FilmeFobia (FilmeFobia, 2008)

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Bernardet joga partida de pôquer sangrenta com o diretor Kiko Goifman, que tem fobia de sangue e chegou a desmaiar durante as filmagens.

Bernardet joga partida de pôquer sangrenta com o diretor Kiko Goifman, que tem fobia de sangue e chegou a desmaiar durante as filmagens.

 Por Alessandra Marcondes

Mais do que um filme de terror, FilmeFobia desmembra o modo de fazer cinema, brincando com seus elementos – seria um documentário, um making of, ou puro retrato mal feito de uma realidade manipulável? Entretanto, o longa é bem menos do que um filme de terror quando produz um trailler aterrorizante, servindo de chamariz para público semelhante ao da saga de Jogos Mortais, sem fornecer o que os sadomasoquistas de plantão desejam realmente: terror, suspense, e uma trama que os impeça de sair da sala. Pois bem! Mesmo que o filme se perca em alguns momentos, se valendo de fobias desinteressantes ou de diálogos que direcionam o espectador para uma linha de raciocínio óbvia, a experiência analítica de FilmeFobia vale a pena. O longa se transforma em uma espécie de aula de psicologia, e os pobres mortais, que não conseguem se identificar com medos bizarros como o de botões, podem pensar  melhor a respeito do encademento de situações-limite entre os seres humanos.

Na trama, um diretor interpretado por Jean Claude Bernardet – um dos principais estudiosos de cinema no Brasil – busca a imagem ‘verdadeiramente autêntica’ passada por um homem diante de sua fobia. Com o auxílio da trilha sonora de Lívio Tragtenberg e das geringonças projetadas por Cris Bierrenbach, cobaias com os mais diferentes medos são ‘obrigadas’ a enfrentá-los, em circunstâncias construídas artificialmente com tremenda criatividade – no caso da fobia de sexo, por exemplo, o ato é simulado por carrinhos de controle remoto amarrados a vibradores que batem desenfreadamente na garota nua, suspensa no meio da sala. Porém, a linha entre ficção e realidade é turva desde o início: Jean-Claude, hoje com AIDS e com a ameaça de perder a visão, interpreta a si mesmo discutindo a relação entre os fóbicos do filme e seu medo da cegueira iminente, e justifica seu aparente sadismo com a desculpa de procurar pela imagem perfeita enquanto ainda pode enxergá-la.

O rumo para making of é traçado: a todo o tempo, diálogos intermináveis entre a equipe do filme demonstram a preocupação com o encaminhamento ético do experimento. Cada um expõe seu sentimento quanto às cenas das fobias, pois de forma no mínimo estranha – para não dizer doentia – o grupo continua agindo da maneira esperada: um filma, enquanto o outro discoteca, e uma terceira fotografa, não importando o nível de descontrole atingido pelo fóbico. Nas circunstâncias mais absurdas, o real diretor do filme, Kiko Goifman, desmaia várias vezes enfrentando sua própria fobia de sangue e, ainda assim, continua a se submeter ao sentimento horroroso catalisado pela dor em seus olhos, que foram mantidos abertos por fitas adesivas, para bloquear sua única forma de defesa. Ao mostrar também a fobia de palhaços, na qual o fóbico não teve reações aparentes e, portanto, ‘não deu certo’, o longa se diz legitimamente documental, mostrando seus acertos acompanhados de suas dificuldades, apimentadas pela discussão na qual o fóbico chama Jean-Claude de sádico.

Porém, depois das cenas desnecessárias de injeções no olho do pseudodiretor, e de muitas desistências na sala, o espectador que se manteve ali tem sua recompensa: descobre que foi enganado. A câmera flagra Jean-Claude dando instruções para uma atriz de como ela deveria agir de acordo com a fobia de cabelos e, logo depois, somos confrontados com uma atuação bem convincente dela como fóbica. Pergunta-se então: assisti a um filme inteiramente mentiroso? Infelizmente, é difícil responder à questão. No próprio making of, há o depoimento da fóbica de cabelos indignada com o experimento, e a claustrofobia interpretada por Bernardet, que desce em um poço de sete metros de profundidade e grita sufocado lá embaixo, sai em catarse, mas depois de acabada a cena, sorri, abraça Goifman e diz que foi “marravilhoso”.

FilmeFobia não é o primeiro falso documentário que manipula a realidade de forma assumida;  Jogo de Cena (Eduardo Coutinho) utilizou o recurso como proposta inicial ao misturar mulheres desconhecidas a atrizes, enquanto João Moreira Salles viu a chance de pedir desculpas ao mordomo falecido assumindo seus erros na documentação de Santiago. Entretanto, como se espera dos grandes nomes por trás do longa, FilmeFobia faz raciocinar além de seu roteiro sádico-ou-não-sádico: chama a atenção para a era frenética de reprodução de imagens que vivemos hoje, fazendo um apelo ao senso crítico existente nos homens, para que estes abandonem o consumo de informações fáceis para construir uma consciência sólida diante das manifestações midíaticas. As câmeras focadas na preparação detalhada das fobias também dão uma boa aula de cinema, na qual se aprende a pensar em cada elemento de uma cena, para que o objetivo da mensagem não se perca – fóbicos completamente nus transmitem a imagem de indefesos, enquanto o esteriótipo do diretor doente que resolve transmitir dor aos outros o coloca no lugar perfeito de sádico, sem esquecer da participação de Zé do Caixão, que agrega ao filme mais marcas de terror.

Direção: Kiko Goifman
Gênero: Terror
Duração: 80 minutos
Elenco: Jean-Claude Bernardet, Cris Bierrenbach, Hilton Lacerda, Lívio Tragtenberg, Kiko Goifman

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Uma resposta to “FilmeFobia (FilmeFobia, 2008)”

  1. Bruno Pongas Says:

    Filmefobia é um filme bizarro, mas mesmo assim tem umas partes muito interessantes nele. Jean-Claude Bernardet é um sádico maluco, pelo menos foi essa a impressão que eu tive após sair do cinema. Mesmo com algumas fobias desnecessária, foi uma experiência interessante. Nota 6.5!

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