Valsa com Bashir (Valse Avec Bachir, 2008)

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valsaBashir

Por Bruno Pongas

O mais importante, antes de tudo, é fazer um breve resumo do panorama histórico no qual Valsa com Bashir se situa.

No ano de 1982, Bashir Gemayel foi eleito presidente do Líbano; três semanas depois, no entanto, foi assassinado em atentado terrorista na capital Beirute. A morte do principal líder libanês comoveu o povo e provocou a ira dos soldados da milícia falangista (que coincidentemente havia sido fundada por Pierre Gemayel, pai de Bashir). Desta maneira, eles resolveram escolher um culpado, e quem pagou o pato foram os palestinos – até hoje nunca se confirmou os reais idealizadores do atentado.

É sempre bom ressaltar que a família Bashir era forte aliada do governo israelense, possuidora de um dos exércitos mais fortes e bem treinados do mundo. Assim, com liberdade total, Israel em poucos dias já dominava a capital libanesa e conseguia minar facilmente o poderio da OLP (Organização para a libertação da Palestina). É importante lembrar também que, a longo prazo, o plano israelita era intensificar o processo de colonização da Cisjordânia – território históricamente dividido entre israelenses e palestinos.

Com a morte de Bashir, no entanto, o plano de Israel se esfacelou. Como um último recurso, numa tentativa desesperada por poder absolutamente repugnante, o então Ministro da Defesa, Ariel Sharon, ordenou que seu exército colaborasse com a represália falangista ao povo palestino. Assim, os soldados israelenses fizeram parte de um dos episódios mais dantescos e cruéis da história da humanidade, quando massacraram milhares de pessoas (400 a 3000, dependendo da fonte), nos campos de concentração de Sabra e Shatila.

Ainda garoto, no auge dos seus 19 anos, recém-separado da namorada, estava Ari Folman. Folman participou da Guerra do Líbano quando jovem, mais tarde, migrou para a TV israelense como produtor, diretor e roteirisa. O boa receptividade de seu trabalho lhe rendeu uma carreira premiada. Em 2008, o diretor apresentou ao mundo Valsa com Bashir, que nada mais é do que um apanhado de suas memórias esquecidas na terrível guerra da qual participou. Apenas à título de registro, a aparência jovial juntamente à inocência de um novato em meio ao conflito, me fez lembrar a ingenuidade angustiante de Hanna Schmitz, personagem interpretada por Kate Winslet em O Leitor.

Comparativos à parte, o pano de fundo para o desenrolar da trama é uma conversa entre Ari Folman e Boaz, um amigo particular. Boaz revela que há dois anos vem tendo o mesmo sonho: 26 cachorros enfurecidos correm atrás dele de forma alucinada. Ele relaciona o sonho a um episódio vivido na Guerra do Líbano, quando incapaz de matar um ser humano, foi ordenado a eliminar os cachorros existentes num vilarejo que seria invadido por Israel. Após a conversa, na volta para casa em seu carro, Folman se dá conta que nunca guardou nenhuma lembrança do terrível período. Ele estaciona, e pensativo observa o mar ao longe: pela primeira vez em 20 anos um flashback vem à sua mente. A imagem, que será explorada durante todo o filme, recorre a um dia em que estava no mar com mais dois soldados, observando a noite e os prédios da capital Beirute. Decidido a reviver os fantasmas do passado, Folman recorre aos seus companheiros da época do front para alimentar sua memória.

Valsa com Bashir é muito bem construído e estruturado na forma de um documentário. Imagéticamente muito forte e bonito, impressiona a técnica de filmagem utilizada. Primeiramente, todas as cenas foram gravadas de maneira convencional (as cenas documentais), depois, os desenhistas aplicaram aquilo tudo no papel com objetivo de tornar o mais real possível. O resultado é muito agradável aos olhos do espectador, que se impressiona com a tamanha realidade. A riqueza das cenas é tanta, que em diversas passagens se esquece que aquilo tudo é puro desenho. Destaco as partes em que há conflitos, que foi onde o diretor teve liberdade plena para recriar memórias imersas em seu subconsciente. Um grande exemplo é a cena que por coincidência dá origem ao nome do filme: Fremkel, um dos companheiros de Folman em meio à guerra, sai atirando desesperadamente e contra a resistência palestina; envolto por cartazes propagandistas do governo de Gemayel Bashir, ele se move como se estivesse sendo embalado por uma bela valsa – um retrato inesquecível.

Outro ponto interessante no roteiro do longa é uma abordagem psicológica bem retratada. Logo no início da trama, Ari Folman procura um velho amigo, o psicólogo Ori Sivan. O ex-combatente aponta seus dilemas e dramas por pouco lembrar sobre os conflitos no Líbano. Sivan, ao tomar conhecimento do caso do amigo, explica com embasamento teórico alguns dos efeitos psicológicos que podem estar acontecendo, como a tendência que temos em esconder fatos obscuros de nossa vida nas profundezas do subconsciente. É aí que o psicólogo aconselha Folman a procurar seus ex-companheiros em busca de uma verdade adormecida.

Valsa com Bashir concorreu ao oscar de melhor filme estrangeiro, no entanto, mesmo estando cotado como favorito para vencer, foi derrotado pelo longa japonês A Partida. Uma pena, pois a mistura empregada por Ari Folman, que mistura realidade e elementos fictícios, ficou muito bem feita. Aos defensores da causa palestina, o diretor mostra com clareza os absurdos cometidos por Israel (apadrinhados pelos Estados Unidos), que vem acontecendo há muito tempo e até hoje nunca foram reprimidos como deveriam. É triste saber que mesmo um filme que apresente isso nos mínimos detalhes dificilmente fará mudar tal panorama; mesmo assim, é um conteúdo e um registro histórico magníficos que todos deveriam assistir.

Minha Nota: 9.0

Direção: Ari Folman
Gênero: Drama
Duração: 90 minutos
Elenco: Vozes originais de: Ari Folman, Ron Ben-Yishai, Ronny Dayag, Dror Harazi, Ori Sivan, Zahava Solomon.

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3 Respostas to “Valsa com Bashir (Valse Avec Bachir, 2008)”

  1. Leka Marcondes Says:

    Quem disse que desenho é feito pra criança, afinal? Estranho pensar em um documentário nesse formato!

  2. shaun red Says:

    cara… acho que esse foi um dos melhores filmes de 2008.

    é algo fantástico, simplesmente.

    e aquele final com cenas reais é um choque de realidade. sinistro.

  3. Bruno Pongas Says:

    Concordo com você… Nada mais real do que as próprias imagens do conflito…

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