Adaptação (Adaptation, 2002)

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Susan muda de opinião sobre John Laroche à medida que conhece o mundo apaixonante das orquídeas raras.

Susan muda de opinião sobre John Laroche à medida que conhece o mundo apaixonante das orquídeas raras.

Por Alessandra Marcondes

Adaptação é um filme complicado, confuso, com muitas informações inseridas na trama e também por trás das filmagens – por isso, mais difícil ainda escrever a respeito dele. Mesmo assim, a gente dá um jeito:

Um livro: “O Ladrão de Orquídeas”, publicado nos Estados Unidos em 1988.
Sua autora: Susan Orlean, jornalista, que manteve contato com seus personagens para escrever suas histórias. 
Um roteirista: Charlie Kaufman tem a tarefa de adaptar o livro “Ladrão de orquídeas” para a telona.
Tais fatos são reais; o livro existe, trata da imersão da jornalista no mundo das orquídeas raras e, Charlie Kaufman, para quem não conhece, é o ganhador do Oscar de Melhor Roteiro Original por Brilho Eterno de uma Mente sem Lembranças.

Já o filme trata das dificuldades que Kaufman enfrenta para adaptar “O Ladrão de Orquídeas”, por esta ser uma obra basicamente descritiva, que engloba diversos casos ao mesmo tempo, sem um enredo linear. Porém, em Adaptação, o roteirista tem um irmão gêmeo, e a escritora tem um caso com o ladrão de plantas John Laroche – fatos fictícios. Como se tratam de personagens reais e Nicolas Cage dá vida a um Charlie problemático e brilhante, que condiz com o esteriótipo de genialidade cult impregnado em nossas mentes, impossível para o espectador não se convencer da legitimidade dos fatos apresentados. Mas se em Quero ser John Malkovich a direção de Spike Jonze utiliza circunstâncias surreais para criticar a obsessão por personalidades famosas, seu toque especial em Adaptação é mesclar ficção e realidade a todo momento, sendo possível somente para quem dedica atenção total a cada um dos 114 minutos de filme compreender a história.

O longa tem alto potencial informativo. Ao mesmo tempo em que critica a indústria hollywoodiana e suas incontáveis histórias óbvias, aborda a tarefa utópica de ser fiel à obra original quando esta é adaptada por uma arte de natureza distinta, trata do envolvimento anti-ético entre pesquisador e objeto analisado, e ainda passa a lição (seja “de auto-ajuda”, como li em crítica, ou não) de que o sentimento que procuramos para dar sentido às nossas vidas é inalcançável, pois a insatisfação do homem moderno está muito acima dos obstáculos em se conseguir dinheiro, paixões ou orquídeas-fantasma. Susan (interpretada por Meryl Streep) se encanta com o mundo de apaixonados por orquídeas, nos promovendo uma trama sensível e instrospectiva, combinada com belas imagens florais – sem deixar de lado o diálogo emocionante sobre as espécies de insetos que se encaixam perfeitamente com certos tipos de plantas, conspirando para a manutenção do universo. Na outra ponta, utilizando-se muito bem da voz em off, Charlie Kaufman narra hilariamente o fluxo de consciência de um fracassado, meio careca e meio gordo, sem idéias para iniciar um roteiro, e sem jeito nenhum para lidar com as mulheres.

Temos então um filme inteligente e original, que proporciona as mais diferentes sensações em meio ao enredo marcado de estranhezas – como a utilização de cenas dos bastidores de Quero ser J. M., por exemplo. Charlie Kaufman só queria fazer um filme sobre flores, sobre o sentimento maravilhoso de admiração que elas transmitem, sobre seu poder, sua beleza e todas as coisas do universo interligadas. Mas sua crise criativa fez com que pedisse ajuda para seu irmão Donald, de idéias fáceis e massificantes, para dar um final à sua obra. O que acontece então? O filme descamba, temos uma sequência final que mescla tráfico de drogas indígena, casos secretos entre a madame e o caipira, perseguições e assassinatos. Admito que não era o que eu esperava. Mas o nome de Donald Kaufman – personagem irreal, lembra? – aparecendo como co-autor do roteiro nas sinopses oficiais de Adaptação dá uma dica do efeito metalinguístico meio bizarro que os autores pretendiam. Como se fosse uma briga entre dois mundos dentro de uma única pessoa, a obrigação de ser original misturada à tentação de cair no óbvio. Para quem está familiarizado com Charlie Kaufman e seus finais que ficam suspensos no ar, não há surpresas negativas – é só se deliciar.

 Eu queria saber qual é a sensação de gostar
de alguma coisa tão apaixonadamente.

Direção: Spike Jonze
Gênero: Comédia
Duração: 114 min
Elenco: Nicolas Cage, Meryl Streep, Chris Cooper, Tilda Swinton

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6 Respostas to “Adaptação (Adaptation, 2002)”

  1. Bruno Pongas Says:

    Dormi ao invés de ver o filme :/
    Bom, pelo que li, “Adaptação” parece um produto muito difícil de ser analisado, mas a genialidade do Kaufman é inegável.

  2. Marina Says:

    adoro o kaufman e adaptacao é mais um dos seus belos filmes, mto diferente de tdo que estamos familiarizados a ver

  3. Paulinho Says:

    Gostei do filme apesar de ter axado bstt confuso…nicolas cage eh um dos meus atores prediletos ! ! !

  4. Filipe Cury Says:

    É o tipo de filme que você precisa assistir duas vezes. Quando acaba dá aquela sensação: “acho que eu perdi alguma coisa…”

  5. Roberto Camargo Says:

    Consegui assistir apenas trechos do filme, o que fez com que a película parecesse muito mais confusa do que já é (pelos comentários aí de cima). Acredito que a crítica ao estereótipo hollywoodiano vale também para todos nós, espectadores. Quando vemos algo que foge dos padrões aos quais nos acostumamos, que subjuga o mito do herói, perdemos o fio da meada facilmente e desistimos de entender a trama um pouco mais complexa.

  6. Cesar Says:

    Amigos, onde posso comprar o dvd deste filme?

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