Cosmópolis (Cosmopolis, 2012)

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Por Alessandra Marcondes

Cosmópolis é um filme difícil por diferentes motivos. O enredo é quase teatral, emprestado do livro homônimo em que foi baseado. O cenário pouco muda: uma limusine. O protagonista é um ricaço de 28 anos frio, superficial e extremamente vazio que mais se distancia do que se aproxima do público comum. Como contexto, temos a derrocada do sistema capitalista e vários protestos políticos que sugerem uma anarquia. Some a isso uma pitada de sexo, violência e muitos dilemas da modernidade.

Quem dá vida ao ricaço Eric Packer é Robert Pattinson, que surpreende quem guarda um preconceito pelo vampiro teen de Crepúsculo. A personagem sente a necessidade de cruzar uma Nova York caótica em busca de um corte de cabelo, e enquanto isso faz reuniões, consultas médicas e sexo dentro da limusine. O filme todo é meio bizarro, com destaque para a relação assexuada de Eric com sua esposa poetisa – que, altamente sensível, é o oposto dele. E Oscar de bizarrice extra plus advanced para a cena de excitação que envolve o exame de próstata, uma subordinada e uma garrafa d’água.

A trama promove uma discussão importante sobre o mundo pós-moderno, onde dinheiro e tecnologia se encontram dando novas formas à nossa concepção de futuro. E sobre como a pós-modernidade pode transformar os seres humanos em eternos adolescentes, que procuram sensações inexploradas e cada vez mais intensas, como um tiro na mão, para encontrar um sentido na vida frívola que se leva. Mostra como somos frágeis, ao ponto de sermos atingidos por uma torta na cara de um desconhecido ou pela tristeza por um ídolo – o cantor de rap – ter morrido, mesmo cercados de seguranças. E que a nossa noção de felicidade foi totalmente deturpada, pois dinheiro e sucesso são capazes de transformar nossas informações e nossos valores em coisas terríveis.

Paradoxo notado é o fato de uma trama tão ‘futurística’ girar em torno sempre da busca pelo passado: mais do que um corte de cabelo, Eric cruza a cidade em busca do rosto conhecido do barbeiro amigo da família, que remete às memórias antigas desde o tempo de seu pai. A cena da barbearia é a que mais vale a pena no filme – ao contrário da supervalorização da crítica em torno do último diálogo com Paul Giamatti, que devia ser o clímax do filme, mas é eternamente boring. A da barbearia é melhor pois torna palpável a distância observada entre nossos antepassados e a juventude de hoje, que cultua o corpo, o prazer fácil e barato, o desapego, a violência verbal e carnal. Para quem tudo é passageiro e a vida é altamente descartável, tornando a morte iminente em uma forma de liberdade.

Vale a pena ler: entrevista com o diretor David Cronenberg n’O Globo.

Feeling: o filme é chato, cheio de diálogos retóricos, mas tem seu mérito por discutir os dramas da vida moderna. Se você é um ser humano comum da classe ‘mérdia’, se sentirá bem por ver a felicidade nas pequenas coisas e ter uma vida normal, mesmo sem bilhões na conta.

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Uma resposta to “Cosmópolis (Cosmopolis, 2012)”

  1. Maria Beatriz Papaleo Says:

    Ótimo filme, perturbador,os ditos diálogos que muitos consideram longos em demasia são inteligentes e deveriam ser degustados pelo público; falam de situações reais, questionamentos sobre a realidade caótica dos nossos dias. Robert Pattinson, uma surpresa: está ótimo no papel, de início sugando a energia de todos que o cercam, no final esvaindo-se no vazio interior de uma vida na qual ele não vê mais sentido!

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