Import Export (Import/Export, 2007)

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Sem perspectiva no gelado Leste Europeu, jovem ucraniana busca melhora de vida através da pornografia via internet

Sem perspectiva no gelado Leste Europeu, jovem ucraniana busca melhora de vida através da pornografia virtual

Por Bruno Pongas

Estreou nesta sexta-feira no circuito brasileiro o longa austríaco Import Export. Datado de 2007, o filme chega ao Brasil apenas dois anos após ter passado pelas salas europeias e chocado espectadores no concorrido Festival de Cannes e nas mostras de cinema pelo mundo. O diretor Ulrich Seidl busca aqui fazer um retrato do atual cenário europeu de forma pessimista e chocante, apelando muitas vezes para o tragicômico – efeito que consegue suavizar algumas cenas. Para se ter uma ideia, na sala de cinema onde eu estava, diversas pessoas se sentiram incomodadas com o teor pesado do longa e foram embora antes mesmo da trama atingir sua metade final.

Import Export conta duas histórias paralelas de jovens (uma ucraniana e um austríaco) insatisfeitos com a vida que levam em seus respectivos países. Sem grandes perspectivas, ambos enxergam numa viagem pela europa a chance de tudo mudar completamente. Olga (Ekateryna Rak), nascida na gélida Ucrânia, ex-república soviética, é enfermeira na sua cidade natal; no entanto, a vontade de melhorar de vida faz com que ela se sujeite ao mercado negro da pornografia na internet. Daqui surgem as cenas mais fortes do longa, que em nenhum momento poupa os espectadores das cenas de exibicionismo sexual (nada fica oculto, nada mesmo!). Sem sucesso na empreitada, Olga muda de país, vai para a Áustria – país com qualidade de vida superior à Ucrânia (é daqui que surge o título do filme, que tem nos fluxos migratórios uma de suas vértices principais).

Do outro lado está o jovem Pauli, que faz o caminho oposto de Olga. Ele vive na Áustria, mas a falta de emprego o causa crescente desconforto. Aqui, o diretor austríaco Ulrich Seidl faz uma crítica à própria sociedade de seu país, que, apesar de apresentar uma melhora constante nos índices internacionais de desenvolvimento e qualidade de vida, ainda sofre com os resquícios de uma sociedade hierárquica e destruída pelo sofrido período da Segunda Guerra Mundial. Sem muitas alternativas e devendo dinheiro para colegas, Pauli aceita viajar com seu padrasto – figura da qual reserva certo repúdio -, em um trabalho que envolve o transporte de máquinas de apostas para o leste europeu.

Logo na primeira passagem da dupla, em Kosice, lado leste devastado da Eslováquia, vemos um cotidiano diferente do que estamos acostumados a acompanhar quando o assunto é Europa. Aqui, Seidl faz um retrato muito interessante da pobreza existente no velho continente. Nada de belas imagens e pessoas bonitas, como a TV busca incessantemente nos passar. A realidade dos países frios do leste europeu é bem triste, e lembra em muitos momentos a pobreza que preocupa continentes como África e América do Sul. Para colorir de tristeza a trama, a fotografia em tons frios entra em contato direto com as temperaturas negativas e provoca um efeito nostálgico e melancólico no espectador – o tragicômico viaja ao trágico em cerca de segundos, como na cena em que Olga, já na Áustria, fala ao telefone com sua filha pequena que ficou na Ucrânia.

Import Export possui muitos pontos positivos, seja como retrato aberto de uma sociedade caótica ou pelo registro documental de um continente que também sofre as agruras do subdesenvolvimento e o massacre impiedoso das potências capitalistas. Pessimismo e determinismo? É inegável que Ulrich Seidl enxerga o continente europeu sob uma perspectiva totalmente negativa, mas seria ilusório de nossa parte ignorar que ali está o retrato de uma Europa  esquecida e menosprezada, e que sim, ela existe e está bem debaixo dos nossos olhos. A pornografia em suas mais variadas formas e tudo de grotesco que se possa imaginar servem apenas como pano de fundo para esse retrato, pois têm o poder de chocar e causar aquele estranhamento meio negativo, meio positivo, que sem dúvida fica na memória e estimula a refletir. Talvez Seidl tenha pecado pelos excessos, pois realmente existem cenas muito fortes e vulgares no longa; no entanto, sem esse teor chocante, Import Export seria mais um daqueles filmes que denunciam problemas sociais de uma forma óbvia e bem humorada, só que sem um pingo de originalidade.

