O Lutador (The Wrestler, 2008)

by
Randy e Cassidy discutem sobre música: anos 80 foram os melhores, até o Cobain chegar e 'estragar tudo'.

Randy e Cassidy discutem sobre música: anos 80 foram os melhores, até o Cobain chegar e 'estragar tudo'.

Por Alessandra Marcondes

Em tempos banhados por imagens superficiais, com a cultura da aparência reinando entre a sociedade e dando impulso a todo um mercado de produtos de beleza, academias e anabolizantes, nunca ficou tão claro que o homem não aceita a idéia de envelhecer. O processo que era para ser encarado como natural da nossa existência se tornou aterrorizante e melancólico, mais ainda para aqueles que dependem do próprio corpo para se sustentar. Na história de um só homem, quando a questão do envelhecimento se une ao abandono dos laços pessoais em detrimento à carreira profissional, temos o pano de fundo perfeito para um drama reflexivo como O Lutador.

Mickey Rourke interpreta um lutador de wrestling – luta livre baseada na arte da representação, com finais já combinados entre os participantes – em carreira decadente que, após um enfarto, se depara com o dilema de pôr sua saúde em risco continuando a lutar, ou parar de fazer a única coisa que moveu sua vida nos últimos anos. Ao longo do filme, desvendamos por trás do ator corpulento e cheio de cicatrizes um menino ingênuo, que chama os garotos vizinhos para jogar videogame em seu trailler. Foi inclusive a falta de amadurecimento de Randy que o fez perder contato com sua filha, muito mais por falta de atenção do que por maldade.

O espectador vivencia os altos e baixos de um homem em xeque, enquanto a figura de Cassidy (Marisa Tomei) dá um toque feminino ao filme, mesmo que sua fragilidade seja proporcional ao submundo da luta-livre, da prostituição e do hard rock. Da mesma forma que o mundo ‘real’ é um lugar hostil para Randy – representado pelo sarcasmo de seu chefe, que resume sua ocupação de lutador em ‘sentar no rosto de outros caras’ – a idade da stripper Cassidy vai aparecendo em seu rosto e coloca a personagem em situações humilhantes. Porém, o enredo contrapõe a mãe dedicada ao filho, que enxerga a hora de parar, com o lutador que força seus limites pois sua vida não teria sentido fora dos ringues.

O Lutador já garantiria sucesso por constituir um drama bem feito nos pilares da saga do herói em decadência, mas seu diferencial está nas escolhas para a representação de um dos diversos submundos da sociedade. Se um ícone da luta-livre como o ‘Carneiro’ Randy alcança tamanho sucesso entre os admiradores da modalidade, fica claro que existe todo um motivo para a existência de tais eventos não convencionais, nos quais os indivíduos liberam seus prazeres obscuros, seja exacerbando a violência ou a sexualidade. O diretor Darren Aronofsky faz refletir então, assim como em Réquiem para um Sonho, os processos sociais por trás de certas circunstâncias, pois não há o menor sentido em se ter preconceito contra homens musculosos de collants coloridos agarrando uns aos outros, já que é necessária a existência de formas para que as massas extravasem seus instintos mais profundos, garantindo assim o equilíbrio da humanidade.

Atentando para particularidades do universo da luta-livre, o longa coleciona cenas impagáveis, como a de Rourke de touca no cabelo retocando a tintura enquanto depila as axilas. A violência necessária neste tipo de filme é usada com moderação, mas surte efeitos atordoantes – o episódio do dedo no cortador de frios me lembrou a sensação que tive no estômago na passagem de Réquiem, quando o braço do Harry aparece gangrenado. A trilha sonora também merece destaque, combinando perfeitamente o mais pesado do rock em momentos de glória, enquanto passagens mais leves são embaladas ao som country, que promove uma introspecção das personagens. Fato curioso foi Axl Rose ter cedido o uso da música Sweet Child of Mine sem que o filme desembolsasse nada de seu pequeno orçamento para tal.

Nesta vida, podemos perder tudo que amamos,
e perder todos que nos amam.
Muita gente disse que eu nunca voltaria a lutar.
Os únicos que podem me dizer quando parar são vocês.

Direção: Darren Aronofsky
Gênero: Drama
Duração: 115 minutos
Elenco: Mickey Rourke, Marisa Tomei, Evan Rachel Wood

Anúncios

Tags: , , ,

4 Respostas to “O Lutador (The Wrestler, 2008)”

  1. Bruno Pongas Says:

    O Lutador, apesar de preconceituosamente parecer mais um filme de luta violento e sem conteúdo, se revela um excelente drama. Rourke – como dito pela esmagadora crítica – traz um personagem fantástico, que sem dúvidas ficará marcado na história do cinema. Filme altamente recomendado.

  2. Marcela Says:

    Olá, adorei o blog de vcs, continuem smp assim. Sobre o filme, não assisti ainda, mas parece ser mto bom.

  3. Luís Says:

    Eu simplesmente adorei esse filme; achei-o tão interessante e com tão grandiosas interpretações que não posso deixar de recomendá-lo a todos que procuram um bom drama.
    A participação de Marisa Tomei é pequena, mas me emocionou bastante. Embora pouco saibamos da sua personagem, nós nos sentimos enternecidos por ela. No final, me veio aquela vontade de chorar; principalmente quando ela diz Estou aqui; desta vez eu estou realmente aqui.
    Mikey Rourke e Marisa Tomei fizeram um excelente trabalho e o diretor conduziu-os de maneira excelente, nos proporcionando quase duas horas de belíssimo raciocínio.

  4. Ednaldo Says:

    Achei o filme fantástico, com a atuação brilhante de Rourke, que não via desde o filme Franchesco (S. Francisco de Assis). Realmente este drama trata claramente o que acontece no dia a dia de todos nós quando chega a uma idade. Adorei e recomendo a todos.

    Abraço e que em nossas horas de angustia possamos estar ao lado de nossos entes queridos.

Comente!

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s


%d blogueiros gostam disto: