Gomorra (Gomorra, 2008)

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Por Bruno Pongas

O cinema sempre gostou de retratar os pontos fracos da sociedade e expô-los nua e cruamente. A arte brasileira, por exemplo, tem por costume retratar o cotidiano pobre e violento da vida nas favelas em meio ao tráfico de drogas. Quando a pauta é a África, temos como alvo a pobreza que assola o continente e os intermináveis conflitos étnicos entre as diversas tribos distintas. Na europa, no entanto, um dos assuntos preferidos dos cineastas é a máfia. Seja ela russa, como vemos em filmes como Senhores do Crime, ou a famosíssima máfia italiana – conhecida em todo o mundo.

A máfia na Itália se disseminou rapidamente a partir de meados do Século XIX. Com origem nos movimentos rurais, a que se tornou mais reconhecida a princípio foi a Cosa Nostra, originária da Sicília – sul do país. De fato, a Cosa Nostra se tornou famosa no mundo todo, embora tenha perdido um pouco de sua força nos últimos anos. A já citada máfia ganhou tamanha amplitude que acabou se espalhando em outros países – como a Austrália e o leste dos Estados Unidos. Inclusive, foi a ida de mafiosos italianos para a América do Norte que deu origem à clássicos como O Poderoso Chefão e Os Bons Companheiros.

Atualmente, existem mais dois grupos muito conhecidos na Itália. A Ndrangheta – que também atua ao sul do país (Calábria) e é dita como a mais influente hoje em dia -, e a Camorra, que é a única delas originária de movimentos urbanos – a cidade de Nápoles, ao noroeste da bota. A Camorra, que é retratada no filme Gomorra, possui uma estrutura que abrange cerca de 110 famílias e mais de sete mil afiliados. Entre os ramos, que variam de torturas a estelionato, figuram os tradicionais tráficos de drogas e armas.

Tudo isso é muito bem retratado no longa do estreante Matteo Garrone – que inspirou sua obra no livro-denúncia do jornalista Roberto Saviano. Saviano se infiltrou dentro da Camorra para escrever seu livro, coletou depoimentos e esmiuçou o cotidiano da violenta quadrilha. O árduo trabalho lhe rendeu diversas ameaças de morte e os mafiosos prometeram matá-lo até o final desse ano (2009). Ameaças deixadas de lado, o filme, apesar do excelente conteúdo denunciativo, tem uma série de problemas que merecem destaque.

O roteiro – que conta com uma série de colaboradores – opta por apresentar cinco histórias distintas dentro do dia-a-dia da máfia. Isso teoricamente deveria passar longe de ser um problema, já que obras recentes usam desse recurso e obtém resultados brilhantes – como o caso de Babel e 21 Gramas. No entanto, Garrone conduz a trama em um ritmo lento e tedioso, que chega a arrancar bocejos do espectador. É importante ressaltar que ele atenta para inúmeros detalhes, mas é fato que muitos deles poderiam ter sido deixados de lado, pois pouco acrescentam ao produto final. O detalhismo em excesso e as intermináveis cenas comprometem o ritmo do longa, que na primeira hora já se torna chato e cansativo. As cinco histórias, por sua vez, provocam desinteresse, e apenas duas delas deveriam ser tratadas com mais cuidado (a do garoto Totò e a dos dois jovens aspirantes a chefes do crime). Para mim, é realmente difícil de entender como Gomorra fez tanto sucesso na Europa e angariou prêmios disputados como o do Festival de Cannes.

Um ponto positivo, ao meu ver, foi desmitificar aquela figura imagética do mafioso – sempre bem arrumado, com terno impecável e com meia dúzia de capangas ao seu redor. Garrone consegue retratar a alta cúpula da máfia com realismo, sem aquela pompa que estamos acostumados a ver em grande parte das obras. Aqui, os chefes se vestem como todo mundo e deixam de lado aquela aura intocável de outros personagens do cinema. Talvez isso tire um pouco da graça, mas a veracidade também é algo a ser levado em conta.

Por fim, podemos analisar Gomorra sob dois pontos de vista diferentes. Se olharmos como filme, o longa é burocrático e pouco relevante para a história do cinema. No entanto, como denúncia, é um trabalho que todos deveriam assistir. A Itália passa longe de ser aquela que estamos acostumados a ver na TV – bonita, limpinha e com gente educada. A realidade do subúrbio napolitado é totalmente oposta; violência e pobreza se apresentam como carro chefe dessa obra irregular porém recomendada.

Minha Nota: 6.5

Direção: Matteo Garrone
Gênero: Drama/Policial
Duração: 137 minutos
Elenco: Salvatore Abruzzese, Simone Sachettino, Salvatore Ruocco, Vincenzo Fabricino, Vincenzo Altamura, Italo Renda, Gianfelice Imparato, Maria Nazionale.

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4 Respostas to “Gomorra (Gomorra, 2008)”

  1. O Cara da Locadora Says:

    Rapaz, sem comentar nada já que eu ainda nem vi o filme… 137 minutos??? Na minha locadora só tem 90 minutos… QUE BIZARRO!!

  2. Bruno Pongas Says:

    hahahaha pois é, o filme é looooongo… zzzzzzzZZzzZZzz

  3. Alyson Says:

    Ainda não o vi, mas já tenho o DVD ;)

    E tem um MEME para você, no meu blog.

    Abrass!

  4. Leka Marcondes Says:

    Uma baita aula de máfia a partir do filme, hein Pongas?
    Não faz muito o meu estilo, mas do que eu sei, afinal? Nem vi o Poderoso Chefão…

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