Antes que o Diabo Saiba que Você Está Morto (Before the Devil Knows You’re Dead, 2007)

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Before Devil II

Por Bruno Pongas

“Que você esteja no paraíso meia hora antes que o diabo saiba que você está morto”

Sidney Lumet construiu uma carreira sólida em seus longos anos como cineasta e teve seu auge de meados dos anos 1970 até o início da década de 1990. A partir daí, continuou a emplacar bons filmes – talvez sem a mesma genialidade de outrora, mas sempre com qualidade indiscutível, o que marcou sua trajetória no cinema norte-americano. Acho até injusto seu nome ser pouco lembrado entre os grandes gênios da sétima arte, já que ele provou por diversas vezes ser uma grande figura, além de ser mais um daqueles renegados pela academia. Nunca venceu um Oscar, embora tenha sido lembrado em quatro oportunidades – uma pena.

Mesmo sendo um senhor octogenário (Lumet completou recentemente seu 85º aniversário), ele mostra que ainda é competente o suficiente para nos entregar uma obra madura, complexa e muito bem construída. Falo aqui de Antes que o Diabo Saiba que Você Está Morto – título que à primeira vista pode até assustar pelo tamanho, embora seja excelente, muito bem escolhido e extremamente criativo.

A história, contada quase que inversamente, nos coloca logo de cara diante de um assalto a uma joalheria. Em pouco tempo somos apresentados aos personagens e descobrimos que o tal lugar assaltado era nada mais nada menos do que a loja dos pais dos criminosos. O enredo, que vai se construindo aos poucos e agregando novos elementos à trama, nos leva a uma empreitada angustiante em busca das consequências do ato de dois filhos desesperados. O mais velho (Philip Seymour Hoffman), viciado em heroína e infeliz no casamento, e o mais novo, atolado em dívidas com a ex-mulher e cheio de compromissos com a filha pequena. Vemos aqui um panorama semelhante com o de O Sonho de Cassandra, recente filme de Woody Allen; as coincidências, no entanto, param por aí.

Ao longo do trabalho podemos notar algumas particularidades que possivelmente vieram de obras mais antigas. Uma influência clara, ao meu ver, vem do clássico Rashomon, de Akira Kurosawa. O fato de relembrar as histórias por perspectivas distintas resgata à memória o clássico japonês, assim como no mais recente Ponto de Vista, que aborda uma narrativa bastante parecida. Aqui, o roteiro assinado por Kelly Masterson cria uma montagem nesse mesmo estilo: trabalhosa, ousada e inteligente. Lumet também pode ter trazido elementos de Quentin Tarantino, especialmente de Cães de Aluguel – desde como contar a história sem linearidade até a fuga de carro após tudo dar errado. Ou seja, pode-se dizer que o roteiro é pouco – ou nada – original, mas ainda assim é construído de uma maneira interessante.

Ou vai dizer que é possível assistir o longa sem aquela pontinha de ansiedade em desvendar logo o final? O clima tenso é todo caprichado, e conta com uma ajudinha da trilha sonora, que dá aquele toque especial nas principais horas – principalmente quando o drama esquenta. O diretor nos coloca diante de algo inusitado, tenta nos propor um julgamento moral dos personagens – afinal, há algo mais imoral e fora dos costumes do que roubar os próprios pais? Ainda que Lumet tente justificar a atitude de seus personagens (e aqui acho que ele errou), em nenhum momento sentimos pena deles, e a cada cena que vemos tudo piora, como uma grande bola de neve, uma avalanche incontrolável. O desencadeamento dos acontecimentos nos leva a um final terrível, dramático, e  após subirem os créditos, lembramos de que todo ato desenrola diversas consequências – ruins ou boas -, assim como na vida real.

O drama exige muito da competência de seus atores, e acho que aqui ninguém ficou devendo. Destaco Marisa Tomei, que aos 44 anos parece estar no auge de sua forma e se especializando em papéis considerados sexys: alguém se lembra da stripper interpretada pela atriz em O Lutador? Pois é, quase lhe rendeu um Oscar. Aqui ela faz outra mulher bastante atraente, e vai muito bem, obrigado. Ethan Hawke, apesar de caricato em alguns momentos, também nos rende boas cenas, e no resumo da obra ele é um dos melhores do filme. Philip Seymour Hoffman é o mesmo de sempre, embora sem brilhantismos dessa vez; é um bom personagem, nada mais. Quem merece um destaque final no elenco de apoio é o veteraníssimo Albert Finney, que nos passa todo o rancor e desprezo de um pai desgostoso, incrédulo.

Antes que o Diabo Saiba que Você Está Morto é um filme complicado, que aborda temas complexos como a ganância das pessoas. Fica a mensagem de que ser excessivamente ambicioso e querer dar o passo maior do que a perna pode trazer problemas inimagináveis, e nós, reles mortais, somos provas vivas disso, afinal, quem nunca caiu do cavalo ao tentar algo maior sem ter capacidade para tal? Recomendo esse trabalho de Sidney Lumet, assim como indicaria a grande maioria de seus longas de olhos fechados.

Minha Nota: 8.5

Direção: Sidney Lumet
Gênero: Drama/Suspense
Duração: 117 minutos
Elenco: Philip Seymour Hoffman, Ethan Hawke, Albert Finney, Marisa Tomei, Rosemary Harris, Aleksa Palladino, Michael Shannon e Amy Ryan.

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7 Respostas to “Antes que o Diabo Saiba que Você Está Morto (Before the Devil Knows You’re Dead, 2007)”

  1. O Cara da Locadora Says:

    O filme é um longo soco no estômago… Excelente retrato da degradação humana… E que interpretações…

  2. Pedro Tavares Says:

    Tudo bem que depois de assistir “Um Corpo que Cai” tudo acaba perdendo qualidade né? Mas Lumet fez um filme e tanto. Aliás, só ele pra conseguir fazer com que Vin Diesel tenha um bom filme em sua filmografia com aquele “Sob Suspeita” hehehe!

  3. Leka Marcondes Says:

    Eeeeeeentão… não achei tão bom assim não. Acho que o grande acontecimento é desvendado rápido demais (a morte da mãe), sem nada que prenda muito o interesse depois. Ao invés de focar então na culpa dos irmãos, a trama parece fraca, vai colecionando complicações sem resolver de fato nenhuma.
    Duas grandes conclusões: que o ser humano é sujo, e que toda ação leva a uma reação.

    Agora, como falar que Seymour Hoffman não foi brilhante? O cara mergulha de cabeça no papel de lixo da humanidade, e convence tão bem que estou com raiva dele até agora. Brilhante sim.

    • Bruno Pongas Says:

      Mas ele já é brilhante naturalmente… e quando digo que ele foi comum já é um grande elogio.. quem dera se todos os atores tivessem atuações ‘comuns’ como as dele :D

  4. christianjafas Says:

    Olá,

    estou reativando meu blog sobre cinema: (www.christianjafas.wordpress.com) o Imagem em Movimento.

    Fiquei uns anos sem escrever, mas agora estou voltando.

    um abraço,

    Christian

  5. ederdbz Says:

    encontrei seu blog num link do OVO PODRE, e quero parabeniza-lo pela competencia dos textos…
    tambem tenho um blog de criticas de cinema, caso queira uma troca de links, estaria à disposição… http://www.cinemaepipoca.blogspot.com

    gde abraço e sucesso

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