Jean Charles (Jean Charles, 2009)

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Jean Charles

Por Bruno Pongas

Quando vi que seria produzido um filme sobre a morte do brasileiro Jean Charles de Menezes – assassinado covardemente no metrô de Londres pela polícia inglesa -, fiquei reticente e julguei como falta de criatividade do cinema brasileiro. De fato; quantas milhares de pessoas não morrem injustamente por erros de terceiros? Quantos inocentes não perdem a vida em uma guerra? Nenhum desses já teve um longa publicado, ou se teve, foram muito poucos. Contudo, depois pensei melhor: um trabalho como esse até teria um propósito, pois passados três anos do fatídico caso, nenhum culpado foi punido – isso porque vivemos elogiando esses países, por serem um exemplo, por isso e por aquilo.

O Jean Charles retratado no longa é o típico brasileiro (sem preconceitos). Dá um jeitinho pra tudo e faz o que pode para ajudar os seus ‘chegados’. No entanto, ele também é apresentado como um legítimo trambiqueiro, já que em determinada passagem passa a perna num amigo só para ganhar mais dinheiro – uma atitude reprovável! O diretor Henrique Goldman também faz um retrato do brasileiro sempre envolvido com coisas ilegais, como o ‘agenciamento’ de vistos permanentes para manter os compatriotas no país. Ou seja, o Jean Charles que vemos está longe de ser um santinho, e achei que nisso o filme se saiu muito bem – não criou uma espécie de mártir; fez um homem comum, que também erra, também falha… uma pessoa como qualquer outra.

Em se tratando do filme, ele começa como uma espécie de comédia de costumes da vida dos brasileiros na capital inglesa. Vemos um mineiro do interior que quer aproveitar a vida na cidade grande (Londres). Esse start descontraído até nos rende bons momentos e boas risadas – e algumas cenas impagáveis. Com o passar do tempo, no entanto, o que era divertido e até nos fazia esquecer que era um retrato trágico, ganha contornos de drama. Jean Charles caminha muito bem até aí, mas a partir desse momento, achei um festival de cenas mal feitas e um final alongado absolutamente desnecessário.

Vamos ao que interessa: o longa é curto, apenas 90 minutos. Isso significa que chegamos ao clímax final muito rapidamente. É claro que o foco aqui é a tragédia no metrô, e talvez por isso podemos entender tal fato. Entretanto, o que deixa o espectador desnorteado é como esse ápice da trama foi feito. Por quê? Justamente porque a cena toda foi muito mal construída. Jean Charles acorda e reluta com o despertador, logo em seguida salta aos ouvidos uma música lenta, dramática… ele caminha para o metrô com duas pessoas o seguindo… será que dava para ser mais óbvio? Talvez… mas o pior ainda estava por vir: após adentrar no coletivo, aquelas duas pessoas já citadas chegam e o apontam como o suposto terrorista; vemos corre-corre, e uma saraivada de tiros – Jean Charles está morto. É possível que o diretor tenha tentado reproduzir a cena com total fidelidade, mas ao optar por isso, criou um ápice xoxo, nada emocionante.

A morte da personagem acena para o final do filme, e confesso que se acabasse ali seria um grande mérito. No entanto, como há aquela irritante insistência em se mostrar o depois do ocorrido, no melhor estilo telenovela global, vejo que o restante da trama ficou comprometida, sem propósito. O objetivo, que era tratar de um tema delicado como os imigrantes brasileiros que vivem ilegalmente em Londres e o terrorismo da polícia que atira antes de perguntar, parece ser deixado para segundo plano e, para o espectador, fica aquela sensação de que tudo poderia ter acabado quando Selton Mello saiu de cena.

Jean Charles é sim um bom filme, mas contém seus erros, alguns imperdoáves, outros mais brandos… no final das contas é mais um trabalho interessante do cinema brasileiro. Destaque aqui para o desempenho impecável do sempre competente Selton Mello. Aqui, o ator faz jus ao rótulo de melhor ator nacional e dá vida a um personagem divertido, ‘malandro’ e carismático… o sotaque mineiro (apesar do próprio ser natural das Minas Gerais) deixa evidente a qualidade desse ator, que já brilha há algum tempo e ainda tem muito futuro pela frente no cinema nacional e internacional. No mais, também merece ressalva o trabalho de Luis Miranda, que, na pele de Alex, nos rende a maior parte das boas cenas da trama.

Minha Nota: 6.5

Direção: Henrique Goldman
Gênero: Drama
Duração: 90 minutos
Elenco: Selton Mello, Luis Miranda, Vanessa Giácomo, Patrícia Armani, Maurício Varlotta, Sidney Magal, Daniel de Oliveira e Marcelo Soares.

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5 Respostas to “Jean Charles (Jean Charles, 2009)”

  1. Red Dust Says:

    Bruno, também já coloquei o Movie For Dummies na minha lista de blogues. Aguardo as tuas participações.

    Abraço.

  2. Leka Marcondes Says:

    Acho que o grande erro da cena da morte do Jean Charles é a câmera focar todo o resto menos o Jean Charles. É um bom recurso, mostra o pobre protagonista caindo, tudo do ponto de vista dele mas, sabendo que o acontecimento é real e as pessoas duvidam se a polícia foi injusta, não custava nada mostrar o coitado desnorteado sendo baleado pelas costas.

    Telenovela, praticamente. Atores bem ruins contrastam com a qualidade de Selton Mello. E aliás, o cara fez um bom trabalho mesmo estando super acima do peso por causa de forte depressão que teve no período em que filmava o longa.

  3. Pedro Tavares Says:

    Achei que o filme oscila bastante. São poucos acertos pra erros bastante comuns mas que aqui parecem ser grotescos. Dessa vez, o filme é do Selton e só dele.

    abs!

  4. Pedro Tavares Says:

    É, acho que peguei pesado. Refleti um pouco mais sobre e vi que antes uma obra que tende pelo documental que um sensacionalismo barato…

    Bruno, deixei um selo para o Movie For Dummies lá no Cinema O Rama, ok? abraço.

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