Apenas o Fim (Apenas o Fim, 2009)

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Apenas o Fim

Por Alessandra Marcondes

Ainda não assistiu? Então desligue o computador e corra para o cinema mais próximo. Antes que tirem o pobre filme de cartaz…

Pobre porque seu orçamento se resumiu à rifa de uma garrafa de whisky – que, tudo indica, o ganhador nunca chegou a receber – e porque seus 80 minutos não venderam a alma ao império Globo Filmes, graças a Deus! Rico, por outro lado, em originalidade, simpatia e talento, atributos que fazem jus à famosa declaração de Glauber Rocha de que vale um “idéia na cabeça e uma câmera na mão” para executar um bom filme. Nos últimos anos, dá para contar nos dedos os produtos do cinema brasileiro que não se rendem à obsessão pela violência, ao retrato de uma miséria massacrante ou à comédia fútil e escrachada, sem grande elaboração. Neste cenário, surge Apenas o Fim, realizado por um estudante de cinema, que lembra o inovador veterano Domingos de Oliveira, e faz um projeto parecidíssimo com os belíssimos Antes do Amanhecer e Antes do Pôr-do-Sol (Richard Linklater).

Pitadas de humor e sarcasmo amenizam um momento teoricamente dramático: o término entre um casal. Tom, esteriótipo do nerd, está levando um fora de sua namorada, a cobiçada entre a turma, meio neurótica e indecisa, que está deixando família, faculdade, amigos e namorado para buscar uma felicidade hipotética em outro lugar. Diferente da seqüência norte-americana, a separação dos dois é causada por vontade própria da personagem de Erika Mader, dando início às diferenças do trabalho de Matheus Souza para o de Linklater. O brasileiro opta por um filme leve, e confia nas referências à cultura pop, nos símbolos da adolescência de 1990 e na personalidade excêntrica do casal para fugir do melodrama romântico em passagens hilariantes sobre pokemon, videogames, batata frita no café da manhã…

O longa tem também bem definido o seu público alvo, e criou todas as parafernalhas virtuais que a tal faixa etária adora: blog (do filme e do personagem), twittermyspace, orkut (perfil e comunidade)… Além das redes sociais, a identificação da platéia com a trama se dá principalmente pelo carisma de Gregório Duvivier, que é o eterno adolescente, vestindo camisetas da ‘maior trilogia de todos os tempos, Star Wars’, mas consegue passar a melancolia de momentos dolorosos, como quando grava seu recado para a namorada levar de recordação. As paisagens belíssimas do campus da PUC Rio são muito bem combinadas à trilha sonora suave, que (é lógico) tem Los Hermanos como presença barbuda especial. Os esteriótipos do amigo chato, da ex-namorada, e os clichês de não falar sobre amor também aparecem, e a metalinguagem do filme rodado dentro do filme nos permite um final diferente, talvez mais próximo do que queríamos ter.

O mérito do longa está em seu espírito de experimentação, que não tem compromissos com o que já existe ou não no cinema. Como numa tentativa de aplicar os conhecimentos adquiridos na faculdade, Matheus Souza explorou técnicas simples de preto e branco, cortes de câmera e distorção de imagem esquecidos pela grande indústria por parecerem óbvios, mas que compõem a magia de brincar com recursos audiovisuais. Em críticas cospe-fogo, li a opinião de quem chamou seu trabalho de nomes censuráveis porque ‘não é nada de novo’ e ‘já foi feito antes’. Ok, talvez não tenha o experimentalismo (entediante, diga-se de passagem) de Terra em Transe, nem uma crítica pomposa como em Cidadão Kane, mas, dentro das possibilidades, há de se admitir que Apenas o Fim alcança de maneira honesta seus objetivos com um cinema simples que dá gosto de ver.

Direção: Matheus Souza
Gênero: Comédia
Duração: 80 minutos
Elenco: Gregório Duvivier, Erika Mader, Marcelo Adnet e Nathália Dill.

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3 Respostas to “Apenas o Fim (Apenas o Fim, 2009)”

  1. Bruno Barbosa Says:

    Disse tudo Alessandra, agora é só esperar os próximos trabalhos do Matheus Souza, que ao que parece não são poucos…

  2. Bruno Pongas Says:

    O que eu achei mais legal foram as referências aos ícones da década de 1990. Quem foi adolescente nessa época facilmente pôde se identificar com o carisma dos personagens. Achei o filme genial!

  3. Fábio Nazaré Says:

    O cara realmente soube explorar bem o espaço da PUC. Como não podia sair da faculdade com a camera, transformou uma restrição numa vantagem. Ficou bem legal!

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