Um Corpo que Cai (Vertigo, 1958)

by

Vertigo

Por Bruno Pongas

Alfred Hitchcock é muito mais do que o mestre do suspense, ele vai além, muito além, é um gênio, um mito, um dos maiores – talvez o maior – cineasta de todos os tempos. Sobram exemplos para provar sua excelência; a técnica apurada, a habilidade em criar um clima tenso mesmo com elementos simples, sem exageros. Hitchcock foi um marco da história do cinema, foi o melhor do gênero, imbatível. A música que sobe nos momentos certos, que aflige o espectador, a simplicidade evidente – muito pelo ano de seus filmes – que pode até passar por tosca numa época em que vemos efeitos especiais aos montes… mas e o conteúdo? Parafernalhas tecnológicas podem ajudar, porém, genialidade se destaca mesmo sem muitos recursos. É difícil ver um filme de suspense hoje em dia que se iguale a Hitchcock… arrisco a dizer que é quase impossível.

Um Corpo que Cai é considerado uma das obras-primas do diretor, pois conta com todos os elementos necessários para se criar um bom suspense. A história gira em torno de um ex-detetive da polícia que se aposentou após um acidente por consequência de sua vertigem (fobia/medo de altura) – a cena inicial em cima do telhado é uma das mais clássicas do cinema. Mesmo fora de combate, John Scottie Ferguson (James Stewart) é contratado por Gavin Elster (Tom Helmore) para vigiar sua esposa (Kim Novak), pois acredita que ela tem alguns problemas psicológicos e tendências suicidas. No entanto, o enredo sofre um revés quando os dois se apaixonam, e o que era para ser uma coisa simples se transforma numa trama bastante complexa.

Hitchcock usa muito bem a trilha sonora, que é primordial para criar a tensão entre as personagens. A habilidade em saber os momentos certos para colocar, aumentar ou diminuir a música é parte importantíssima no suspense – nem preciso dizer que ele faz isso com primor. O roteiro é amarrado, bem construído e envolvente. A cada minuto o espectador mergulha mais e mais fundo na história querendo desvendar o mistério; à princípio temos a total impressão de que o ex-detetive é paranóico, maluco, perturbado (assim como a mulher que ele está investigando). Depois, no final, tudo é desvendado com clareza, da melhor forma possível e sem deixar furos ou dúvidas para quem está assistindo. O cineasta parece brincar de detetive com o público e aos poucos vai criando um cenário cada vez mais instigante, mais complexo.

Na parte dos personagens, Hitchcock caprichou, pois os construíu e aprofundou perfeitamente. Vemos claramente o processo evolutivo do drama psicológico de Scottie Ferguson (muitíssimo bem interpretado por James Stewart) e também observamos Kim Novak excelente em seus dois papéis – especialmente no segundo, em que conseguiu ser muito convincente ao passar um misto de amor, medo e agonia. O elenco de apoio também executa seu trabalho com competência, e aqui destaco o desempenho de Barbara Bel Geddes na pele de Midge – aquela coadjuvante de extrema importância para a trama.

No final, Um Corpo que Cai vai além de um simples exercício de detetive por parte do espectador, é uma aula de bom cinema e de como construír um suspense psicológico e perturbador. O filme ainda mostra que a acadêmia é injusta e fazedora de média, pois o longa foi indicado somente para duas categorias secundárias no Oscar de 1959. Mas quem liga para isso, afinal? O trabalho de Hitchcock ficará marcado para sempre na história, independente de qualquer prêmio pomposo do cinema americano.

Minha Nota: 10.0

Direção: Alfred Hitchcock
Gênero: Suspense/Drama/Romance
Duração: 128 minutos
Elenco: James Stewart, Lee Patrick, Kim Novak, Barbara Bel Geddes, Tom Helmore, Henry Jones, Raymond Bailey, Ellen Corby e Konstantin Shayne.

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10 Respostas to “Um Corpo que Cai (Vertigo, 1958)”

  1. Vitor Stefano Says:

    Um corpo que cai e Janela Indiscreta são meus preferidos deste gênio!
    Belo texto. Parabéns belo Blog tbm!

    Também tenho uma queda por Pacto Sinistro.

    Vitor Stefano
    Sessões

  2. Amanda Says:

    ok…não foi a leka que postou, mas de qualquer forma aceito meu filme de volta…. ;)

    e um corpo que cai é muito bom!

  3. O Cara da Locadora Says:

    Eu sou um pecado quando se fala de Hitchcock, mas essa obra prima eu tive a oportunidade de ver e tirou meu chapéu… 10 também, sem sombra de dúvida…

