Há Tanto Tempo Que Te Amo (Il y a Longtemps que Je T’Aime, 2008)

by

filmes_333_Ha%20Tanto%20Tempo%20Que%20Te%20Amo%201

Por Bruno Pongas

Sabe quando você vai ao cinema, assiste o filme com a maior boa vontade do mundo, adora o que viu, mas sai da sala com aquela sensação de que faltou alguma coisinha para o longa ser melhor? Pois é essa a sensação que eu tive após sair da sala de Há Tanto Tempo Que Te Amo, trabalho de estréia do premiado romancista Philippe Claudel. Apesar de faltar aquele quê a mais (que será revelado ao longo do texto), Claudel merece algumas considerações. Por se tratar de um iniciante, vale registrar a qualidade da trama; um drama profundo, bem trabalhado e com ótimas atuações (especialmente de suas protagonistas).

O filme, que se inicia com tomadas do aeroporto de Nancy, logo nos apresenta as personagens principais. Juliette Fontaine (Kristin Scott Thomas) aguarda ansiosamente pela chegada de sua irmã, Léa (Elsa Zylberstein), que a hospedará em sua casa durante algum tempo. O encontro das duas, que aparentemente não se viam há um bom tempo, é frio, um pouco distante do que imaginamos ser um reencontro tão esperado. Com o passar dos minutos, sabemos que Juliette e Léa estão distantes há 15 anos, e que elas nunca tiveram notícias uma da outra durante todo esse tempo – o que torna ainda mais estranha a frieza da relação. Aos poucos, descobrimos também que a ausência de Juliette se deu por um motivo muito grave, o que alimenta a desconfiança de Luc (Serge Hazanavicius), marido de Léa. É nesse clima de estranheza mútua entre as personagens que  Philippe Claudel vai dando cores à sua história.

A dramaticidade é bem viva no longa, e podemos notá-la quase que a todo instante. Em um primeiro momento, logo após chegar ao seu novo lar, Juliette se depara com um homem idoso numa espécie de biblioteca. O senhor é carinhosamente chamado de Papy Paul (Jean-Claude Arnaud), pai de Luc, que sofreu um AVC e tem a fala comprometida. Ainda assim, sua figura transparece um bom humor fantástico, um personagem que sem dúvidas dá um pouco de vida à história. Em outros momentos, vemos Juliette tentanto sem sucesso conseguir um emprego – o motivo é óbvio, ninguém quer empregar uma pessoa com um passado negro, absurdo. O filme caminha assim durante todo o tempo, e nesse ponto Claudel tem muitos méritos, pois constrói seu drama e seus personagens com muita competência.

Lembram quando falei que faltava alguma coisinha a mais para Há Tanto Tempo Que Te Amo ser brilhante? Pois bem, como nada nesse mundo é perfeito, apesar das inúmeras qualidades já citadas, o roteiro tem uma falha imperdoável: é óbvio! Bem óbvio, diga-se de passagem. Desde o momento em que há a revelação do porque Juliette passou tanto tempo longe e o que ela fez para ficar distante todos aqueles anos (e isso acontece antes da primeira metade), podemos adivinhar o final, pois está fácil, está bem diante de nossos olhos. Não precisa ser nenhum expert em cinema francês ou crítico malinha para saber o que está para acontecer, basta um simples exercício de imaginação; qualquer um é capaz de fazer isso. Ainda assim, Claudel (que também assina o roteiro), dirige o conteúdo que se sucede com extremo brilhantismo, pois consegue dramatizar as cenas de uma maneira bonita, sem exageros, sem apelação, fazendo com que o espectador se sinta na pele daquelas pessoas e entenda o quão duro devem ter sido aqueles anos longe uma da outra, sem notícias, sem nada, oprimidas por mentiras e injustiças.

Kristin Scott Thomas faz um papel estupendo; dá vida a uma Juliette amargurada, infeliz, que apesar de sofrida, se rende aos encantos de uma vida que vale a pena, à beleza das pessoas e se transforma, ainda que continue deixando transparente todo o seu sofrimento. Um desempenho pungente da atriz inglesa, digna de receber os maiores prêmios do cinema. Do outro lado, a pouco conhecida Elsa Zylberstein também brilha. Dona de um sorriso encantador, ela  aparenta ser frágil em alguns momentos, doce, mas se mostra uma pessoa firme, decidida, que sabe se impôr quando preciso. Elogios também sobram para o elenco de apoio, especialmente para o já citado Jean-Claude Arnaud e para Laurent Grévill – que tem um papel secundário muito importante na trama.

Há Tanto Tempo Que Te Amo merece elogios, muitos elogios. Philippe Claudel estréia nas telonas com muita qualidade, e talvez seja um nome a ser guardado para o futuro. Apesar do erro – que pode ter estragado o filme de alguns – vejo ele como um aprendizado a ser seguido, melhorado. Tenho certeza que da próxima vez ele corrigirá esse tipo de problema e nos apresentará um trabalho ainda melhor. Enquanto isso, recomendo aos cinéfilos que corram para os cinemas o mais rápido que puderem, já que o longa estreou em poucas salas e deve ficar em cartaz por tempo limitado, infelizmente. E para finalizar, vale deixar o registro da bela trilha sonora, que foi muito bem selecionada e embala o filme maravilhosamente.

Minha Nota: 8.0

Direção: Philippe Claudel
Gênero: Drama
Duração: 117 minutos
Elenco: Kristin Scott Thomas, Elsa Zylberstein, Serge Hazanavicius, Laurent Grévill, Frédéric Pierrot, Claire Johnston, Jean-Claude Arnaud e Olivier Cruveiller.

Siga as principais novidades do Movie For Dummies também no twitter. Clique aqui!

Anúncios

Tags: , , , , , ,

7 Respostas to “Há Tanto Tempo Que Te Amo (Il y a Longtemps que Je T’Aime, 2008)”

  1. Pedro Tavares Says:

    Pretendo assistir esse em breve! Parabéns pelo blog!!

  2. Leka Marcondes Says:

    Que exageeeero! O filme é legal. Tem uma boa história, mas não é retratada da maneira tão dramática como vc disse. A irmã mais nova tem aquela carinha de frágil e vulnerável à mais velha, e não faz grandes coisas pra dificultar a vida da ex-presidiária, presa injustamente, blablabla. Podia ser mais trágico, então.
    Aliás, que medo é esse de falar sobre o ‘passado obscuro’ dela no texto? Qualquer um adivinha tudo logo que começa o filme, mesmo…

    Anyway. O filme retrata bem as dificuldades que envolvem a reinclusão social de ex-presidiários. Mas até nisso, erra, porque até o cunhado, que era tão revoltadinho em relação à presença de Juliette na casa, se rende logo à sua aparência inocente. E o velho carismático é usado como mera paisagem pelo filme.
    Mesmo quanto à cara fechada e pensativa da coitada ex-presa injustamente, era meio superficial, não transparecia grandes sofrimentos.

    Resumindo? Filme descartável.

  3. Bruno Pongas Says:

    Eu discordo!

    Primeiro que a dramaticidade que eu disse está em: tudo é trágio; as filhas que foram adotadas porque a mãe tinha medo que a irmã matassem elas. O velho teve um AVC e tinha a fala comprometida. A mãe das irmãs tinha Alzheimer e vivia numa cama de hospital, doida, doida. Resumindo… o drama é bem construído, mas falta aquele suspense que torne o filme melhor.
    Também discordo quando você disse que ela não transparecia grandes sofrimentos. Muito pelo contrário, achei que a atriz foi muito bem nesse ponto, já que para mim ela teve uma atuação muito competente e sincera. Sim.. o velho é usado como paisagem no filme, e em nenhum momento eu falei que ele tinha um desempenho fundamental, mas é sim um personagem carismático. E para finalizar, não é que o tal do Luc se rende rapidamente à aparência frágil da Juliette, é que realmente ela se mostra uma pessoa inofensiva…

    Enfim, opiniões diferentes… :D

  4. Daniela Says:

    Bruno,

    Você sabe qual é a música que fecha o filme?! Assim como você também a trilha sonora muito boa.

    Daniela

  5. Naomi Says:

    Jean Louis Aubert – Dis quand reviendras-tu

    ;D

Comente!

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s


%d blogueiros gostam disto: