Entre os Muros da Escola (Entre les Murs, 2007)

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Os alunos reais que interpretam Entre os Muros posam para a foto junto do real professor-escritor François Bégaudeau.

Os alunos reais que interpretam Entre os Muros posam para a foto junto do real professor-escritor François Bégaudeau.

Por Alessandra Marcondes

Todo mundo sabe que o principal pilar de uma sociedade bem constituída é a educação. Para formar indivíduos eticamente responsáveis e conscientes nos âmbitos político, econômico e social, o mais importante para o Estado não é investir em infra-estrutura, saúde ou habitação – estes também possuem tremenda importância, que fique claro -, mas sim valorizar o trabalho de professores competentes e proporcionar sua qualificação. Entre os Muros da Escola é um dos melhores filmes atualmente em cartaz: dá conta de desmembrar os problemas do ensino público francês de forma íntima, mas também estende os horizontes da discussão ao ponto de nós, aqui no Brasil, desatarmos a pensar nas insuficiências do nosso próprio sistema de ensino. Afinal, se aquela Paris, famosa como pano de fundo para belos filmes de amor, marco turístico belíssimo e anos-luz à frente da humilde América Latina foi capaz de admitir sua dificuldade em lidar com as diferenças étnicas e sociais dentro de uma sala de aula, quem somos nós para nos esconder atrás do rótulo de país emergente em progressiva ascenção?

A narrativa rápida flui em ritmo de conversa, típico de cinema francês, e, junto da ausência de trilha sonora para embalar as cenas, nos permite mergulhar nos acontecimentos em uma representação mais fiel do real. Sem a dramatização ‘frufru’ demais do estilo de hollywood, demoramos a entender que, talvez, o longa seja tão convincente porque foi inteiro interpretado por alunos de verdade, professores de verdade e pais de verdade. O protagonista é também o autor do livro que deu origem ao filme, François Bégaudeau, e não passa de um professor que escreveu sobre a sua própria experiência de tentar ensinar francês para uma turma de alunos não muito amigável.

A história inicia junto com o ano letivo de uma escola de ensino médio na periferia de Paris, e o espectador vai desvendando aos poucos os personagens como se fosse aluno novo daquele colégio. Impossível não lembrar da época de revolta para com o professor chato que te deu bronca na frente da sala toda, do nervosismo de ser chamado pra fazer exercício na lousa, da zoação de quem não liga muito para o que os adultos vão pensar a respeito. Deixando de lado a criança dentro de nós, o que desperta interesse nos 128 minutos de filme é o número de obstáculos que impedem o professor François Marin de atingir sua meta: conquistar a atenção daqueles pré-adolescentes cheio de opiniões, hormônios e energia. Quando incorpora uma linguagem popular, mais próxima dos alunos, corre o risco de se tornar ‘íntimo demais’, e perder sua posição de mestre que merece respeito. Se reage a provocações com métodos repressivos, se sai como carrasco. A realidade é que ninguém pensa em quão difícil se mostra a tarefa de manter um grupo de pessoas ainda imaturas – portanto, sem grande controle de seus impulsos – com personalidades e interesses tão diferentes em harmonia, muito menos quando estas são obrigadas a frequentar a escola por razões que talvez não entendam. O grupo de professores, como classe profissional obediente a uma instituição, deve medir suas atitudes com a sala de aula, pois não tem a mesma autoridade dos pais, agindo de maneira moderada em circunstâncias que pedem reações enérgicas. O mais paradoxal é que a escola sempre foi entendida como uma extensão do lar para a boa criação dos filhos, e são os próprios pais que limitam os métodos que pode usar aquele professor – que, pasmem, é humano!

É lógico, não sou a favor de que crianças desobedientes ajoelhem no milho ou dêem a mão à palmatória. Mas nas cenas da reunião com os pais, por exemplo, fica evidente os interesses contrastantes dos tutores, que não seriam todos atendidos nem por milagre! A mãe do aluno prodígio pede por um ensino mais forte, enquanto metade da classe não realiza as tarefas passadas para casa. A mãe africana daquele que nunca presta atenção na aula comparece à reunião, mas, sem dominar a língua francesa, leva o outro filho de intérprete, que não vai dedurar o irmão relapso. E no meio de tudo isso, descobrimos que os professores nem sempre estão com tanta gana de ensinar, conquistar a sala, formar o futuro de seu país – talvez seja mais importante discutir o aumento do preço do café, ou comemorar a gravidez de uma das professoras. O próprio diretor, Laurent Cantet, reconhece que um dos méritos do filme é mostrar os mestres como falíveis, e não “indivíduos sempre inspirados a fim de mostrar para os alunos como a vida é maravilhosa”.

E no meio de uma representação sincera do âmago de uma sala de aula, quando estamos começando a acreditar que os alunos são os grandes culpados pela falta de qualidade do ensino e pela falta de dedicação dos professores… nosso herói errante desliza feio reagindo às provocações das alunas mais ‘problemáticas’ com agressão verbal. E como violência só gera violência, o quadro só tende a piorar, ocasionado pela atitude de um ser humano que deveria ser capaz de se controlar frente a provocações imaturas. Mas, para endossar a face denunciativa do filme, ao invés de terminar da forma que seria mais justa tanto para professor quanto para aluno, a história finaliza assim como as grandes questões da vida real: bem para o ‘burguês’, que sabe usar o imperfeito do subjuntivo, mal para o incompreendido, que só precisava de um empurrãozinho para tomar o rumo ‘certo’. Sorte da aluna que se dedicou a Platão como leitura extra-curricular por conta própria, já que o professor não acreditou na capacidade da  sala de entender leituras mais complexas. Azar daquela que, com dor verdadeira no coração, olha para o professor ao final do ano letivo e, em um desespero gritante, diz: eu não aprendi nada.

“Não há nada mais triste que remar em um oceano
sem ter por que continuar.”
.
Direção:
Laurent Cantet
Gênero: Drama
Duração: 128 minutos
Elenco: François Bégaudeau, Nassim Amrabt, Laura Baquela, Cherif Bounaïdja Rachedi, Juliette Demaille

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2 Respostas to “Entre os Muros da Escola (Entre les Murs, 2007)”

  1. Drika Says:

    Muito boa crítica, assim cmo é boa a crítica social feita no filme. parabéns!

  2. Bruno Pongas Says:

    Apesar de ainda não ter visto o filme, vejo pela crítica que parece ser uma obra imperdível! Realmente o problema da educação é muito grande, e, se é assim na França – badalado país de primeiro mundo -, imagine só se estendermos isso à proporções mundiais. Parece consenso que isso é algo preocupante para todas as nações, especialmente àquelas que possuem diferenças étnicas gritantes, como é o caso dos franceses.

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