Minha Nota: 8.0

Direção: Ulrich Seidl
Gênero: Drama/Comédia
Duração: 135 minutos
Elenco: Ekateryna Rak, Paul Hofmann, Michael Thomas, Maria Hofstatter, Natalya Baranova, Georg Friedrich, Erich Finsches.

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9 Respostas to “Import Export (Import/Export, 2007)”

  1. Pedro de sá (james) Says:

    filme é uma bosta

  2. Jose Bonifácio Says:

    Gostei da crítica, foi bem pontuada. Um dos melhores filmes da 31 Mostra. Realmente impactante mas não menos adorável. Assisti na Mostra e na repescagem e indiquei para alguns amigos para vermos juntos (filme bom merece ser assitido com os amigos) mas so eu e meu parceiro adoramos. Houve crítica bem negativa, inclusive pelos que se dizem cinéfilos clássicos da Mostra (se é q isso existe). As pessoas estão acostumadas com filmes que contenham “cabeça, tronco e membro” e esperam sempre por um feel good movie, da mesma forma que vao ao teatro brechtiano esperando ver comédia. Import Export é o tipo de filme que merecia ficar por mais tempo nos cinemas alternativos para que todos tivessem a chance de digerir a angustia, a solidao, o desprezo, a sumissao, as relaçoes de poder e outros aspectos da condição humana pontuados no filme sob a ótica do diretor austríaco, em uma socieade que não está muito distante da nossa. Parabéns pela sua observação e vamos revê-lo.

  3. Leka Says:

    Olha… Não acho que o problema seja o filme ser apocalíptico porque as pessoas sentem a necessidade de assistir a um filme agradável. O problema é que Import Export exagera, e transforma a Europa inteira – tanto ocidental quanto oriental – em um bordel, sem esperanças de melhorar. Qual é o ponto de tratar de fluxos migratórios se o longa fecha os olhos para a evidente vantagem da Áustria sobre a Ucrânia?

    Existem cenas que valem a pena, como o bando de criança atrás dos doces coloridos vindos do novo mundo, mas outras totalmente desnecessárias que acabam banalizando problemas reais de submissão e domínio humano.

  4. Bruno Pongas Says:

    Eu acho que não é uma questão de fechar os olhos. Ali é retratada uma Ucrânia devastada e uma Austria ascendente, mas mesmo assim ambas com problemas.

  5. Leka Marcondes Says:

    Ah, mas não sei… se retratasse problemas típicos da Áustria, tudo bem, mas o roteiro traçou cuidadosamente a trama de um jovem meio preguiçoso que deu azar, com um padastro desiquilibrado, condições específicas. Não pode ser considerado um retrato do pensamento europeu.

  6. Bruno Pongas Says:

    Ah, sim, também acho! Vejo mais como uma visão pessimista do diretor do que um retrato totalmente fiel do continente…

  7. Bruno Pongas Says:

    Só para completar, acho que é sim um retrato do continente, mas longe também de ser uma verdade absoluta. O conteúdo exposto alí, além de conter relatos de vivências, é puramente opinativo e pessoal. Mas isso não diz necessariamente que aquilio não exista de alguma maneira.

  8. Luciano Marra Says:

    A crítica bateu mais ou menos com a minha. Gosto desse realismo cru, achei que valeu a pena assistir. Alumas partes achei o filme meio lento. Coloquei para download no blog, abraço.

  9. O Silêncio de Lorna (Le Silence de Lorna 2008) « Movie For Dummies Says:

    […] ter assistido a dois longas nos cinemas que tratavam desse mesmo tema: Import/Export e Bem-Vindo. O primeiro mostra a decadência do leste europeu através de uma mulher que sai da Ucrânia em busca de […]

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