  4. Alexandre Pollara dos Santos Says:

    Olá caríssimos cinéfilos,
    sou amigo do Roberto e ele enviou-me o blog para eu apreciar e comentar. Ainda não li todas as críticas, mas deixo o comentário aqui neste filme por um significado especial. Para meu deleite, ao entrar no link pela primeira vez (dia 14jul09), fui agraciado com a foto do “Vertigo”, que tenho como um dos 10 melhores filmes de minha vida. Tenho o pôster original grudado aqui no meu quarto. Sou também um estudioso e um fã de Hitchcock. Dei uma passada rápida em um texto de cada autor do blog. Sempre quando a pauta é cinema, tenho um carinho e uma atenção muito especial ao ler. Percebi que o gosto cinematográfico estão em vocês. Já parabenizo, inicialmente, pelo intuito de escrever, pois a linguagem é o jogo de palavras, o laboratório jornalístico. Notei que vocês adotaram a crítica como linha editorial. Apesar de podermos brincar mais com as palavras e dizermos realmente a nossa opinião, a crítica é um grande desafio. Claro que podemos sim expressar o nosso olhar diante do filme, mas acredito que é de suma importância trazer elementos para o subsídio do espectador criar sua crítica. Para não ficar muito grande a minha escrita aqui, farei o comentário do filme em outro post. De iníco, parabenizo mais uma vez pelos textos bem escritos, parágrafos curtos e sem erros ortográficos, até onde eu li. Só cuidado com os superlativos.
    Boa sorte para vocês.
    Alexandre Pollara

  5. Alexandre Pollara dos Santos Says:

    Olá Bruno,
    fico contente pelo resgate que você fez a um dos grandes clássico de Hitchcock. Meu caro, receba meus comentários como uma crítica construtiva e um acrescentar de detalhes para o espectador. Em cima do que você disse: “Hitchcock usa muito bem a trilha sonora…”. Bruno, falar de trilha sonora nos filmes de Hitch é também falar do mestre Bernard Hermann, compositor e grande parceiro do cineasta. Em “Vertigo”, juntamente com a trilha está o ponto de vista. Algo muito importante também é trazer os elementos para o espectador como: gente, prestem atenção nos recursos gráficos logo no início do filme. Hitch faz a colocação de um traço no rosto feminino, o olhar é muito forte. A atração feminina é o recurso. O expiral que sai e depois entra nos olhos vem até nós e retorna como um efeito hipnótico. Tudo está no rosto feminino e temos que decifrar. O ponto de vista está na câmera que assumi a posição. Notem o caracol no cabelo da atriz e no quadro que remete a Carlota. Detalhes do espelho que mostra a duplicação da personagem. O tempo todo notamos ela, até que em um certo momento, ficamos no apartamento da personagem e assumimos o olhar em cima do Scott. É a revelação que Hitch faz primeiramente ao espectador. Toda a construção do olhar é somente de uma pessoa, Elster, ele é o cineasta do filme, ele direciona tudo. Isso é raríssimo no cinema, mas Elster é o criminoso que prática o crime perfeito bem sucedido e sai de cena numa boa. A construção do filme é o crime perfeito. Bruno, me desculpe pela empolgação e pelo tamanho do comentário, pode apagar depois se quiser. Fico muito contente por trazer essa obra desse majestoso cineasta. Mais uma vez parabenizo pela iniciativa da escrita. Deixei o link de uma entrevista para saber mais um pouco do cinema na minha vida.
    grande abraço,
    Alexandre Pollara

    • Bruno Pongas Says:

      Cara, eu fico bastante feliz pelos comentários, ainda mais quando são feitos assim, com cuidado, e com um olhar acima do de um crítico amador. E receber críticas é sempre muito construtivo, até porque ainda tenho muito o que aprender sobre cinema, especialmente sobre grandes clássicos. Não sou um especialista em Hitchcock e fico agradecido que alguém com mais conhecimento esclareça alguns pontos, que são sempre mais relevantes na hora da compreensão do trabalho.

      Por fim, espero que você, Alexandre, continue nos seguindo aqui no blog e sempre acrescente algo interessante em nosso espaço. Grande abraço!!!

    • Bruno Pongas Says:

      Ah, e muito legal a entrevista, Alexandre… é sempre interessante saber como o cinema entrou em nossas vidas.
      E só mais uma coisa, quanto aos superlativos, às vezes, em exagero, eles podem estragar tudo, de fato, e eu particularmente sei que exagero em alguns posts, mas em Hitchcock, por exemplo, é quase que impossível fugir deles.. hahahaha
      Mas obrigado pelo toque… :D

  6. Mateus Brito Says:

    Fiquei indignado!! Que final Mal feito! Putz! Filme espetacular, conseguiu prender minha atenção, me deixar intrigado! Incrível como Hitchcock faz seus atores atuarem nesse filme. Todo o lado psicológico dos personagens… A trama!?!?Coisa de gênio!!!! Ai no final acontece aquilo que eu ainda não entendi, a mulher leva um susto, corre 2 metros e cai? aah va!

  7. Mateus Brito Says:

    tudo bem..admito! Só não queria que a mulher morresse uheuheuuehu! Por isso fiquei puto! De Hitchcock ja assisti esse e psicose! Não sei qual o melhor, o final de psicose é melhor com certeza(na minha opnião). Próximo vai ser o tão falado Janela indiscreta! Acabei de ver esse filme e depois de desabafar aqui, to com uma sensação de que vi uma verdadeira obra de arte!! Estou vendo o final varias vezes e comecei a ficar assustado com a freira entrando.. acho q eu ia correr tbm kkk! Magnífico o filme.. a cena do pesadelo.. muuuuuuuito teensa!!!!!

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