A Árvore da Vida (The Tree of Life, 2011)

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Por Alessandra Marcondes

Meu Deus! Fazia tempo que eu não tinha vontade de sair do cinema antes da sessão acabar. O filme é uma mistura de 2001 com Foi apenas um Sonho. Tudo bem que a gente gosta de subjetividade, mas JUST IT não faz meu estilo. É um filme beeeem difícil. O Inácio Araújo, da Folha, achou o suprassumo da arte e escreveu que é uma linda história sobre o sofrimento desde os primórdios da humanidade.

Mas… sério que 20 minutos só de ensaios sobre a evolução das espécies era necessário? E colocar 2 dinossauros no meio do longa, um pisando na cabeça do outro, não foi forçar a barra?

Por mim, se não tivesse toda esta viagem darwiniana, ele não seria todo de se jogar fora.

É a história de sofrimento de uma família que de repente perde o filho/irmão, mesmo sendo tão correta de acordo com a moral e os bons costumes. Gostei da leitura sobre a mudança da fé em momentos de desespero ou de grande decepção. Deus geralmente é a válvula de escape para os nossos problemas, mas também a origem das nossas resoluções. Doloroso acreditar em um Deus assim, tão bondoso e cruel ao mesmo tempo.

Quando o roteiro volta pra contar a trajetória da família antes da morte, para mim compara a todo momento as atitudes do pai (Brad Pitt) e da mãe (Fiona Shaw) com a de Deus. Mostra pra gente que se Deus fosse só bom, como a mãe, perderia o controle da sua Terra, assim que o filho mais velho (que quando cresce é interpretado por Sean Penn) se volta contra ela. Se fosse só rígido, como o pai, impediria as pessoas de amá-lo. E para mim o maior acerto  é esta metáfora, do lado bom e ruim da fé e sua ação sobre nós, personificada nos filhos de maneiras tão marcantes, e até perturbadoras. Quando o filho mais velho diz ‘Pai, mãe, vocês sempre estão brigando dentro de mim’, é exatamente disso que se trata – de como o Deus consolador pode brigar com o Deus punitivo dentro de nós, e como eles nos confundem e se completam ao mesmo tempo.

Mãe e pai fazem um contraponto na criação dos filhos que pode ser comparado às duas faces de Deus: punitiva e consoladora

Também é um filme sobre a aceitação da morte doída, repentina, avassaladora. É um filme bonito para quem tem fé, porque (ao contrário de Melancolia, do qual eu falei neste post aqui), nos diz: no final, tudo dá certo. Há alguém lá do outro lado para ‘nos guiar até o final dos tempos’. Vamos nos encontrar todos em um lugar bonito onde a dor não tem lugar.

É legal também o jeito como a história coloca a ciência e a fé lado a lado, coisas que a gente reluta em misturar, como se fosse água e óleo. A mãe da família diz em certo ponto “Há dois caminhos na vida: um da natureza, e outro da graça. Você tem que escolher qual deles seguir”. Mas o que o filme deixa claro é que não dá para escolher um só. Para aquela família, foi Deus que criou todas as coisas, e é este o caminho que eles devem seguir. Mas em seguida, com os 20 longos minutos em que parece ser contada a história da evolução do homem de acordo com a ciência, o roteiro nos mostra que mesmo aquela família, que escolheu o lado da graça, não tem como escapar da força da natureza.

Na minha interpretação, com os 20 longos minutos de explosões, formações rochosas, micro organismos marinhos e a aparente crueldade gratuita entre os dinossauros – que evolui para o discurso de Sean Pean sobre a cobiça do ser humano – o filme explica que a gente criou a fé e tudo o que ela envolve – incluindo Deus – pra fazer um contraponto à crueldade deste mundo, porque viver seria muito difícil sem ela. Cabe a você acreditar ou não. Eu, cética e ateia que sou por exemplo, não comprei o final de ‘todos viveram felizes para sempre, juntos em um lugar melhor’.

Por tudo o que eu falei até agora, o filme tem seu mérito, não dá pra negar. Mas também não dá pra não mencionar que ele discute todas estas questões da maneira menos didática POSSÍVEL. É tipo aquela aula do curso que tinha potencial para ser magnífica, mas que você descobriu que é dada por um professor chato, às manhãs de sábado, em transparências de retroprojetor. É artístico e lúdico – demais. Mas é questão de opinião, de gosto. Eu ainda acho que dava pra deixar menos subjetivo, desenvolver melhor os dramas familiares e nos poupar de tanta ladainha (sério, deu vontade mesmo de abandonar o filme na metade) sem perder a mensagem nem a beleza.

Também achei altamente dispensável o papel de Sean Penn. Pela sua declaração ao jornal Le Figaro, nem o próprio Sean Penn entendeu seu papel na trama, e diz que Terrence Malick nunca explicou direito o que queria dele – então, o que podíamos esperar? Nada mais do que uma participação rala e sem sentido, facilmente descartável.

Devaneios de Sean Penn são altamente descartáveis em Árvore da Vida

Consegui terminar esta crítica meses após ter assistido, pois só agora cheguei a um veredito: vale a pena assistir o filme, pois ele dá uma aula de história da humanidade, e as cenas dos dramas familiares salvam o público. Mas vá preparado para um filme longo, chato e arrastado. Sim, é possível que um filme chato pra caramba valha a pena apesar de tudo – quem não concorda que Terra em Transe é uma obra prima, mas chato pra chuchú?

Feeling: um filme justo sobre os temas Deus x natureza, fé x incredulidade. Vale a pena, mas vá preparado para 20 minutos de pura ‘arte’ (cof cof, embromação).

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Uma resposta para “A Árvore da Vida (The Tree of Life, 2011)”

  1. Bruno Pongas Disse:

    Li a matéria com o Sean Penn e concordo inteiramente com ele – e com você. Se o filme tivesse menos devaneios seria bem melhor.

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