvez lance direto nas locadoras nas outras cidades!

    E Caio, vc não deixou o endereço do seu blog :/

  10. Frida Martínez Says:

    Eu realmente gosto! Um filme comovente e tocante, uma história que aborda a questão da homossexualidade de uma forma sutil e precisa que leva à reflexão. Gerencia a narrar uma história bonita e pacífica que navegar entre o ambiente de trabalho mais melodrama sentimental e realismo mágico corantes social e pretensões ideológicas.

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